Cerebelo, cognição e emoção – por Ana Carolina Mello Perin, Bruna Luíse Trentim e Luana Taiane Dondé

10606385_10204303405963644_4875243854788300975_nConstituído por dois hemisférios cerebelares e uma porção central, chamada de verme, o cerebelo é uma estrutura que ocupa grande parte da fossa craniana posterior. Externamente, é revestido pela substância cinzenta, enquanto sua porção interior recebe preenchimento de substância branca- na qual haverá quatro pares de núcleos cerebelares, futuramente associados ao desempenho motor (1).

 

 

O processamento de informações – motoras e sensoriais – ocorre no córtex cerebelar e a modulação das atividades motoras se dá por meio da codificação de alterações da frequência de descarga de potenciais de ação dos núcleos cerebelares (7). Ainda é importante lembrar que cada parte funcional do cerebelo está associada com um parâmetro da função motora, e dessa forma, possui núcleos cerebelares específicos para essa atuação. Assim, por exemplo, temos que o cerebrocerebelo (ou neocerebelo) está relacionado com o planejamento motor ao passo que o espinocerebelo (ou paleocerebelo) se relaciona com a coordenação e equilíbrio axial (1).

Não há como negar que, tradicionalmente, o cerebelo tem sido encarado como uma área do cérebro envolvida, sobretudo, com o comportamento motor. Nas últimas décadas, no entanto, sugeriu-se que também possa desempenhar um papel nos transtornos neuropsiquiátricos. Assim, percebeu-se o envolvimento do cerebelo em doenças como esquizofrenia, transtorno bipolar, demências neurodegenerativas, déficit de atenção e hiperatividade (ADHD) e depressão (1), de tal forma que começou-se a pensar na dicotomia funcional dessa estrutura: cognitivo versus motor (15).

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Ainda não se tem ao certo quais as áreas cerebelares estão envolvidas no processo congnitivo, embora sob o ponto de vista anatômico, certas regiões do cerebelo – tais como o verme, núcleo fastigial e o lobo floculo-nodular – revelam conexões recíprocas com núcleos reticulares do tronco cerebral e regiões do sistema límbico e autônomo, incluindo áreas como o hipotálamo, hipocampo e amígdala, sugerindo a participação do cerebelo no processamento emcional (15).

Nesse contexto, alterações no comportamento e na função cognitiva como no ADHD, por exemplo, têm aparecido em pacientes com lesões cerebelares posteriores, o que aponta para uma relação entre a estrutura anormal do cerebelo e a disfunção noradrenérgica e dopaminérgica apresentada neste transtorno(4). Do mesmo modo, ainda que não se tenha ao certo sobre a influência das modificações do cerebelo no que diz respeito à esquizofrenia, acredita-se que o comprometimento do circuito córtico-cerebelo-tálamo-cortical seja um fator importante para a disfunção motora e cognitiva observada nessa patologia (2). A diminuição de fluxo sanguíneo na área motora do hemisfério esquerdo também é observada. Isso poderia explicar alguns sintomas da doença como dificuldade em coordenar e monitorizar o processo de recepção, processamento, evocação e expressão da informação (8).

 

 

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Em relação à depressão, foi proposta a sua associação com privação de conexões límbicas cerebelares (15), justificada em lesões do verme (16).

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NEUROPSYCHIATRIC PRACTICE AND OPINION | August 01, 2004 Jeremy D. Schmahmann, M.D. Disorders of the Cerebellum: Ataxia, Dysmetria of Thought, and the Cerebellar Cognitive Affective Syndrome The Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences 2004;16:367-378.doi:10.1176/appi.neuropsych.16.3.367

 

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NEUROPSYCHIATRIC PRACTICE AND OPINION | August 01, 2004 Jeremy D. Schmahmann, M.D. Disorders of the Cerebellum: Ataxia, Dysmetria of Thought, and the Cerebellar Cognitive Affective Syndrome The Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences 2004;16:367-378.doi:10.1176/appi.neuropsych.16.3.367

Favorável a essa idéia, estudos de neuroimagem fornecem experiências empíricas em total conformidade com a disfunção afetiva e cognitiva presente na depressão. Além de evidenciar o benefício e alívio nos sintomas depressivos em seres humanos, quando da estimulação eletromagnética da superfície cerebelar (17). Somando-se a isso, também se constatou ativação cerebelar na presença de sintomas depressivos atreladas ao processo de dor, tristeza, pânico e atividades estressantes.(15)

Outra metodologia de estudo empregada buscando a compreensão da disfunção cerebelar relacionada com a depressão, fez uso de técnicas de ressonância eletromagnética em pacientes idosos (8).  Como conclusão, o estudo revelou o alargamento dos ventrículos laterais, de sulcos e fissuras, mas, sobretudo, a presença de atrofia cerebelar nos pacientes deprimidos analisados. E mais, foi constatado que essa atrofia é mais acentuada no verme.(9)

Dessa forma, as evidências indicam que o envolvimento do cerebelo nos transtornos afetivos esteja relacionado com a cronicidade e a gravidade dos sintomas, o que talvez possa estar associado a processos neurodegenerativos causados pela própria patologia ou pelo uso crônico de medicações (11).

