Recover – Capítulo 2 – Rüchenmark: ‘patria potestas’


RECOVER #2

“Neuraventura – Recover – # 2”, de Glaucio Aranha.

Capítulo 2 – Rüchenmark: ‘patria potestas’

01 de agosto de 2013

DSC04274“A antiga propriedade de meus pais”, repito isso tanto, como se ao dizê-lo fizesse uma oração, uma espécie de mantra. Ela é mantida quase como era na época em que eu morava aqui. Hoje, dois funcionários trabalham aqui, incumbidos com a tarefa de fazer com que ela esteja sempre limpa e conservada, e o menos alterada possível. Mas a verdade é que até isso é uma ilusão, uma reconstituição, um simulacro. A fazenda atual simula a original, mas não é ela. Não apenas pelas ausências óbvias: meus pais, minha época, mas porque quase nada é original.

Durante as duas grandes guerras a fazenda foi destruída por duas vezes para dar lugar às necessidades que o período impunha. A versão atual faz parte dos meus registros mentais. Sempre na esperança que algo importante não tenha sido deletado e substituído por novos dados, por completamentos que buscam manter coesa a malha do que entendemos como nossa narrativa pessoal para que ela continue verossimilhante.

No pós-guerra, muitas fazendas foram transformadas em empresas agrícolas. e aqui não foi diferente, pois eu nem sempre mantive o controle total das terras da fazenda. Houve períodos em que tive de viver fora do país por vários anos, confiando a administração a terceiros, que nem sempre tinham a mesma visão de manutenção do que a minha. Em cada um desses longos períodos de ausência, ao retornar encontrei mudanças que me irritaram profundamente, mas quase sempre fiz com que fossem restauradas tais alterações. Aqui, era apenas mais uma fazenda nos arredores da aldeia pequena, mas foi neste local que eu passei anos importantes, os quais são para mim joias, documentos, âncoras. A fazenda não é para mim uma “propriedade de férias”, mas o museu de mim mesmo.

DSC04279Cada elemento é importante. Os bonecos de vaso que minha mãe criou ainda evocam sua presença para mim. Os vasos foram trocados com o tempo, as plantas também foram substituídas, mas eles permanecem lá, como se ela mesma estivesse presente em cada detalhe. E quando estou aqui, meu próprio nome – meu verdadeiro nome – soa diferente: Heinrich Schäfer. Isso porque depois que parti de Dietzenbach, já tive muitos nomes. Nos últimos 18 anos, tenho sido Heinz Schäfer. Uma troca de nome que pode ser meio óbvia, a princípio, já que Heinz é o diminutivo de Heinrich, mas diante de tudo que vivi e vivo, isto, decididamente, é pouco importante.

Eu nasci em 1867. Tenho 148 anos, mas minha aparência física permanece congelada nos meus cinquenta anos. Isso não pode ser justificado facilmente perante a maioria das pessoas. Assim, a troca de identidade e de local de atuação tem sido obrigatória ao longo dos anos, em intervalos regulares. Entre a última mudança e o início desse ciclo de novas identidades já se vão muitos anos; o que já garantiu suficiente interrupção temporal suficiente para retomar alguma mais próxima da verdadeira. Ou simplesmente, eu esteja vivendo um período de… De certo modo, começo a me questionar se nosso tempo de vida natural não está dentro do que suportamos viver.

DSC04271Como Heinrich Schäfer, eu vivi de 13 de maio de 1867 até 12 de maio de 1917. Foram muitos anos de uma infância bastante ativa e ao mesmo, arrisco dizer, inocente, se comparada a tudo que ocorreu mais tarde. Tudo absolutamente cotidiano e estável. O meu nascimento foi na própria fazenda. A capela em que fui batizado ainda está de pé e cuidadosamente mantida em cada detalhe. Naquele ano fez muito mais frio do que o habitual, segundo contou minha mãe.

