Dossiê Nora


DOSSIÊ NORA

Esta narrativa integra o projeto transmídia Neuraventura, disponível em www.cienciasecognicao/neuraventura.Está sendo publicado através do Twitter em: https://twitter.com/DossieNora

Capítulo 1 – A CORDA

Lentamente, os lábios de Gustavo foram se abrindo, mostrando um ar menino entre a barba escura e feita pela última vez há alguns dias atrás.

Ele parecia muito desanimado ou triste. E apenas mantinha um silêncio sorridente diante da conversa dos demais. Todos tão cheios de certeza.

Então, levantou-se. Parecia ir ao banheiro, mas desviou e entrou por outro corredor. Discretamente, o segui. Estava à janela, olhando longe.

Gustavo estava debruçado sobre o parapeito da janela. Na época, tinha quarenta e um anos; peso, ideais e QI acima da média. Eu me aproximei.

“Hoje, você não está com o bom humor de sempre”, eu disse. “Eu não tenho exatamente bom humor. O sarcasmo faz rir, mas é bem sério.”. E riu.

“Sabe, Nora, eu estava ouvindo os outros tagarelando como se fossem donos da verdade, enquanto parece que eu só consigo ter dúvidas de tudo.

“Nós já nos conhecemos há quase cinco anos ou mais um pouco, não é? Nunca me senti andando em uma corda bamba como agora. Começou no evento.

“Quando estávamos no encontro anual da Society for Neuroscience, no mês passado, quis ver um pôster relacionado com biotecnologia e hacking.

Bx_YrqjIQAEAgm6“Inicialmente, fui à sessão de pôsteres como de costume. Olhei o painel onde deveria estar o pôster que eu procurava.

“Lá, estava apenas o painel negro: vazio. Como já tinha ido até lá, aproveitei para conhecer outros trabalhos. Um abordava amnésia induzida.

“Aproveitei que o autor estava presente e busquei me informar mais sobre o trabalho. Outra pessoa se aproximou e acompanhou minhas questões.

“Nós iniciamos um debate bem interessante sobre aquela pesquisa, bem como sua extrapolação, levantando hipóteses extremas, quase ficcionais.

“Depois, nós trocamos cartões e fomos cada um para o seu lado. Fim de papo. Teria terminado aí, se ontem não tivesse recebido um telefonema.

“Eu recebi uma boa proposta para trabalhar em uma transnacional. Financeiramente, muito boa. É para a área de pesquisa, mas estou inseguro.”

“Mas inseguro por quê?”, perguntei. “Qual é a empresa?”. Ele sorriu com certa timidez. “A Bio-Id.”. Fiquei pasma. Como ele podia ter dúvida.

“Não olhe assim. sei que é uma gigante em bioengenharia, mas eles foram claros sobre os resultados das pesquisas. Nada deve ser divulgado.”.

“Você tem medo que seja o fim da sua carreira.” “Sim. Eles garantiram que eu teria acesso a financiamentos, além do meu próprio laboratório.

“Entenda que não é uma questão de ego, de querer meu nome publicado em um artigo importante”. “Não?”, interrompi. “Ok, tem um pouco, mas…”

Então, eu entendi a posição em que Gustavo se encontrava. Ele estaria em condições de chegar a grandes descobertas, mas tudo seria sigiloso.

Mesmo assim não era ruim. Ele gostava de ser pesquisador. Testar possibilidades e adquirir novos conhecimentos era algo importante para ele.

Foi, então, quando me surpreendeu de vez naquela noite. “Você viria comigo?”, perguntou. Os olhos dele ancorados em mim, aguardando, sérios.

Ora, é claro que seria um sonho. O Gustavo é vocacionado para a pesquisa e ensino, mas eu não. Gosto do desenvolvimento, de fazer acontecer.

“Mas o convite não é para você?”, indaguei. “Sim, mas disseram que eu poderia montar uma equipe. Você é a melhor bioengenheira que conheço.”

“Ah! Claro que aceito, Gus!”, quase gritei sem notar o sacrifício que ele estava fazendo, sem suspeitar que estávamos vendendo nossas almas.

