A neurobiologia da formação de vínculo com pais cuidadores e com pais abusivos – resenha do artigo “The neurobiology of Attachment to Nurturing and Abusive Caregivers” por Lucas Shuiti

Regina M. Sullivan. Hastings Law Journal, 2012 Aug;63(6):1553-1570.  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3774302/

 

The-Letting-Go-Spiral-by Durga Bernhard

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Diversos estudos concluíram que o desenvolvimento do cérebro se faz em um palco onde a genética e as experiências da infância são os atores principais, por serem responsáveis por alterar a estrutura e o funcionamento cerebral com o intuito de se adaptar ao mundo. Essas experiências, traumáticas ou não, possuem um poder imensurável na vida adulta, pois podem alterar drasticamente o número de neurônios e a quantidade de sinapses entre eles. Os estudos acerca do tema buscam um entendimento sobre como esse cenário influencia nosso comportamento, nossas escolhas e a maneira que abordamos o mundo. Dentro dessa perspectiva, o artigo de revisão de literatura faz uma ligação entre o circuito de vínculo desenvolvido na infância e a existência de uma figura abusiva nesse período.

Primeiramente, é preciso entender que o circuito cerebral de vínculo, ou attachment,  faz-se necessário para que a criança mantenha proximidade com o cuidador que é aquele responsável por nutrir e proteger. Além disso, o vínculo é responsável por programar estruturas cerebrais futuras, ligadas às emoções, à cognição e à visão de mundo como um lugar seguro ou perigoso.

No desenvolvimento normal do cérebro, neurônios não utilizados morrem, e, por associação, os utilizados sobrevivem. Nas condições traumáticas, esse panorama é alterado, pois além de muitos neurônios úteis morrerem, alguns neurônios não utilizados sobrevivem. Esse descompasso pode ser exemplificado pelos órfãos na Romênia cujo severo isolamento físico e social resulta em cérebros menores. Na China, as crianças órfãs adotadas possuem amígdalas maiores, sugerindo alterações emocionais e problemas de processamento do medo. A tragicidade reside no fato de que se o vínculo não for desenvolvido na infância, haverá prejuízo mental, ou ainda, se o vínculo coexistir com o medo, ele será excessivamente controlado no futuro. Também vale ressaltar que muitos efeitos da infância podem permanecer dormentes até a vida adulta, quando alguns circuitos voltam a ser ativados.

Para que a criança se desenvolva física e mentalmente, ela necessita não só de nutrição adequada e de cuidados básicos, mas também se fazem necessários o afeto e a interação social. Esse componente do desenvolvimento é um tanto quanto abstrato e pode ser explicado pela necessidade infantil de estimulação sensorial. Um exemplo ilustrativo é de que o toque pode regular a quantidade de hormônio de crescimento na criança e a simples presença do cuidador reduz a quantidade de hormônio causador de stress.

É preciso entender que não há um receptor específico para amor ou para a sensação de segurança, a única via para se entrar no cérebro da criança são os cinco sentidos, capazes de mudar a bioquímica e a atividade neural. Essa via sensorial permite a existência de maneiras distintas de desenvolvimento resultando em adultos psicologicamente saudáveis. Essa heterogeneidade é importantíssima, porque crianças criadas dentro de culturas diferentes tornam-se adultos saudáveis e socialmente produtivos.

A estrutura do vínculo começa a ser construída no último trimestre da gravidez, quando o sistema sensorial do bebê torna-se funcional. A partir daí, a voz materna viaja pelos tecidos e pelo líquido amniótico e estimula o sistema auditivo da futura criança, os cheiros (principalmente o odor materno) e gostos sentidos pela mãe também passam para o bebê estimulando seus sentidos. Como consequência desse processo, após o nascimento, o bebê já reconhece a mãe e ela já tem poder para acalmá-lo. O próximo período crucial de vinculação é delimitado dos nove meses de idade até o primeiro ano, pois é nesse momento que a criança forma a representação psicológica do cuidador. Após esse primeiro ano de vida, há uma ligação forte entre a criança e o cuidador, independentemente de este último ser abusivo ou não.