Ela entrou em trabalho de parto no final da tarde, tinha ido até a capela fazer suas orações. Meu pai teria corrido até o celeiro para pegar a charrete, mas quando a estacionou na frente à capela, eu já estava rompendo em choro no chão. O nascimento não estava previsto para aquele mês, pelo menos pela contagem deles. Fui prematuro; como isto me soa irônico, atualmente. Meus pais diziam que o nascimento na nave da capela mostrava que eu nasci abençoado, pois é…

Quando nasci, Dietzenbach, era bem menos do que é hoje. Levei a mesma vida de qualquer outro garoto interiorano. Com perspectivas locais, boa dose de religiosidade protestante e uma certa estranheza para com os avanços que me chegavam por descrições em segunda mão.

DSC04307Minha educação foi humilde e entulhada de preceitos, mais pautados em fé do que razão pela parte de meus pais, mas exacerbava carinho e afeto. Eu, todavia, era bem mais racional e bastante influenciado pela figura de meu avô materno que se erguia no horizonte familiar como uma figura intelectual e avançada. Ele era não só meu avô, mas também meu professor e de outras crianças das redondezas. Algumas vezes ele e eu sentávamos nas carteiras de madeira para as Geheimunterricht.

Era um segredo nosso e ele fazia a questão de me chantagear com ternura, dizendo que os temas abordados nestas “lições secretas” não deveriam ser falados com ninguém. Ele fazia longas reflexões sobre a religião, muitas delas críticas ao ponto de me assustar e fascinar simultaneamente. Gostava se relativizar muitas coisas e princípios. Se posso definir meu avô em poucas palavras diria: ele era um homem que duvidava. Sim, isso o definiria bem. E me fazia perguntas que eu não podia responder, o que por certo me angustiou até eu perceber que não eram perguntar para serem respondidas.

– Heinz, para onde vai a água do rio?

– Para o mar.

– Mas se toda ela vai para o mar, por que o mar não transborda?

– Ele… Ele… vaza?

– Mas se vazar, vai para onde?

Decididamente, não eram os temas que importavam, nem as perguntas, nem as respostas. Ele queria me habituar a perguntar e, principalmente, a não ter medo das perguntas. Meu avô admirava profundamente a máxima socrática do “sei que nada sei”, mas queria me fazer mergulhar nela e não apenas ouvi-la, entendendo seu significado mais raso. Sim, ele gostava de contar histórias sobre as profundezes do mar, totalmente loucas e alucinadas, mas deliciosamente fantásticas. E sempre haviam “profundezas”: as profundezas do espaço, da floresta, das cavernas, dos vulcões, da mente e do espírito. Curiosamente, achava enfadonho qualquer tópico sobre as profundezas do Inferno: “o Inferno é a Ignorância”.

 

 

 

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  • Nos anos do pós-guerra na agricultura, um processo de concentração. Para os agricultores individuais, tornou-se necessário para gerenciar mais e maiores campos do que antes. Da mesma forma, houve uma tendência de aumento do número de animais.
  • Devido ao espaço limitado nas aldeias era de modernização e ampliação de fazendas dentro dos limites da aldeia geralmente não é viável.

Aussiedlerhof típica em Unterfranken

Do ponto de vista do estado de planejamento , havia razões que falou para a promoção de Mudança:

O planejamento teve de estabelecer a meta de uma igualdade de condições de vida em todas as partes da República Federal. A deslocalização de fazendas foi um dos meios para ajustar as condições de vida no país para os padrões modernos da cidade. Ao mesmo tempo conflitos intra-locais entre a agricultura eo uso residencial adjacente poderia ser localmente degradar.

regulamentos legais [ Editar | Fonte Editar ]

No início de 1950 houve medidas do governo para promover evacuações. Eles ficaram em uma conexão direta com outras medidas para melhorar as estruturas agrícolas , em particular com medidas de emparcelamento .

A Lei de Consolidação Terra 1953 visava aumentar a competitividade da agricultura. A lei também deu a procura expressa de um afrouxamento das camadas espaciais.

O estabelecimento de repatria fazendas está em área externa ainda permitido (construção privilegiada, ver § 35 parágrafo 1. Building Code – Código de Construção). § 35 par. 4 BauGB escreve isso, mas antes face-poupança e exteriores do edifício amigável.

