Abordagem Neurobiológica e Evolucionária da ficção-por Bianca Sofía Niz Di Stéfano, Elexandra Aparecida Simões e Rafael Kanji Nakamura

mulher lendo por Auguste Renoir

mulher lendo por Auguste Renoir


            O avanço da Neurociência, nas últimas décadas, possibilitou uma maior compreensão sobre a relação entre a ficção e sistema nervoso central. O presente estudo “Abordagem Neurobiológica e Evolucionária  da ficção” é  um artigo de revisão e como tal, limita-se a buscar pelo conhecimento científico a partir de pesquisas e autores que retratam o assunto de forma critica e reflexiva.

A relevância desse tema pauta-se na intima relação com as emoções individuais associadas à ficção, que afeta, por conseguinte, o comportamento humano. Normalmente, a arte pertence a um mundo particular, subjetivo, e  sua riqueza reside no fato de que seu poder de perturbar e despertar é variável entre os indivíduos. O objetivo deste trabalho é fazer uma revisão literária sobre os aspectos neurobiológicos e evolucionário da ficção e sua relação com a criatividade e os elementos artísticos.

 

 

 

Irmãs Bronte

Irmãs Bronte

 

 

O cérebro, ao que parece, não faz muita distinção entre aquilo que é lido e as experiências de vida real. Dessa forma, nas duas situações são estimuladas as mesmas regiões do cérebro. Keith Oatley propõe que a leitura produz uma simulação da realidade. A Ficção, com seus detalhes impregnados, descrições atentas de pessoas e de suas ações, oferece uma réplica da vida especialmente rica de sentimentos humanos. E de fato, essa simulação permite aos leitores uma experiência indisponíveis fora da página: a oportunidade de entrar plenamente em pensamentos e sentimentos de outras pessoas.

Ao lermos um livro, aprendemos de modo consciente ou não que o padrão em interpretação de comportamento reflete o estado de espírito do personagem. A cada leitura reforça nossa tendência em primeiro lugar de fazer esse tipo de interpretação. Pesquisas recentes em psicologia cognitiva e antropologia tem demonstrado que o significado padrão de comportamento de um personagem encontra-se no estado mental do personagem. Para entendimento disso, talvez tenhamos que ir além da explicação de que evoca nossas histórias de leitura pessoal e admitir alguma evidência da nossa história evolutiva.

Self protrait by Haje Jan Kamps

Self protrait by Haje Jan Kamps

Teoria da mente é um termo usado por psicólogos cognitivos para descrever a nossa capacidade para explicar o comportamento das pessoas em termos de seus pensamentos, sentimentos, crenças e desejos; a capacidade de interpretarmos o comportamento de pessoas da vida real – e por extensão dos personagens literários. Essa habilidade se desenvolveu durante a “maciça evolução neurocognitiva”, no período do Pleistoceno, quando o nosso cérebro triplicou de tamanho, como resposta adaptativa para o  “incrivelmente complexo” desafio enfrentado por nossos antepassados: atribuir sentido ao comportamento de outras pessoas do seu grupo , que podia incluir até dois ou centenas de indivíduos .

A nossa tendência, desse modo, para explicar o comportamento observado em termos de estados mentais subjacentes parece ser tão fácil e automática, porque a nossa arquitetura cognitiva evoluiu para aprender e praticar a leitura da mente diariamente, desde o início da conscientização.

 

 

 

 

veja o artigo sobre neurônios-espelho, os quais provavelmente estão envolvidos com a nossa capacidade de empatia e de teoria da mente.

 Neurônios-espelho- por Alexandre Key Teruya, José Eudes Neri, Kim Soares Marinho e Thaís Gregol de Farias – See more at: http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/#sthash.EXCYa3mV.dpuf

 

 

O Beijo_ de Francesco Hayez, Pinacoteca di Brera

O Beijo_ de Francesco Hayez, Pinacoteca di Brera

Sendo assim, aspectos relacionados com a cognição humana foram importantes na evolução biológica e manutenção da espécie. Por outro lado, elementos relacionados a artes como historias, cinema, teatros tem a capacidade de despertar áreas neuronais que seriam as mesmas estimuladas se tais acontecimentos fossem de fato verídicos. Nesse caso, fica bem evidente porque “a arte imita a vida e a vida imita a arte”.

Nesse sentido, fatores neurobiológicos associados a fatores ambientais atuam na modulação do Sistema Nervoso e do comportamento humano. Algumas teorias tentam desvendar as áreas cerebrais envolvidas com esses aspectos, outras, contudo, apresentam diferentes definições e abordagens sobre o mesmo assunto e sobre o tema tratado.

A neurociência, por meio de pesquisas em diversas áreas, tem contribuído substancialmente para a compreensão desses aspectos neurobiológicos e ficcional  e, consequentemente, favorecido na busca por ações que potencializem essas condições humanas.

Bianca Sofía Niz Di Stéfano, Elexandra Aparecida Simões e Rafael Kanji Nakamura -graduandos do curso de Medicina-XIVa turma-UFGD

REFERÊNCIAS

 

1. Gardner H. Multiple Intelligences after Twenty Years. Trabalho apresentado na American Educational Research Association, Chicago, Illinois. Retirado em 28/06/2009, no World Wide Web: http://www.pz.harvard.edu/PIs/HG_MI_after_20_years.pdf.

 

2. Paul AM. Your Brain on Ficção. The Neuroscience of Your Brain on Fiction – NYTimes.com    (Acesso em: 19/08/2013). [disponivel em:] http://www.nytimes.com/2012/03/18/opinion/sunday/the-neuroscience-of-your-brain-on-fiction.html?pagewanted=all&_r=0

 

3.LeDoux, J. (1996). The emotional brain: The mysterious underpinnings of emotional life. New York, NY: Simon & Schuster

 

4.  Clasen M. Monsters Evolve: A Biocultural Approach to Horror Stories. American Psychological Association 2012, Vol. 16, No. 2, 222–229 1089-2680/12/$12.00 DOI: 10.1037/a0027918

 

5. Keith Oatley professor emerito de psicologia cognitiva da Universidade de Toronto citado por Annie MP. Your Brain on Ficção.

 

6. Uri Hasson,Ohad Landesma n,Barba ra Knappme yer ,Ignaci o V allin es,Nav uma Rubin,e Davi d J.Heeger.  Neurocinematics: The Neuroscienceof Film. (acesso em:19/08/2013), [disponivel em:] http://www.academia.edu/239842/Neurocinematics_The_Neuroscience_of_Film

 

7. liza Zunshine. Theory of Mind and Experimental Representations of Fictional Consciousness

8. The Big question.Useful Fictions Evolution, Anxiety, and the Origins of Literature Michael Austin University of Nebraska Press

 

9. Gabora L, Kaufman SB. Evolutionary Approaches to CreativityTo appear in (J. Kaufman & R. Sternberg, Eds. (in press) The Cambridge Handbook ofCreativity. Cambridge UK: Cambridge University Press.

 

10. Zunshine L. Why We Read Fiction – The Ohio State University Press. Phelan J, Rabinowitz PJ. Theory and interpretation of narrative.

11. Berubé M. The play’s the Things. Amecrican Scientist.
12. SMITH, Edward E. e KOSSLYN, Stephen M. Cognitive Psychology: Mind and Brain. Pearson Prentice Hall, 2006.

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