Você é vítima de estigma? (Tradução livre de alguns excertos por Elisabete Castelon Konkiewitz)

O patinho feioVocê é vítima de estigma?

Estigma é uma fonte significativa de estresse e desvantagem social, sendo um fator de risco de mortalidade e de morbidade.

 

Estigma é definido como a co-ocorrência de rotulagem, estereótipos, exclusão , perda de status e discriminação em um contexto no qual o poder é exercido. Estigma sobrepõe-se com o racismo e a discriminação , mas difere destas construções em vários aspectos. Apesar de raça / etnia ser um status estigmatizado , o conceito de estigma engloba múltiplos status e características, tais como a orientação sexual , deficiência, infecção pelo HIV e obesidade. Assim , o estigma pode ser visto como de âmbito mais abrangente do que o racismo . Da mesma forma , a discriminação , tanto em nível individual ( ou seja, o tratamento desigual que surge na sociedade em um determinado grupo social ) como em nível estrutural (ou seja, as condições sociais que limitam o indivíduo de oportunidades , recursos e bem-estar), é uma característica constitutiva do estigma. Com efeito , o termo  estigma” não pode manter todo o seu significado quando este aspecto é deixado fora. No entanto, como o processo global do estigma incorpora vários outros elementos , como a rotulagem e os estereótipos , o seu conceito é mais amplo do que discriminação.

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Madame Satã i

Cena do filme “Madame Satã- com Lázaro Ramos (negro e homossexual) e Marcélia Catarxo (sua amiga-prostituta e mãe solteira)-os dois fazem um passeio de tarde de domingo como se fossem uma família convencional, mas é nítido pelas suas aparências o contraste que representam a esta estrutura.

 

Estigma é um risco à saúde por dificultar o acesso a recursos sociais e econômicos:

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Uma variedade de circunstâncias estigmatizadas, como raça/etnia, orientação sexual, história de doença mental, história de prisão, levam a diferentes impedimentos no acesso a recursos,por exemplo, a um emprego, a salários, a hipotecas, empréstimos, habitação, qualidade e nível de educação e de cuidados de saúde.

 

Estigma é um risco à saúde por levar ao isolamento Social

corcunda 1corcunda-1Esmeralda e Quasimodo


Várias linhas de evidência sugerem que o estigma pode causar isolamento social, seja por  medo de rejeição, de avaliações negativas, ou de outras pessoas descobrirem seu status (no caso de situações que podem ser ocultadas, como a infecção pelo HIV, doença mental , baixo nível sócio-econômico,orientação sexual). Há diversas evidências dos efeitos benéficos do apoio social sugerindo que o isolamento pode ser um caminho, através do qual o estigma está causando doença na população estigmatizada.


Estigma é um risco à saúde pelas reações emocionais a que induz

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Entre as respostas psicológicas e comportamentais ao estigma está bem estabelecido o conceito de auto- estigmatização , ou seja, a internalização pela vítima de percepções sociais negativas do status estigmatizado Embora relatos iniciais postulassem que a experiência do estigma resultaria inevitavelmente em baixa auto -estima , sabe-se hoje que há extensa heterogeneidade nas respostas psicológicas ao estigma, com alguns grupos estigmatizados mostrando níveis de auto-estima tão elevados como os dos membros do grupo da maioria, talvez decorrentes de esforços ativos para desafiar e resistir ao estigma. No entanto , a pesquisa também indicou que alguns indivíduos estigmatizados internalizam as visões negativas dirigidas a seu grupo , o que pode ter consequências deletérias à sua saúde. Para gerenciar uma identidade desvalorizada, indivíduos estigmatizados usam e esgotam estratégias de auto-controle de curto prazo . Ao longo do tempo ,no entanto, o esforço contínuo necessário para lidar com o estigma diminui a capacidade do indivíduo de regular as suas emoções de forma adaptativa , o que pode ter consequências negativas, tanto mentais, quanto físicas. Estudos evidenciam uma tendência ao uso de estratégias de regulação das emoções mal adaptativas , tais como ruminação e supressão , que produzem sofrimento psíquico.