Impacto das expulsões [ Editar | Fonte Editar ]

 

 

Fui dado como morto em Berlin. Oficialmente, eu teria morrido aos 50 anos em decorrência da explosão de uma bomba, em 1917. Mais um entre os mais de dez milhões de mortos deixados pela Primeira Guerra. A Alemanha estava arrasada: campos agrícolas destroçados, indústrias destruídas, a economia em frangalhos e a população empobrecida e revoltada. Nesta época eu já atuava na Rüchenmark e, mesmo nas sombras, ela não passou impune. Na verdade, foi durante a Guerra que a corrida das quatro corporações começou com um fôlego sem igual. No florescer da modernidade, começou o movimento de cooperação e fusão de sociedades ditas secretas, bem como uma corrida hegemônica. Minha morte, entre tantas mortes e miséria, era insignificante. Não foi questionada, até porque não havia qualquer parente para querer o corpo.

Por outro lado, a informação não estava tão longe da verdade assim. De fato, houve uma explosão na qual perdi um braço e um olho, além de sérios comprometimentos de mobilidade. Não foi na Guerra em si, mas em uma tentativa de invasão a uma das corporações que estavam apoiando os Aliados, a S.W.O.R.D.. Em 1917, não foram os Estados Unidos que entraram na Guerra, mas a corporação que entrou na usando a nação americana como ferramenta. Enquanto os olhos comuns viam as mazelas da Guerra no cotidiano, outros olhos viam o enfrentamento da S.W.O.R.D. contra a Rüchenmark, então a maior corporação secreta do mundo, querendo dominá-la e pilhar suas tecnologias.

Foi num ataque da S.W.O.R.D. ao nosso centro nos arredores de Berlim, que uma explosão me atingiu. Cheguei a ficar em coma durante certo tempo. Um dos segmentos da Rüchenmark vendo a derrocada e a vitória dos Aliados em vista, simulou a morte de todos os “agentes especiais”, como eu. Outros tantos foram dados como mortos e tiveram a missão de ocultar dados secretos e maquinário. Assim, fui chamado para uma missão especial após acordar. Eu seria dado como morto e assumiria uma nova identidade. Seria o guardião de boa parte dos arquivos secretos da corporação e deveria me exilar, vivendo recluso até a segunda ordem. Ao mesmo tempo, foi-me feita uma proposta de recuperação dos membros e partes perdidas, investindo em mim os restos de biotecnologia disponíveis antes de destruir os laboratórios restantes.

Aceitei sem qualquer dúvida, como já havia feito outrora, e fui novamente o experimento de mais um pacto e experimento científico que transformaria ainda mais minha vida, já cheia de revoluções biológicas. Meu ciclo de nascimentos e mortes oficiais começava, tendo sempre um padrão que se repetiria adiante. Os registros de nascimentos começariam sempre no dia 13 de maio e terminariam sempre no dia 12 de maio, cada vez empurrando para mais vinte anos o ano de meu nascimento e falecimento anterior, mantendo-me sempre com uma idade oficial entre trinta e cinquenta anos.

Embora padrões não sejam bons para esse tipo de coisa, tem sido uma imposição minha. É importante que seja assim, para mim. Mantém uma certa unidade, enquanto a cada uma delas perco cada vez mais minha humanidade. Minhas condições têm sido respeitadas. Nunca deve começar em Dietzenbach. O único registro para minha cidade natal deve ser o original.

Minha identidade seguinte foi como o jornalista Klaus Kolbe, novos registros criaram um nascimento em Berlin, no ano de 1887, e uma morte na mesma cidade, em 1937. Desta vez, eu teria sido vítima dos nazistas, tendo sido incinerado nas fornalhas de Auschwitz, por pactuar com os judeus dando fuga a alguns. O crematório foi uma desculpa perfeita, pois a indisponibilidade de um corpo é sempre essencial. Ao chegar aos cinquenta anos, veio novamente a necessidade de trocar de identidade.

Meu nome foi mudado, então, para Hans Schäfer. Um acadêmico alemão que se radicou nos Estados Unidos. Teria nascido em Frankfurt, em 1907 e me mudado para Nova York aos trinta anos, em busca do sonho americano. Na verdade, foi minha primeira ação de espionagem mais centrada em outra corporação, no caso a S.W.O.R.D.. Meu desempenho foi perfeito, sem falsa modéstia, mas os cinquenta anos chegaram e retornei à Alemanha, sendo dado como morto em Berlin, em 1957, num trágico atropelamento que me teria me desfigurado e carbonizado.