Pesquisas com ratos foram importantes para se entender o mecanismo de vínculo na presença de um cuidador abusivo. O mecanismo de vínculo dos ratos assim como dos humanos requer altos níveis de noraepinefrina, cujos picos se encontram durante o toque e o aleitamento. O curioso é que o circuito cerebral não é capaz de diferenciar ações normais das abusivas, sendo que há secreção de noraepinefrina tanto em eventos normais, como aleitamento e toque carinhoso, como também em eventos abusivos, quando a mãe rato pisava nos filhotes.

 

Aprendizado do vínculo: O circuito de vínculo exige elevados níveis de norepinefrina (“NE”) do locus coeruleus (“LC”) para interpretar o odor materno através da plasticidade no bulbo olfativo. Os filhotes vão aprender o vínculo, mesmo quando a dor é sentida, desde que os níveis de corticosterona (“CORT”) estejam baixos. O bloqueio CORT impede a aprendizagem do medo.

 

Outras pesquisas em ratos mostraram que a amígdala, área do cérebro responsável pelo medo e por evitar aquilo que causa dor, não participa do mecanismo de cheiro na infância. Portanto, como o odor é o principal meio de percepção do mundo nessa idade, o filhote é impedido de sentir medo, forçando um vínculo ao cuidador, independente da qualidade do cuidado recebido.

http://www.youtube.com/watch?v=MmbbfisRiwA&hd=1

 

Vídeo: Os macacos de Harlow: uma experiência, desenvolvida em meados dos anos 60, consistiu em retirar macacos bebês de suas mães e colocá-los junto a duas mães de metal. Uma era revestida por coberta de pelos e a outra possuía alimento. Os macacos preferiram o contato com a mãe-coberta e rejeitaram a mãe que possuía comida. Demonstrando a importância do vínculo. Socialmente, os macacos do estudo ficaram devastados, sem carinho e incentivo, tornaram-se assustados e confusos, danificados por toda vida.

Harry Harlow com o macaquinho dos seus experimentos.

Harry Harlow com o macaquinho dos seus experimentos.

Certa quantidade de estresse pode ser positiva para preparar o corpo em caso de emergência, porém, é sabido que estresse prolongado tem impactos negativos. Lares caóticos, divórcio dos pais e abuso físico são exemplos de fatores estressantes para a criança. Felizmente, há um mecanismo para evitar o estresse nesse período crítico da vida chamado social buffering cujo papel é ligar e desligar a amígdala, que quando desligada não responde ao medo e ao estresse.

Mesmo com uma série de mecanismos protetores, as consequências dos traumas perfazem uma lista grande de distúrbios psicológicos comuns nos dias de hoje, como a depressão e os transtornos de comportamento. O entendimento do mecanismo de doenças causadas pelo abuso é de alta relevância para o tratamento correto desse número colossal de vítimas. A compreensão da relação criança-cuidador, mecanismo de vínculo, medo e estresse ainda precisam ser mais bem elucidadas, sendo que inúmeros mecanismos ainda permanecem ocultos. A pesquisa acerca do tema também encontra diversas barreiras éticas e a maioria das descobertas se deu em outros mamíferos com um sistema neural mais simples que o nosso. Esse panorama reflete uma maior necessidade de pesquisa e entendimento dos mecanismos humanos de trauma e suas consequências na vida posterior.

 

 

 

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Nascido em 14 de novembro de 1994, é natural de Dourados e graduando do curso de Medicina da UFGD – XIVa turma. Participa, também, como bolsista do projeto Jovens Talentos para a Ciência – Capes/CNPq.

 

 

 

 

Referência:

Regina M. Sullivan; The Neurobiology of Attachment to Nurturing and Abusive Caregivers; National Institute Healthy; Hastings Law J. 2012 August

 

Site: http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/1627.html [acesso em: 30 de outubro de 2013]

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