Recover – Capítulo 3 – Proteus e o Big Brother


RECOVER #3

“Neuraventura – Recover – # 3”, de Glaucio Aranha.

Capítulo 3 – Proteus e o ‘Big Brother’

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Minha longevidade está diretamente ligada à minha atuação “profissional”: sou um ciborgue. Não sou o único, mas estou entre os mais antigos em operação na Rüchenmark, mas nem por isso obsoleto. Se por um lado, a perspectiva de vida prolongada tem algumas vantagens, por outro não é nenhuma maravilha.

No fundo, ainda sou e serei sempre uma cobaia. A quantidade de dor, testes e erros a que estive e estou sujeito fazem desse caminho um desafio digno de mártires. Alguns podem questionar os motivos por quê aceitei fazer parte dessa loucura. Sim, pode parecer masoquista demais, mas sempre há uma história por trás de uma escolha.

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Minha família tinha um pequeno trecho de terra em Dietzenbach, no estado de Hessen, cerca de 16 quilômetros ao sul de Frankfurt. Em 1883, eu tinha 16 anos e caminhava pela propriedade quando ouvi gritos na casa. Corri e encontrei minha mãe caída e ensanguentada na varanda, enquanto meu pai lutava contra dois homens na sala. Avancei furioso para tomar parte da briga, defendendo meu pai. De repente, um barulho seco em minha cabeça. Não me lembro de nada depois disso. Acredito que alguém tenha vindo por trás e me golpeado.

Bem, foi início do fim de Heinrich Schäfer: um garoto interiorano com sonhos limitados ao horizonte da fazenda. Foram meus maiores sonhos. Hoje, represento interesses grandes, com alcance global e me sinto tão pequeno. A corporação à qual estou vinculado é capaz de derrubar nações, mas eu adoraria ter o corpo íntegro e os sonhos pequenos de quando era adolescente.

Acho que é por isso que uma vez por ano volto aqui. Para ver a velha propriedade, preservada cuidadosamente por empregados para um visitante anual. Ao mesmo tempo, para ver que fora minha intervenção artificial para a preservação da fazenda fora do tempo, tudo ao redor continua mudando. Acho que essa fazenda sou eu, ou pelo menos, o que resta de Heinrich Schäfer: um desejo de manutenção, de preservação, rodeado pela inevitável transformação e desconfiguração de tudo o que me cerca.

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A Dietzenbach de hoje não se parece em nada com o lugar onde nasci e cresci. Na época em que vivi aqui, eram pouco mais de 3.700 habitantes na vila. Hoje, são mais de 35.000, mas continua pequena perto de outras cidades. Eu me pergunto sempre porque continuo vindo aqui, mas em pouco tempo vem a resposta. Para sentir que ainda existe algo de humano em mim. Eu preciso ser repetitivo quanto a isso. Preciso.

Depois do “acidente”, algo estranho havia acontecido. Nada como aventuras de super-heróis em que habilidades especiais despertam. Justamente o contrário.Lembro de estar em um hospital e da enfermeira falar comigo. Tentei responder, mas o que saía eram sons lentos e desarticulados. Eu sabia o que queria dizer, mas simplesmente não saía como eu queria.

“Pai… Eu.. eeee… hospital… casa… mãe… não… vermeeeelho…”

Algumas pessoas achavam que eu havia perdido a compreensão das coisas, mas eu entendia tudo, até as frases discriminatórias e muitas vezes ofensivas. Eu não conseguia expressar o que eu queria. Simplesmente não saía, nem falando, nem tentando escrever, nem por gestos. Era como se eu estivesse enjaulado em meu próprio corpo, sem possibilidade de comunicação com o exterior. Estávamos em 1883. O diagnóstico veio tão apressado e errado quanto os conhecimentos científicos da época podiam dar conta, pelo menos para a grande maioria: “O rapaz está demente.”.

Bem, como passei a ser um órfão, acabei parando em um hospício, onde as almas mais generosas me tratavam como um retardado, as piores como menos do que um animal.

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Garcia

Dr. Rief

Algum tempo depois, pouco antes que eu completasse 18 anos, um médico foi visitar a instituição para cuidar de um dos pacientes. Ele interagiu comigo, e ouviu o relato lamentoso do Diretor sobre como eu teria “perdido o juízo”.

“Bom dia, meu jovem, como você se chama?” – ele perguntou.

“Bisturi”* – disse eu com um som mau feito e inexato que contrariava o que eu realmente queria dizer. Eu queria dizer meu sobrenome, mas não saía.