Está comprovado também que uma diminuição da substância cinzenta do córtex cerebelar esquerdo está presente em doentes com formas de depressão mais severa e com pior resposta à terapêutica (13). Em estudos funcionais, demonstrou-se que indivíduos com depressão maior mostram, diante de estímulos emocionais, uma menor ativação do cerebelo, quando comparados a indivíduos sem a doença. Até mesmo indivíduos com história prévia de depressão, mas já em remissão, exibem uma menor ativação cerebelar, o que sugere uma perturbação permanente e irreversível da função do cerebelo na depressão (12).

 

Ana Carolina Mello Perin, Bruna Luíse Trentim e Luana Taiane Dondé são graduandas do curso de Medicina/UFGD-XIIIa turma.

 

Referências Bibliográficas

  1. BALDACARA, Leonardo et al . Cerebellum and psychiatric disorders. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo,  v. 30,  n. 3, Sept.  2008.
  2. Andreasen NC, Pierson R. The Role of the Cerebellum in Schizophrenia. Biol Psychiatry. 2008.
  3. ROGEL-ORTIZ, Francisco J.. Autismo. Méd. Méx,  México,  v. 141,  n. 2, abr.  2005.
  4. BALDACARA, Leonardo et al . Cerebellar volume in patients with dementia. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo,  v. 33,  n. 2, June  2011.
  5. PASTURA, Giuseppe et al . Advanced techniques in magnetic resonance imaging of the brain in children with ADHD. Neuro-Psiquiatr.,  São Paulo,  v. 69,  n. 2a, Apr.  2011.
  6. SCHIZOPHR, Bull. .Altered Amygdala Connectivity Within the Social Brain in Schizophrenia. Division of Psychiatry, University of Edinburgh, Edinburgh, UK, Jul 12.
  7. ROGERS Td., MCKIMM,, DICKSON Pe., GOLDOWITZ D., BLAHA C., MITTLETMAN G. Is autism a disease of the cerebellum? An integration of clinical and pre-clinical research. Department of Psychology, The University of Memphis Memphis, TN, USA. 2013 May.
  8. DUPONT, R.M.; JERNIGAN, T.L.; HEINDEL, W. – Magnetic resonance imaging and mood disorders. Arch Gen Psychiatry 52: 747-55, 1995.
  9. ESCALONA, P.R.; MACDONALD, W.M.; DORAISWAN, P.M. – Reduction of cerebellar volume in major depression: a controlled MRI study. Manuscript 2000. Deppression 1: 156-8, 1993.
  10. PILLAY S., YERGEN D., BONELLO C., LAFER B., FAVA M., RENSHAW P. A quantitative magnetic resonance imaging study of cerebral and cerebellar gray matter volume in primary unipolar major depression: relationship to treatment response and clinical severity. Biol Psychiatry 1997;42:79-84.
  11. STRAKOWST S., WILSON D., TOHEN M., WOODS B., DOUG A., STOLL A. Structural brain abnormalities in first-episode mania. Biol Psychiatry 1993;33:602-9.
  12. LIU, L.; ZENG L.; LI Y.; MA Q.; BAOJUM L.; SHEN H.; DEWEN H. Altered Cerebellar Functional Connectivity with Intrinsic Connectivity Networks in Adults with Major Depressive Disorder. PLoS ONE;Jun2012, Vol. 7 Issue 6, p1, June 2012.
  13. GOWENN E., MIALL RC.. The cerebellum and motor dysfunction in neuropsychiatric disorders. Faculty of Life Sciences, University of Manchester, UK, 2007.
  14. KALIA, M. – Neurobiological basis of depression: an update. Metabolism 54 (5 suppl 1):24-7, 2005.
  15. STOODLEY J., SCHMAHMANN D. Evidence for topographic organization in the cerebellum of motor control versus cognitive and affective processing. Published online 2010 January 11.
  16. STOODLEY J., SCHMAHMANN D. Functional topography in the human cerebellum: a meta-analysis of neuroimaging studies. Epub 2008 Sep 16. Department of Neurology, Massachusetts General Hospital and Harvard Medical School, Boston, MA 02114, USA.
  17. ALALADE , DENNY K., POTTER G., STEFFENS D., WANG L. Altered Cerebellar-Cerebral Functional Connectivity in Geriatric Depression. Published online 2011 May 26.
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2 Comments

  1. Leonardo Gabriel

    Otimo texto, me ajudou muito, obrigado

  2. maria augusta

    CREIO QUE O ASSUNTO DEVA SER SEMPRE ESCLARECEDOR ,COMO ESTE….FICO SINCERAMENTE MUITO AGRADECIDA,,,PASSEI E ESTOU PASSANDO ,SÓ NÃO SEI SE TEM COMO REVERTER O QUADRO COM TERAPIAS…..

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