A seguir, surgia Jürgen Kolbe, um descendente de austríacos, que se mudou para o Brasil, após saber-se portador de um câncer terminal e que passou a viver entre o Rio de Janeiro e São Paulo, dilapidando sua herança. Neste período, observei o florescimento da primeira célula da União naquele país, com os primeiros passos dos conglomerados midiáticos. Jürgen teria nascido em Frankfurt, em 1927, no final de sua vida, retornou à Berlin, onde morreu em 1977, vítima de um assassino em série foi morto e teve o corpo depositado em um tanque com ácido, deixando-me irreconhecível. Foi no Brasil que ousei participar de um projeto ousado.

Precisávamos nos infiltrar na União e, a partir de uma conversa informal com pesquisadores da Universidade São Paulo, fui assaltado pela ideia de preparar um espião perfeito para atuar na União. Dar a ele educação, instrução, criar um contexto que o empurrasse para os braços da União e atraísse os olhos da União para ele.

Intencionalmente ou não, fiz algumas intervenções no projeto, desenhando procedimentos que não seriam necessários, mas pareciam ir ao encontro de certas necessidades subjetivas minhas. A Rüchemark já dominava a tecnologia de clonagem humana, em 1971, e considerei que criar um indivíduo a partir de alguém conhecido seria crucial para termos mais domínio e controle sobre ele. Era um argumento falho, eu sabia, mas fingia estar convencido. Outros membros da equipe o achavam falho, mas não haveria impacto maior. Assim, determinei a amostra de qual agente da Rüchemark seria clonado.

A equipe não se opôs, sequer o conheciam, mas como já não acreditavam na relevância do genótipo para a eficiência do projeto, não se opuseram. Assim, foi gerado com sucesso dois embriões perfeitos. Implantamos em duas mulheres diferentes. Ambos vingaram. Para dar bases científicas ao projeto, sugeri que déssemos a um dos clones a adequação ideal para ser o agente perfeito da União, enquanto o sujeito controle seria criado em um ambiente monitorado, mas não controlado.

Coordenei pessoalmente a evolução do projeto, desde a escolha dos pais aos colégios, ambientes e hábitos. O experimento foi um sucesso para o futuro agente. O primeiro clone, aos seis anos de idade, já demonstrava os talentos de seu predecessor biológico, as mesmas inclinações acadêmicas, os mesmos interesses, e um potencial muito maior, pois sua herança genética estava sendo estimulada e explorada desde o nascimento, obtendo um ótimo desenvolvimento. O sucesso com o sujeito principal foi tal que o sujeito controle perdeu cada vez mais interesse. Era uma criança talentosa, mas menos prodigiosa. Por certo o potencial estava lá, mas o contexto era bastante diverso.

Enquanto o primeiro tinha pais tradicionais, muito bem pagos para agir segundo nossas ordens e padrões, vivendo na metrópole de São Paulo, no mais perfeito ambiente possível, com o melhor em todos os aspectos, da educação à seleção de amigos. O segundo vivia sem orientação predeterminada, ou quase sem. Selecionamos uma mulher e fizemos com que um agente se aproximasse dela, seduzindo-a. Depois, outros procedimentos fora da ética comum foram armados para convencê-la de que estava grávida. Com exames trocados e manipulados, obteve-se o “positivo”. Pouco depois, nosso médico convenceu-a com falsos exames de que estava grávida, mas que havia um risco para o bebê se ela não passasse por uma cirurgia. Assim, foi implantado o verdadeiro embrião. O “pai” confessou depois que já era casado e que retornaria à Alemanha, mas garantiu que daria condição de vida para ela e o bebê. Após uma óbvia crise psicológica, tudo se ajustou. Ela teve uma situação econômica mediana, sem grandes luxos, mas também sem carência. O pai ausente, manteve contatos esporádicos, raros episódios presenciais e mais contatos por telefone.

Bem, a diferença entra a personalidade das crianças ficou clara rapidamente. Não demorou a notarmos que o controle comprovava que as condições culturais eram essenciais para empurrar no sujeito principal para o destino desejado. Diante da comprovada inferioridade do segundo sujeito, para a finalidade que tínhamos em mente, providenciamos o aporte financeiro vitalício para a mãe e a criança controle, e passamos a nos concentrar no sujeito que de fato interessava à pesquisa.

