Recover – Capítulo 1 – Sinapses


RECOVER #1

“Neuraventura – Recover – # 1“, de Glaucio Aranha.

Capítulo 1 – Sinapses

 

01 de agosto de 2013

Heiz Schäfer (“Neuraventura – Recover” #1, de Glaucio Aranha @Direitos reservados

Enquanto o mundo se contorce em redes de fofoca oficiais ou leigas em relação aos novos documentos vazados pelo Edward Snowden sobre a espionagem dos Estados Unidos, eu avanço velozmente pelos dezesseis quilômetros de estrada silenciosa que me leva de Frankfurt para Dietzenbach. Eu, o espião. Eu, o quase humano. Eu, a solidão.

São apenas vinte e cinco minutos de distância de Frankfurt até minha cidade natal. Hoje, quem percorre essa rota não é o espião que está no volante, mas o que resta de mim, do ser humano que já fui. É a minha fuga anual até o local que me lembra um pouco quem já fui e onde permanecei alguns dias de férias. Se é que isso existe na minha profissão. É mais uma espécie de tentativa de não me perder no que eu sou hoje, esta miscelânea de informações cruzadas, implantes artificiais e vidas ficcionais. Cada vez estou mais distante de mim e preciso de cada caco da minha história e de ecos de afeição.

O carro desliza, mantendo velocidade constante, em direção à Kruggasse. Os registros no painel do carro me mantém conectado com um amplo espectro de informações sobre o mundo. Neste exato momento, indicam que o PIB americano subiu 1,7% e o Fed tenta acalmar os mercados, falando que o crescimento é moderado. Até parece… Qualquer um mais informado tem em mente que é o nono mês consecutivo que a economia norte-americana registra crescimento. Imagino como os agentes da S.W.O.R.D. devem estar celebrando, pois a venda de armas também vive um cenário igualmente de alta.

Se bem que a S.W.O.R.D. não é a única megacorporação agindo nas sombras e as outras quatro não irão deixar essa bonança durar muito. Basta ver como a União está incrivelmente infiltrada em nível global. Até o mais inocente aplicativo é um braço da União na jugular de cada pessoa. Vejo as pessoas entretidas, por exemplo, com redes sociais sem imaginar que estas plataformas estão mascarando um novo braço no monopólio comunicacional da União, obtendo dados de todos em todos os locais.

download (1)Enquanto faço a curva na Braubachstraße, que se torna a via Fahrgasse pouco depois, o monitor exibe os gráficos da penetração da União nos mercados de comunicação. É surpreendente como são agressivos e tão bem maquiados de cordeiros. A maior parte da comunicação on-line acontece nas suas mãos. As supostas “escolhas individuais” da massa seguem a batuta de um sistema delicadamente impositivo, sedutoramente indiferente. Não há opção, além da sujeição risonha entre “curtir” e “compartilhar”. Os cliques podem ser travestidos com interfaces engraçadinhas, mas na prática se resume a consumir informação e distribuir informação. Cada cidadão é uma máquina de produção e circulação de memes, estações replicadoras, nada além disso.

Neuraventura - 07
Gosto da paisagem do verão. Acho que o clima quente foi me conquistando ao ao passo que meu corpo foi se tornando menos termogênico ou talvez seja o fato dele fazer com as que pessoas saiam mais às ruas. Viro à direita na Weckmarkt, enquanto neste exato momento ao redor do mundo multidões de pessoas alimentam as engrenagens da informação midiática para a União. As alternativas são piadas grosseiras, variações do mesmo produto na mão dos mesmos mono ou oligopólios. Mil possibilidades de escolha para uma mesma corporação deitada nas sombras.

Além disso, temos o fato de que as regras de economia de mercado passam bem distante da realidade dos monopólios. O sujeito que cai na rede é preso como uma mosca e nem sequer percebe o sarcasmo da metáfora. Ou ele cede ou está condenado ao ostracismo comunicacional. Alguns inocentes acertam ao optar por uma vida menos plugada. Não que fiquem mais livres da vigilância e do controle, mas pelo menos alimentam menos o Big Brother. Nada seria mais subversivo para o capitalismo atual do que um homem satisfeito.

A União guarda certo humor em sua crueldade produtiva e organizacional. Os usuários são tão produto quanto os produtos que eles consomem. São encorajados a se vender cada vez mais, a caprichar na embalagem, a criar ficções de si mesmos e a transformar suas vidas em um espetáculo, ainda que falacioso. A existência está mais do que nunca na linguagem. Pensando bem, a União é uma especialista em
sadomasoquismo. Suas vítimas sentem prazer em doar sua dor para receber mais desejo e insatisfação e incompletude como bônus.

