Ramón y Cajal além do sistema nervoso – por Stefânia Forner

O trabalho e a contribuição científica de Santiago Ramón y Cajal são indiscutíveis. Nascido em 1852 em Petilla de Aragón na Espanha e formado em Medicina em Madrid em 1883, foi um anatomista genial e formulou a doutrina do neurônio, que deu base ao pensamento moderno do sistema nervoso. Escreveu e desenvolveu diversos trabalhos na área de histologia, sendo que seu trabalho mais famoso é o “Manual de Histología normal y Técnica micrográfica” de 1889. Escreveu mais de 100 artigos em espanhol e francês descrevendo de maneira fenomenal as estruturas do sistema nervoso, especialmente cérebro e medula. Santiago dividiu o Prêmio Nobel com Camillo Golgi em 1906 pelo trabalho da estrutura do sistema nervoso.

 

neuronio no hipocampo - cajal PurkinjeCell

No entanto, hoje escrevo sobre um livro menos conhecido de Santiago, chamado “Advice for a Young Investigator” (Conselhos para um jovem pesquisador – tradução livre, não traduzido para o português).  É um pequeno compêndio do discurso que Cajal realizou na Academia de Ciências Exatas, Físicas e Naturais em 1897 na Espanha.

O livro é daqueles que você senta em uma tarde e lê sem parar, mas uma leitura demorada nos leva a compreender melhor e assimilar as ideias de Cajal. Algumas ideias, como já diz na introdução, talvez não façam mais sentido na era científica que vivemos, mas a grande maioria ainda é bem pertinente.

 

 

 

(Figuras: Neurônios do hipocampo (esquerda) e células de Purkinje (direita) desenhados por Santiago Ramón y Cajal)

          Santiago nos leva a um passeio com seus conselhos de como devemos duvidar de tudo, como devemos ver problemas de diversos ângulos e inclusive demonstra dicas de bancada experimental. Há um capítulo voltado apenas para as qualidades intelectuais que o indivíduo que quer seguir a carreira científica deveria ter que incluem, obviamente, a curiosidade e perseverança. Ramón y Cajal ainda dedica um capítulo para métodos científicos denominado “Stages of Scientific Research” (Etapas da pesquisa científica) e ele dá conselhos precisos de como o cientista sempre deve ver seu experimento como se fosse a primeira vez e como deve-se instigar a curiosidade continuamente no jovem pesquisador, questioná-lo sem fim. Mas Ramón y Cajal demonstra que o jovem cientista deve direcionar as intensidades de sua emoção para sua pesquisa.  No entanto, uma frase que ficou em minha memória durante muito tempo após ler o livro foi a seguinte:

 

O pesquisador deve sempre lembrar que novos fatos não são descobertos pelas pessoas que primeiramente os observa. Eles são descobertos pelas pessoas que possuem uma técnica excelente e são capazes de estabelecer com aquela um amplo grau de evidência e, consequentemente, convencer a todos sobre a descoberta.”

(“One must bear in mind that new facts are not discovered by the one who first observes them. They are discovered by the one who uses an excellent technique and is able to establish them with a full range of evidence, and in so doing convincing everyone”.)  

 

Ramón y Cajal encerra seu livro com um capítulo voltado para o pesquisador como professor e como este deve conduzir sua nova carreira. Santiago foi um gênio de diversas maneiras, sem dúvida, e seus conselhos, apesar de serem do século XIX, ainda nos fazem repensar sobre como devemos assumir posições científicas em pleno século XXI.

 

cajal cajal 1 livro cajal

Sugestões de leitura

 

O livro está disponível em formato PDF.

http://image.sciencenet.cn/olddata/kexue.com.cn/upload/blog/file/2010/8/2010823145519611330.pdf

 

Instituto Santiago Ramón y Cajal

http://www.cajal.csic.es

 

Biografia

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1906/cajal-bio.html

 

stefania forner fotoStefânia Forner – Farmacêutica, Mestre e Doutoranda em Farmacologia/UFSC

(Doutorado sanduíche na University of Toronto)

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Um Comentário

  1. Há tradução desse livro: Regras e conselhos sobre a investigação científica. É de 1933 e foi feita por Achilles Liboa. A terceira edição é de 1979. Última publicado no Brasil.

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