Em 1977, após chegar ao término de validade da identidade de Jürgen Kolbe, este foi oficialmente morto e eu deixei o Brasil, embora continuasse acompanhando a experiência. A coordenação do projeto, todavia, foi transmitida para o segundo pesquisador responsável pela equipe.

Iniciei, então, um dos mais difíceis papéis: o do austero, mas galante traficante de armas, Wilfried Schäfer. Ser austero para mim é fácil, ser galante me consumiu um esforço sobrenatural. Desta vez, cheguei a pensar muitas vezes em renunciar à vida de Wilfried para assumir um novo papel. Seu histórico era complexo para meus padrões rígidos, mas a missão exigia.

Ele teria nascido em Berlin, em 1947. Aos quarenta anos, teria se apaixonado pelo oriente, o que o levou a estabelecer bases na India, China, Tailândia e Japão. Sua natureza galante e passional exigia de mim um curso de representação particular, o que não ajudou muito. Minha salvação foi a contidez asiática em assuntos amorosos. Para culturas recatadas, minhas frágeis demonstrações de galanteio pareciam ousadas com mais relevo do que teriam na maioria dos países ocidentais.

Foi custoso cumprir a missão: aproximação e espionagem da ação da EDO e identificação de corporações wannabe do oriente para possíveis acordos ou assimilações pela Rüchemark. Meu desejo de completar os cinquenta anos de Wilfried chegaram para minha paz em 1997, quando teria retornado a Frankfurt, onde morreu em um acidente aéreo em um monomotor que se despedaçou.

Se o período no oriente foi um desafio, por outro despertou em mim certos questionamentos que viriam a redefinir minha vida. O projeto iniciado no Brasil estava agora em um estágio avançado, 26 anos haviam se passado e o sujeito da pesquisa simplesmente se revelou a superação de todas as nossas hipóteses. Como previsto, conduzimos sua vida para que ele se aproximasse da União. Aos vinte e quatro anos ele já ingressou em uma de suas subsidiárias. Estava na hora do meu regresso.

Em 1997, retomei o projeto e alguns outros, mas já não estava mais na posição de coordenador da pesquisa. Eu havia crescido muito dentro da Rüchemark. De qualquer modo, este projeto me envolvia mais que outros. Assim, passei a atuar na supervisão das subsidiárias da corporação na Europa Latina e nos países da América Latina.

Assumi desta vez a identidade de Heinz Schäfer. Dado como nascido em Berlin, em 1967, e morrerá em 12 de maio de 2017, aos 50 anos, ainda não me decidi como. Desde 1997, me aproximei do sujeito de nosso experimento. Nestes dezesseis anos, não apenas me aproximei dele, mas também o esclareci sobre toda sua vida. Fiz com que ele fosse descobrindo os fatos. Até nisso ele superou as expectativas, pois não apenas descobriu a verdade, ou quase toda, mas também não se importou nem um pouco. Houve, contudo, dois aspectos não planejados. O primeiro sua total ausência de moralidade. Não é nenhum louco, simplesmente há nele uma indiferença moral, que já estava presente em seu antecessor biológico, mas que nele chegou a um nível pleno, e que por vezes me assusta. O segundo, que nos tornaríamos amigos, como fui de seu antecedente. E isto de fato me assusta, o que é bem pouco comum, pois ele, Henrique, por vezes tem memórias sobre mim que não deveria ter.

Faço parte de uma gigantesca corporação que, apesar do tamanho, é invisível ao mundo, agindo por meio de centenas de subsidiárias. Chama-se Rüchenmark. Estamos em um paradigma tecnológico muito mais adiantado do que a sociedade comum possa imaginar, mas permanecemos nos bastidores, em uma guerra invisível, com outras corporações de igual porte.

Estaciono na frente da propriedade de meus pais. Paro o carro e vejo que Henrique já está na propriedade. Precisamos ter uma conversa.


* “Bisturi” em alemão é “Skalpell”. O sobrenome de Heinrich é “Schäfer”, mas ele somente conseguia pronunciar “Skalpell”.

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