Gentilmente, e com ar paternal e consolador, o Diretor sorriu para o médico visitante e se voltou para mim: “Não, Heinrich! O doutor não vai te operar. Fique tranquilo. Ele veio ver outro paciente.”

“E qual é mesmo o nome do rapaz?”, indagou o médico.

“Ah, Dr. Rief, este jovem é Heinrich Schäfer. Ele perdeu os pais em uma situação horrível. Foram assassinados na frente dele quando tinha apenas 16 anos, mas o trauma foi tamanho que ele perdeu o juízo. Tentaram matar o menino também, mas milagrosamente sobreviveu, mesmo após um golpe com facão na cabeça. Acredita? Nem sei dizer se foi uma sorte, pois o infeliz ficou assim, completamente demente. Não fala coisa com coisa. Tem dias em que fica inquieto e quase violento, mas faz um bom tempo que está mais calmo. Parece que o tratamento com eletrochoques após os surtos de fúria surtiram resultado”.

Sim, eu havia aprendido, depois de muita dor que ficar revoltado resultaria em ser levado por aqueles estúpidos a uma sessão de tortura. O pior era que eles de fato achavam que surtia algum resultado terapêutico sobre mim. Meu mal comportamento era uma resposta ao enclausuramento em mim mesmo. A ser tratado como um idiota e mais irritante ainda, saber que eu parecia um idiota quando tentava argumentar.

“Schäfer…”, disse o Dr. Rief olhando fixamente nos meus olhos. “Era isso que você queria dizer, quando falou ‘Bisturi’? Se for, pisque duas vezes.”.

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu pisquei duas vezes, imediatamente. Em muito tempo, era a primeira vez que alguém se dirigia verdadeiramente a mim, sem falar em terceira pessoa e sem me tratar como se eu não conseguisse entender. Finalmente, eu conseguia em dois anos fazer com que alguém me entendesse, ainda que com duas piscadelas de olhos. O Diretor permaneceu estático, congelado, mas os movimentos de seus olhos entre eu e visitante mostravam o quanto estava surpreso, enquanto isso o Dr. Rief sorria admirado, como se houvesse presenciado a abertura de uma flor ou a descoberta de um tesouro. Havia ternura e interesse em seu lábios e olhos.

“É um enorme prazer conhecê-lo, Sr. Schäfer. Poderia me mostrar onde na sua cabeça você foi machucado?”, ele perguntou em tom amigável. Levei a mão com dificuldade até o local onde havia a cicatriz e a falha de cabelo. “Sim, bem coerente… Sr. Diretor, fico feliz em discordar, mas este rapaz não é louco, mas sim afásico e mal diagnosticado. O acidente afetou a cabeça dele, fato, mas não interferiu em nada na sua compreensão. Ele é totalmente lúcido. Não é de espantar que tenha lá alguns surtos de raiva por ser tratado como menos do que é. Sr. Schäfer, eu também odeio quando subestimam minha inteligência e há colegas na Academia de Berlim que tentam fazê-lo com frequência, sabia?”.

Ele, então, começou a falar mais para mim do que para o Diretor, sempre me olhando nos olhos. “Deve ser torturante não conseguir se fazer entender, não é senhor Schäfer? Ter pessoas interpretando de maneira errada as coisas que você diz, compreender tudo ao seu redor, mas ter dificuldade para falar, porque as palavras simplesmente não saem.”. Como se estivesse me sentindo em um diálogo pisquei duas vezes e sorri para ele. Com minha reação, ele se voltou para o Diretor. “Meu nobre colega, eu acredito que poderia ajudar significativamente o rapaz, mas não aqui. Apenas em Frankfurt teria as condições de acompanhamento necessárias. Além disso, seria um tratamento longo e caro, que eu precisaria contatar algum patrocinador disposto a custear.”

“Mas se for possível ajudá-lo, Dr. Rief, não haveria problema algum de nossa parte, muito pelo contrário. Ele não tem mais familiares, só não temos como arcar com os custos. Nem sei o que foi feito da propriedade dos pais.”.

“Não se preocupe, ajudá-lo será um prazer e será também um bom retorno acadêmico ver nossas descobertas sendo úteis. Quanto aos bens do rapaz, podemos pedir ao advogado do hospital de Berlim que verifique o fato. Então, se conseguir a concordância de patrocínio de meu hospital, posso mandar buscá-lo aqui?”.