Ficamos mais um pouco na empresa, cumprindo formalidades e na semana seguinte nos demitimos. Eu estava eufórica e ele moderadamente animado.

Na época, não notei… Aliás, a minha inteligência emocional sempre foi baixíssima. Ele estava apaixonado e eu na friend zone. Fui estúpida.

Não vi também que, na verdade, ele estava destruindo seus sonhos por mim. A Bio-Id era um sonho meu, não dele. Eu via apenas a oportunidade.

Seu sorriso sempre muito terno me fazia acreditar que ele agia comigo, quando era apenas um agir por mim. Dizer “apenas” é muito inadequado.

Recebemos uma série de informativos e fizemos toneladas de exames. Passamos por muita burocracia, sempre com advertência legal sobre sigilo.

Eu achava que era tudo apenas muito exagero, enquanto ele ficava cada vez mais preocupado. Enfim, começamos após um mês de longa burocracia.

No caminho, ele parou o carro antes de chegarmos. “Nora, quero pedir uma coisa. Nesta primeira semana, fale pouco. Nada de evidente amizade.

“Depois, comece a divergir publicamente de mim sempre que, de fato, discordar. Quero que te vejam como a profissional que é, não como amiga.

“Nenhum laço de amizade. Nenhuma ideia de que confio em você. Assim, ficamos sabendo quem é quem, conhecendo os grupos e políticas internas.

Entendido?”. Ele havia passado por uma situação ruim em grande empresa. Os conflitos internos eram graves e as ligações pessoais mal vistas.

Na época, ele e um amigo acabaram no meio de um fogo cruzado entre interesses e egos de terceiros. Gustavo e João viraram bodes expiatórios.

Desta vez, ele parecia determinado a fazer tudo acontecer diferente, mantendo-me protegida. Com o tempo, passei a entender melhor seu jeito.

Do estacionamento até a entrada do edifício, ele foi mudando o seu comportamento. Apresentou-nos como novos funcionários. Já nos aguardavam.

Fomos abordados por um homem simpático que nos levou para procedimentos de praxe: registros, cartões de acesso, etc. Após, fomos a uma sala.

O homem nos deixou com algumas pastas cheias de instruções e protocolos institucionais. Pediu que aguardássemos e saiu. Gustavo falou baixo:

“Quando me convidaram, garantiram que a pesquisa apesar de ser sigilosa não é ilegal, mas que poderia desafiar valores da ética tradicional.

“Eu quis saber em que sentido e me foi dito só que envolvia ‘biopoder’. Nora, pode ter finalidade bélica. Ainda dá tempo para voltar atrás.”

Ele não estava tenso. Mantinha o seu ar zen. Não entendi se queria desistir ou que eu desistisse. O fato é que não fazia diferença para mim.

Na verdade, eu não acreditava na época que pesquisas para guerra química, biológica ou tecnológica fossem algum dia ser efetivamente usadas.

Pouco importava para mim. Obviamente, eu não me permiti notar que fazia diferença para ele, que, outra vez, abria caminho pra minha ambição.

“Gus, é só um trabalho como qualquer outro. Se a decisão nos incomodar, a gente pede demissão. Não tenha medo.”, eu disse. E ele apenas riu.

“Você é como uma adolescente, sabia? As pessoas te acham durona, mas é só uma menina impulsiva. Ouça bem: a responsabilidade aqui é minha.”.

“Nossa”, pontuei. Em uma rara ocasião, sua voz soou ríspida e dura: “Minha! Se eu não aceitar, acabou. Se você recusar, eu posso continuar,”

As palavras dele me soaram brutas e machistas, dando em mim vontade de levantar e sair. ‘Impulsiva’, ele havia dito, mas não; fui ‘egoista’.

 

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Aquela escolha ia contra seus ideais. Ele estava abrindo mão de um série de princípios e não relutava. Pegou o crachá e colocou-o na camisa.

“Bem, somos funcionários da Bio-Id e essa pasta aqui me diz que virarei um burocrata.”, disse fazendo cara de bobo. “Nora…”. Olhou a mesa.