Enquanto viro à esquerda na Zum Pfarrturm, recebo uma atualização bem interessante, que deixa claro que a União está usando Snowden com maestria. Hoje, ele vazou a informação de que a Agência de Segurança Nacional americana estava usando o Xkeyscore para acessar conteúdo de mensagens dos usuários. Fato. Só não é revelado que este recurso foi desenvolvido nos laboratórios da própria União, sempre sob o nome de uma subsidiária, e distribuído para a sociedade comum, com um décimo do potencial efetivo do recurso, como de praxe entre todas as Top 5.

Xkeyscore-worldmapO Xkeyscore foi, na verdade, um enorme cavalo de Tróia dado de presente pela União para a S.W.O.R.D., que não só o aceitou e fez uso em suas bases de operação nos Estados Unidos, como também caiu feito um pato. Não sei como isso se deu, mas é um tipo de “ingenuidade” incompatível com o grau de segurança de nossas instituições. Neste caso, só tem duas respostas: ou a União traiu um acordo bilateral sobre não imagino o quê, mas que poderia ter levado a S.W.O.R.D. a confiar no recurso; ou a União infiltrou alguém na S.W.O.R.D. para mascarar a origem do desenvolvimento do Xkeyscore. Estas seriam as hipóteses mais válidas, no momento. Eu apostaria mais na segunda hipótese, pois é algo que já foi feito por nós da Rüchenmark contra a própria União.

No fundo, o resultado final é que a União está esfregando na cara dos chefões da S.W.O.R.D. o quanto estão influentes e o quanto são simultaneamente necessários e perigosos. Mandam, assim, o recado: “temos muito mais na manga, não mecham com a gente de novo”. Mas essa ação, em si, já é uma declaração de guerra, o que parece ser uma coisa muito irresponsável. A maioria vê a União como capitalistas do entretenimento midiático e não mais do que isso. Não entendo como até hoje continua prevalecendo estes estereótipos reducionistas entre jogadores tão grandes. O que a teria levado a isso?

Por outro lado, isso tudo é bem conveniente para muita gente, afinal os desentendimentos e enfrentamento entre megacorporações do nosso porte são episódios raros e criam sempre grandes oportunidades tanto para aquelas menores que sonham se tornar peixe grande, quanto para transformações internas, o que, decididamente, me interessa em ambos os casos. Este cenário desloca a atenção da própria União para relações externas, o que vem a calhar para as transformações que eu e Henrique estamos articulando.

O carro avança suavemente pela Mainkai e à medida que passa pela Schöne Aussicht, eu me dou conta de uma informação que estava passando despercebida por mim. Foi uma matéria publicada no “Financial Times”, escrita por Jonatham Wheatley. Ativo a metabusca em meu cérebro e o acesso a pesquisa no jornal, cruzando-os. Não demora a localizar: “desconfortável verdade está se fazendo sentir no mundo dos investidores em mercados emergentes: está morta a história de crescimento do mercado emergente”. Sim, é isso que está norteando os últimos movimentos da União, pois afeta diretamente a corporação. Depois que a S.W.O.R.D. tomou o espaço que a União tinha na América do Norte, eles fincaram as unhas nos países da BRICS para recuperar terreno.Brics

Ocorre que a BRICS é um terreno pantanoso para se construir algo. É mais uma promessa de investimento do que algo efetivamente constituído. O Brasil e a Índia apresentam um crescimento lento perto do esperado e são meio indolentes em termos de organização politicoeconômica. Por sua vez, já faz um bom tempo que a China e a Rússia são duas pedras grandes no sapato da S.W.O.R.D.. A União ganha terrenos nessas duas em face de uma série de contingências culturais e ideológicas contra a S.W.O.R.D.. Por outro lado, estas mesmas condições comprometem a formação de uma aliança forte. Afinal de contas, ambas são nações com uma história não muito democráticas. Além disso, a União ainda tem que disputar os dois países com a EDO, que não só é uma corporação extremamente sólida e presente no oriente, como também impõem considerável resistência às corporações ocidentais. Por fim, a África do Sul é a menos problemática da BRICS, mas também a menos influente.

A questão, portanto, é o mercado norte-americano. Por isso, desestabilizar seu cenário politicoeconômico está na ordem do dia. O que me leva a crer que a guerra entre a União e a S.W.O.R.D. é inevitável. Como a maioria das fatias desta pizza já está no prato de alguém, o único rumo será buscar novos aliados. Isto não me agrada. Pelo o que eu conheço da S.W.O.R.D., o diálogo com a EDO será pouco produtivo e eles sabem que se aliar ao 13 é um tiro no pé. Novos parceiros… Eu só vejo um caminho e é bem perigoso: uma aproximação com as corporações do Oriente Médio que estão ambicionando crescer. Céus, se elas se meterem lá vão mexer em um gigantesco vespeiro, e vai acabar sobrando vespas para todo mundo.