O restante da conversa foram acertos, que envolveram inclusive um compromisso de Rief em não mencionar em nenhum momento o diagnóstico errado, entre outros ajustes.

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Houve, durante uma semana, uma grande transformação. Eu me tornei a grande atração do circo. Isso me empurrou para uma condição ainda mais estranha. Todos daquele local passaram a me manter à distância. De repente, era como se tivessem tomado ciência de que tudo o que falaram e fizeram ao meu redor durante o último ano possuía uma testemunha que não suspeitavam. Foi a primeira vez que percebi o poder que tinha ser detentor de informações. Três dias depois, o Dr. Rief retornou acompanhado de mais um homem e uma jovem senhora.

Após procedimentos de praxe, fui encaminhado para a parte de trás de um carro preto. Ao meu lado, sentou-se a mulher que exibia sempre um sorriso delicado e me mostrava fotos de para onde eu estava indo, falando amenidades sobre as pessoas e regras de conduta. Em um dado momento, o Dr. Rief diminuiu a velocidade e encostou o carro na estrada deserta.

“Sr. Schäfer, precisamos conversar antes de prosseguirmos. Sei que já está enfrentando um grande desafio e só esta viagem já é uma grande novidade, mas temos diante de nós uma bifurcação metafórica. Fique tranquilo, pois qualquer decisão dependerá de sua concordância e qualquer que seja será igualmente boa, considerando sua situação atual. Vamos caminhar um pouco, somente nós dois.” –  descemos e andamos apenas alguns poucos passos, quando ele parou olhando o horizonte. – “Sua situação, Sr. Schäfer, é consideravelmente delicada. Resumindo, o golpe que você sofreu atingiu seu cérebro, ou seja, o órgão dentro da sua cabeça. Se não entender algo e quiser que eu explique melhor basta dizer “repita”, se não conseguir, segure meu braço e eu saberei. Seu quadro corresponde ao que foi descrito, há alguns, pelo Dr. Paul Broca. Acredito que a lesão causada pelo ataque que você sofreu afetuou a área responsável pela expressão da linguagem em seu cérebro, por isso você consegue entender o que digo, consegue conceber o que deseja expressar, mas não consegue representar adequadamente através da linguagem. Começando pela parte mais difícil e mais desagradável: não há, pelo menos ainda, uma forma de cura para seu problema.” – interrompeu me olhando. – “Entretanto, há duas formas para lidarmos com isso. Em ambos os casos, você será levado para nossas instalações onde poderemos estudar melhor seu caso. A primeira alternativa é mais convencional: vamos observá-lo, fazer alguns testes e ver como podemos ajudar para que você leve uma vida minimamente agradável em termos de comunicação com os outros, sabendo que não há cura. Não posso prometer o que não tenho. Por outro lado, temos desenvolvido grandes avanços através de métodos científicos experimentais… Isso significa, uma remota possibilidade de devolvermos sua capacidade de comunicação, além de outros melhoramentos através de tecnologia, mas a ciência nesse ramos ainda é muito incerta e tem um preço, Sr. Schäfer. Não podemos garantir resultados, nem que será uma experiência agradável, nem que será rápido. Na minha linha de pesquisa, teremos que testar a colocação de aparelhos no seu corpo e os resultados são todos sempre imprevisíveis. Trata-se de uma atividade altamente secreta e não vou esconder o fato de que não há como desistir depois de aceitar. Aceitar significa ser voluntário para nossos testes, ter a chance de resolver seu problema cerebral e ter um emprego vitalício. Desistir no meio dessa segunda alternativa significará morrer. Suas duas escolhas são: um tratamento normal que te ensinará a conviver com suas limitações ou um tratamento ultrassecreto que o vinculará para toda a vida com nossa empresa com chances para a solução, mas sem garantia. Está claro?”.

Dentro de mim, o coração estava acelerado. Era 1884 e eu tinha 17 anos. Pensava: “não tem como ficar pior”. Ele estava me dando a chance de ter uma vida diferente do que tive no período após o assassinato dos meus pais e minha internação. Achava que ninguém iria me tratar como uma pessoa normal, principalmente com a mentalidade da época. As palavras do Dr. Reif eram frias e, na verdade, não retratavam em nada aquilo que estaria para acontecer, mas não exitei em estender a mão em sinal afirmativo.


* “Bisturi” em alemão é “Skalpell”. O sobrenome de Heinrich é “Schäfer”, mas ele somente conseguia pronunciar “Skalpell”.

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