Manteve a cabeça fixa na direção dos papéis folheados numa cadência uniforme. “Você se sentiria muito incomodada se eu dissesse que te amo?”

Bem, para mim, aquela era a hora errada, o local errado e forma errada de abordar o assunto, mas a resposta foi imediata: “não”. Qual outra?

A verdade é que eu queria dizer algo como: não confunda as coisas, somos amigos, sem essa, mas… Ainda piorei, dizendo “eu sabia”. Mentira.

Então me lembrei de Platão. Algumas coisas quando são ditas não podem ser corrigidas. Ele estava constrangido estão a porta abriu, em tempo.

Era outra pessoa. Muito rosado e com cabelo cor de trigo. Obviamente, não era brasileiro. O sotaque gringo confirmou o fato ao cumprimentar.

Logo depois, entrou outro homem. Era uma pessoa dessas que parece sorrir com olhos. Tinha um ar debochado bem charmoso. Parecia ser carioca.

Chamava-se Henrique. Logo ficou claro que estava bastante interessado no trabalho de Gus. Tinha lido os artigos dele e, por isso, o indicou.

Tinha um estilo aparentemente informal de falar, mas depois ficaria claro que até sua informalidade era estudada. Ele era um gestor e líder.

Ele me ignorou após as trocas de palavras de praxe. Estava focado em Gus, apresentando-o a algumas pessoas e departamentos. Eu só os seguia.

Meu coração disparou quando chegamos ao laboratório, mas não por animo. Era um grande salão com uma mesa, duas bancadas. E mais nada. Vazia.

Ah, não! Fiquei chocada e minha surpresa foi tão indiscreta que Gus levou a mão ao rosto, enquanto Henrique soltou uma gargalhada altíssima.

“Gustavo, acho que temos que discutir uma grande quantidade de coisas, enquanto isso Nora pode tomar um café conhecer melhor a instituição.”

Eu percebi o que o Gus vinha tentando me explicar. Não éramos mais uma dupla. Ele era o Chefe de Laboratório. Sentei, sentindo-me tola e só.

 

Cap. 2 – o nó

O mês foi muito agitado. Ficamos fazendo levantamento de equipamento e fechando projeto. Entrando e saindo de reuniões (produtivas ou não).

Curiosamente, fui descobrindo o Gustavo que muitos admiravam, que era bem diferente do meu amigo Gus. Era um gestor carismático e bom líder.

Aliás, quando perdi o Gus para o Gustavo é que percebi como nunca fomos “amigos”. Como seu olhar emanava uma admiração diferente por mim…

Um olhar que hoje eu tinha. Passei a acompanha-lo na distância cada vez maior da rotina no trabalho. E ficamos mais próximos fora da Bio-Id.

Certo dia, eu entrei no laboratório e me sentei diante dele: “Hoje, eu me sinto segura para te dizer uma coisa. Eu não me sinto incomodada”.

Gus sorriu e perguntou com clara interrogação no rosto: “Incomodada em relação a quê?”. “Em relação à sua declaração antes de decidirmos…”

Eu esperei que ele lembrasse, mas nada. Perguntei coisas sobre os dias antes de decidirmos ir para a Bio-Id. Ele não tinha qualquer memória.

Obviamente, algo estava muito errado. Então recebemos uma solicitação com financiamento sem valor máximo definido para neurohacking in vivo.

Examinei o desenho experimental e vi que envolvia uma série de equipamentos tecnológicos já disponíveis, mas inacessíveis às pessoas comuns.

O experimento consistiria em provocar alterações no circuito de memória de um grupo de pessoas, usando modernos recursos de nanotecnologia.

As alterações envolveriam tanto o acréscimo quanto a supressão de memórias. Para isso, seria usada uma rede denominada por eles de Neuronet.

Prontamente, lembrei das falhas de memória do Gus. Observei como ele havia ficado cada vez menos questionador em relação à Bio-Id. Congelei.

Naquela noite, fui visita-lo e quando cheguei havia material de estudo por todo lado. Não era algo muito típico. Estava também mais calado.