Wizard's_ChessO Oriente Médio mantém uma relação política muito complicada na polaridade amigo-inimigo. A S.W.O.R.D. já se meteu outras vezes por lá, e sem dúvida é um mercado de consumo de armas muito voraz. No entanto, já pagaram caro e não apenas uma vez, como no caso do Irã e do Afeganistão, além de conflitos menos explícitos para o ocidente. Esses burocratas idiotas não aprendem nunca. Eu arrisco dizer que a chance deles levarem a termo a negociação é grande e maior ainda a da coisa explodir na cara deles e se tornar incontrolável para todas as demais. A S.W.O.R.D. ainda não aprendeu que os djins não realizam desejos de coração aberto.

Ocorre que nessa disputa no Oriente Médio, o perfil de belicismo e financismo da S.W.O.R.D. vai ter mais chances de conquistar alianças do que a União com sua veia de mídia high-tech e entretenimento. Então, para onde a União vai? Arrisco dizer que para a assimilação de novos jogadores, vai querer atacar a partir da fragmentação da política e da economia mundial.

b351945796No final da B3, entro na Babenhäuser Landstraße e interrompo meus pensamentos para simplesmente olhar ao redor. Meus olhos vão com exatidão ao ponto onde muitos anos atrás o Dr. Rief parou o carro para me advertir sobre o risco que eu iria assumir e que minha vida não seria mais a mesma quando nossa viagem terminasse. Diminuo a velocidade do carro, enquanto meus olhos miram o lugar, que tem para mim um valor quase religioso. Fotografo o momento. Daqui a pouco, estarei chegando na antiga propriedade de minha família. Minha peregrinação anual.

Ultrapasso a rotatória e pego a primeira saída para a Sprendlinger Landstraße, na B459. Recebo o download automático de alguns relatórios de corporações que sonham ser tubarões ao redor do mundo. Na Itália, a antiga Máfia começa a explorar novos investimentos. Acesso os bancos de dados da Europol e vejo alguns relatórios curiosos. A ‘Ndrangheta, na Calábria, começou a entrar na área de energia eólica para lavar dinheiro e tráfico de lixo para transferência ilegal de resíduos entre países. Devem estar se achando o máximo. Nem imaginam o que é realmente lucro e o que é realmente uma organização criminosa. Sequer suspeitam da existência do 13, que já assimilou até mesmo a Cosa Nostra.

O 13 é o ápice da cadeira alimentar do crime organizado e eu arriscaria dizer que esse tubarão seria a única corporação capaz de fazer a S.W.O.R.D., a União, a EDO e a Rüchenmark se unirem com um objetivo comum. Com abrangência global, conta com representantes das treze maiores organizações criminosas do mundo. Confesso que o pouco que aprendi sobre eles me causou muita aversão e não receio em dizer: medo. O fato é que enquanto as demais querem dinheiro e influência e dinheiro e territórios e dinheiro e… O 13 quer poder, sem limites, sem finalidade além do acúmulo de poder nas mais amplas possibilidades desta palavra. O que ouvi a respeito coloca sua cúpula entre o nível de loucura absurda e a sociopatia radical, um amálgama de interesse financeiro, culto religioso, sociedade secreta; enfim, uma sociedade de fanáticos por poder em forma de corporação.

Ao sair da B459, viro à esquerda na Theodor-Heuss-Ring, e me lembro do interrogatório que presenciei de um agente do 13, capturado dentro de uma base altamente secreta da Rüchemark. No breve espaço de tempo que foi deixado em uma sala, o sujeito bateu a cabeça contra a parede até ter uma hemorragia cerebral. Só obtivemos informações através do hackeamento de seu cérebro e o que obtivemos me tirou a tranquilidade por algumas noites. Por sorte, dominamos biotecnologia em um nível muito superior ao nível tecnológico deles e temos recursos disponíveis que eles sequer desconfiam. O hackeamento neural é um dos mais simples.

Dietzenbach: aqui estão minhas raízes e as poucas referências que ligam o ser que eu sou hoje, uma simbiose tecnorgânica, ao pouco da pessoa que já fui. Atravesso boa parte da cidade, quando me afasto rumo à área rural até chegar à fazenda, que começa a surgir no horizonte. Aqui dormem minhas lembranças mais remotas e mais humanas. Desligo o carro e, ao abrir a porta, o aroma menos poluído vem carregado de memórias. Eu me levanto e com as mãos apoiadas sobre o capô me permito gastar alguns longos minutos admirando essa pintura e seu relevo. O silêncio mais amplo, manchado por pinceladas de pios de pássaros e pelo suave toque do vento nas orelhas.

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