O Morro dos Ventos Uivantes, a Neurobiologia do Amor e a Metafísica da Paixão – Por Elisabete Castelon Konkiewitz

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O Morro do Ventos Uivantes é um romance publicado por Emily Brontë em 1848, sendo a única obra de ficção desta escritora, que veio a falecer, pouco meses depois, aos 30 anos, após uma vida de poucos acontecimentos, quase toda encerrada em um vilarejo da região de Yorkshire no norte da Inglaterra.
O romance foi chocante na época e ainda arrebata o público moderno pela sua ferocidade, sua energia e seu erotismo. Ele representa um grito selvagem contra as convenções sociais normatizantes, artificiais e excludentes a favor da expansão da individualidade, da liberdade de autodeterminação e de uma forma de vida mais autêntica e natural. Por isso é muito, muito romântico.
É a história de um amor impedido, de uma necessidade sufocada. É a história de um homem que se impõe contra todo um mundo que lhe tirou o que lhe era mais caro e se vinga.

Pouco antes da publicação do romance por Emily Brontë, o filósofo Arthur Schopenhauer, na Alemanha, se debruçava de uma forma bastante diversa sobre o mesmo tema do amor erótico. Em seu ensaio A Metafísica do Amor, ele defende que o enamoramento é uma ilusão que se apossa de nós e nos faz desejar determinada pessoa, acreditando que nela repouse a nossa felicidade, mas que, na verdade, ao perseguirmos este fim egoísta, estamos de fato obedecendo a um interesse muito maior, que é o da perpetuação da nossa espécie. Assim, nós nos apaixonamos justamente pela pessoa com quem as chances de gerarmos filhos mais robustos é maior. 
Ora, este é um pensamento que precede e antevê (quase que profeticamente!) o pensamento darwinista, o conceito de evolução e a própria neurobiologia da paixão, da sexualidade e do ciúmes.

Alguns trechos do ensaio deste grande pensador:
Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão-somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um impulso sexual perfeitamente determinado e individualizado. (…)
(…) Pois é a geração futura na sua determinação absoluta individual, que caminha para a existência por meio dessas dores e desses esforços. Sim, é ela mesma que já se agita na escolha circunspecta, determinada, obstinada, procurando satisfazer esse impulso sexual, que tem o nome de amor. (…)
(…)O amor não apenas está em contradição com as situações exteriores, como também o está, muitas vezes, com a própria individualidade, quando se projeta sobre pessoas que, fora das relações sexuais, seriam odiadas pelo amante, desprezadas e até mesmo repulsivas, Mas a vontade da espécie tem um tamanho poder sobre o indivíduos, que o amante fecha os olhos aos atributos que lhe são desagradáveis naquele que ama; de nada se dá conta, unindo-se para sempre ao objeto de sua paixão, de tal maneira o fascina essa ilusão, 
(…) Por isso os antigos representavam o Amor de olhos vendados.
(…) Os antigos sentiram isso muito bem quando personificaram 
o gênio da espécie em Cupido, deus hostil e cruel, apesar de aparência infantil; um deus cruel, por isso mesmo mal-afamado, um demônio caprichoso, despótico e, não obstante, senhor dos deuses e dos homens: Tu, deorum hominumque tyranne, Amor! (Tu, amor, tirano de deuses e homens). Seus atributos são flechas mortíferas, uma venda e asas. A asas indicam a inconstância, que vem geralmente com a decepção, que é consequência do desejo satisfeito.
(…) O arrebatamento vertiginoso que toma o homem quando ele vê uma mulher cuja beleza é para ele das mais adequadas, e lhe preludia a união com ela como o sumo bem, é justamente o sentido da espécie, que, reconhecendo sua estampa nitidamente expressa, gostaria de perpetuar-se com ela. Sobre essa decisiva inclinação para a beleza repousa a conservação do tipo da espécie e por isso é que ela age com tão grande poder.
(…) Também, via de regra, as grandes paixões nascem à primeira vista:
W’ho ever lov’d, that lov’d not at first sight?*
Shakespeare, As you like it, III, 5.
(…) Em conformidade com isso, a perda da amada para um rival, ou para a morte, é também sentida pelo amante apaixonado como uma dor que supera qualquer outra, justamente porque é de tipo transcendente, já que afeta não apenas o indivíduo, mas o atinge em sua essentia aeterna [essência eterna], na vida da espécie, para cuja vontade especial e missão ele estava aqui ocupado. Por isso, o ciúme é tão cheio de tormentos e tão furioso, e a renúncia da amada é o maior de todos os sacrifícios.
Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor, 1844.

“Pois o filósofo Arthur Schopenhauer já mostrou há muito tempo aos homens em que medida o seu agir e ambicionar são determinados por esforços sexuais – no sentido comum da palavra -, e um mundo de leitores devia decerto ter sido incapaz, para assim perder de vista tão completamente uma tão envolvente advertência!”  Freud, no prefácio à quarta edição dos Três ensaios de teoria sexual

QUINTA-FEIRA-25 DE SETEMBRO DE 2014 

19h30-20h30-: Conferência inaugural: O Morro dos Ventos Uivantes, a Neurobiologia do Amor e a Metafísica Da Paixão”-Profa. Dra. Elisabete Castelon Konkiewitz-UFGD

maiores informações  http://simposioneurodourados.com

 

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