Estigma é um risco à saúde por induzir ao estresse


Vários modelos influentes no estudo do estigma postulam que o estresse desempenha um papel importante A Teoria do Estresse da Minoria refere-se ao excesso de estresse a que os indivíduos de grupos estigmatizados são expostos como resultado da sua posição no grupo social. Os fatores estressores variam desde eventos externos (por exemplo, vitimização e violência) a respostas internas (por exemplo, expectativas de rejeição), ambos associados a problemas de saúde, Estudos experimentais mostram, por exemplo, que o stress de experimentar discriminação e tratamento desigual está associado a efeitos adversos em respostas fisiológicas, incluindo aumento da pressão arterial diastólica e dos níveis de cortisol sérico.

Metas do estigma: exploração, evitação e normatização

Moças do trabalho- (1940) por Leopold Schmutzler-arte do tinha como objetivo proclamar valores de beleza e de comortamento moral.

Moças do trabalho- (1940) por Leopold Schmutzler: arte alemã do período nazista-altamente estigmatizadora- tinha como objetivo proclamar valores de beleza e de comortamento moral.

Estigmatizar os outros permite às pessoas do grupo dominante atingir os fins que desejam. As metas principais do estigma são:

1.      Manter as pessoas abaixo ( para exploração: negros, índios, pobres, iletrados, nordestinos);

2.  manter as pessoas “dentro” (aplicação da norma: comportamento sexual, padrões de beleza, discurso anti-obesidade);

3.      manter as pessoas longe (evitar doentes mentais, dependentes químicos, pessoas com histórias fragmentadas e pouco convencionais).

Na medida em que existem grandes diferenças de poder entre aqueles que estigmatizam e aqueles que são estigmatizados, pode-se esperar que os interesses do grupo mais poderoso se expressem de forma confiável nos diversos tipos de desigualdades que o estigma pode produzir. À semelhança de outros fatores-chave da saúde da população, o estigma está relacionado a vários resultados através de múltiplos mecanismos sociais e psicológicos. Aqueles que querem manter os outros para baixo, dentro, ou fora , e que tem o poder para isso não estão limitados a um conjunto fixo de estratégias . Se uma importante estratégia existente é bloqueada (por exemplo, por lei) ou perde a sua capacidade para atingir os fins desejados , outras estratégias podem ser reforçadas ou novas serão criadas.

 

Enfrentamento: estigma é um assunto médico, ou melhor, de todos os profissionais da saúde

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As desigualdades entre grupos estigmatizados e não estigmatizados não são de forma alguma inevitáveis, mas as diferenças de poder inerentes ao estigma criam obstáculos substanciais que tornam a redução das disparidades de saúde, especialmente desafiadora. Em particular, os mecanismos que perpetuam as desigualdades na saúde não são detectados . O motor de produzir desigualdade é, portanto, frequentemente não reconhecido ou incompreendido e requer vários campos de investigação para expô-lo , incluindo pesquisa interdisciplinar de áreas tão diversas como a antropologia, a psicologia, a sociologia, a epidemiologia e a biologia. Isso exige um esforço orquestrado por parte de agências de financiamento, incluindo os Institutos Nacionais de Saúde , para fornecer os recursos necessários para assegurar que
esse tipo de pesquisa seja conduzida. Superar as barreiras ao financiamento adequado é essencial porque a produção de conhecimento , um recurso fundamental para a saúde é regularmente frustrada pelo estigma. A escassez de recursos científicos dedicados ã pesquisa da saúde de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, por exemplo, é bem documentada e tem impedido a disseminação de informaçòes para profissionais de saúde e para indivíduos de minorias sexuais, perpetuando as disparidades de saúde .

ARTIGO ORIGINAL COMPLETO:

Stigma as a Fundamental Cause of Population Health inequalities

Stigma as a Fundamental Cause of Population Health Inequalities. Mark L. Hatzenbuehler, PhD, Jo C. Phelan, PhD, and Bruce G. Link, PhD-Am J Public Health. 2013 May ; 103(5): 813–821. Tradução livre de alguns excertos por Elisabete Castelon Konkiewitz

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