Revisão sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade baseado no artigo “The Pfister Test and the dissociative identity disorder” para a analise do filme “O Clube da Luta”- por Kaique Miranda

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Retrato de uma alma – por Oscar Caputto. A personalidade é um mecanismo de adaptação aos costumes de uma época e de um local. Ela se forma nos primeiros anos de vida (possivelmente até os sete anos) com base na predisposição que já temos de reagir frente aos acontecimentos.

A personalidade é um conjunto de características ou traços que diferencia os indivíduos. É o modo de ser, a tendência de ser de uma determinada forma de acordo com sua herança genética, sua história pessoal e suas influências sociais.

Formada pela organização de aspectos cognitivos, afetivos, fisiológicos e morfológicos, que resulta num padrão de comportamento persistente. Isso vai determinar seu comportamento em vários contextos de sua vida: o modo como percebe as situações, como pensa a respeito de si mesmo e do mundo, e como se relaciona com os outros. (4)

Transtornos de personalidade podem ser o resultado que algum desequilíbrio que afete sua personalidade, por exemplo traumas. Será feita uma analise sobre o transtorno dissociativo de identidade (TDI) utilizando como método de comparação o filme “Clube da luta” de 1999 dirigido por David  Fincher.

O Transtorno Dissociativo de Identidade, anteriormente denominado Transtorno de Personalidade Múltipla (TDI), é um transtorno mental de difícil diagnóstico, de sintomatologia diversificada e forte comorbidade. Tornou-se parte dos diagnósticos oficiais da Associação Americana de psiquiatria em 1980. A característica principal do transtorno é a existência de duas ou mais personalidades que dominam em um momento específico.

Um explosivo sofredor de insônia (Edward Norton) e um carismático vendedor de sabonete (Brad Pitt) canalizam agressão primitiva masculina transformando-a em uma nova e chocante forma de terapia. Seu conceito se difunde, e formam-se diversos clubes de luta clandestinos em cada cidade, até que uma mulher sensual e excêntrica (Helena Bonham Carter) entra em cena e desencadeia uma situação fora de controle rumo ao caos. (Clube da Luta – 1999 – David Fincher).

Um explosivo sofredor de insônia (Edward Norton) e um carismático vendedor de sabonete (Brad Pitt) canalizam agressão primitiva masculina transformando-a em uma nova e chocante forma de terapia. Seu conceito se difunde, e formam-se diversos clubes de luta clandestinos em cada cidade, até que uma mulher sensual e excêntrica (Helena Bonham Carter) entra em cena e desencadeia uma situação fora de controle rumo ao caos. (Clube da Luta – 1999 – David Fincher).

Explicações etiológicas focalizam questões traumáticas como sendo o principal fator desencadeador da dissociação anormal da consciência, um mecanismo de defesa resultante de agressões e abusos físicos, sexuais ou psíquicos, responsável pelo encadeamento das emersões-imersões das múltiplas personalidades. Mesmo após as experiências traumáticas estarem num passado distante, o padrão de dissociação defensiva continua. A dissociação defensiva crônica pode levar a sérias disfunções no trabalho, social e mesmo nas atividades  diárias. A repetida dissociação pode resultar numa série de diferentes personalidades as quais podem eventualmente assumir a forma de identidades próprias. Estas entidades podem se tornar os “estados de personalidade” do TDI.

No filme o clube da luta o personagem Jack (interpretado por Edward Norton) é um executivo de uma empresa de automóveis que busca no consumo a satisfação pessoal. Isso gera um vazio em sua vida que ele tenta preencher frequentando os grupos de autoajuda. A maior consequência desse vazio pode ser interpretada como a perda de identidade representada no filme pela cena da autoanalise, onde ele encontra dentro de si uma caverna gelada e um pinguim (um animal com pouco dimorfismo). Isso pode ser o retrato de uma pessoa fria e sem identidade própria. Essa superficialidade e perda de identidade poderia ser a causa maior do transtorno desenvolvido pelo personagem durante o filme.

“Num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um 'nada saiba' do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente, aparecem de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de 'double consciente'.” Sigmund Freud

“Num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um ‘nada saiba’ do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente, aparecem de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de ‘double consciente’.” Sigmund Freud

No filme acontece como explicado por Freud, Jack cria uma outra personalidade completamente oposta denominada de Tyler (Brad Pitt). Entretanto, elas interagem entre si como se fossem duas pessoas distintas. Não é conhecido nenhum caso que se encaixe nesse contexto, onde exista uma comunicação entre as duas personalidades como mostrado no filme. Mas a personalidade secundária pode ter acesso à consciência produzindo alucinações auditivas (ex: uma voz dando instruções).

As personalidades múltiplas de uma pessoa podem ser diferentes em praticamente tudo. Podem ser de diferentes sexos, raças, idades, utilizar vocabulários diferenciados, fluentes em outras línguas e possuir sotaque. Até mesmo podem ter um estilo de escrita diferente ou serem canhotas, quando a identidade original é destra. Algumas identidades até mesmo possuem nomes, enquanto outras não.

Um caso clássico foi registrado por Eberhardt Gemelin no final do século XVIII (5). No começo da Revolução Francesa, refugiados aristocráticos chegaram em Stuttgart. Impressionada com esta visão, uma jovem mulher alemã, de vinte anos de idade, mudou repentinamente a própria personalidade para os modos e maneiras de uma senhora francesa, imitando e falando o francês perfeitamente e o alemão como se fosse uma francesa. Esses estados se repetiram. Quando em sua personalidade francesa, a mulher tinha completa memória de tudo aquilo que tinha dito e feito durante o estado francês anterior. Quando em sua personalidade alemã, ela nada conhecia da sua personalidade francesa.

O resgate de Psiquê por William Bouguereau. Psiquê era uma princesa mortal antes de Eros, o deus do amor, se apaixonar por ela. Após cumprir para sua sogra Afrodite em uma lista de quatro trabalhos impossíveis conseguiu se unir a Eros e se tornou imortal. Representa o que esta dentro de cada um, a essência de cada ser, a busca incansável da alma pelo amor verdadeiro. Para os gregos Psiquê representava a personalidade. Seria a alma nossa personalidade?

O resgate de Psiquê por William Bouguereau.
Psiquê era uma princesa mortal antes de Eros, o deus do amor, se apaixonar por ela. Após cumprir para sua sogra Afrodite em uma lista de quatro trabalhos impossíveis conseguiu se unir a Eros e se tornou imortal. Representa o que esta dentro de cada um, a essência de cada ser, a busca incansável da alma pelo amor verdadeiro. Para os gregos Psiquê representava a personalidade. Seria a alma nossa personalidade?

Assim acontece com Jack e Tyler, ambos são completamente diferentes. Enquanto Jack é um homem moderno, centrado e consumista, Tyler é um homem rústico, impulsivo e selvagem. É incrível o modo como o diretor trabalha essa interação entre as duas personalidades, enganando quem assiste até o fim do filme.

Para suprir o vazio, Jack encontra nos grupos de apoio um remédio que não encontrou na medicina. As visitas a esses grupos se tornaram um vício que livrou o personagem do sentimento de isolamento por meio da dor e sofrimento alheio. Entretanto, ao conhecer Marla esse alivio se esgotou, em parte pelo fato de Marla também ser uma viciada em grupos e saber de todos seus truques.

A relação de Jack e Marla é um exemplo de como esse transtorno pode passar despercebido por terceiros. No decorrer do filme Marla se comporta como qualquer pessoa que esta assistindo, ela não percebe que Jack possui uma segunda personalidade.

Esse transtorno é de difícil diagnostico, especialistas afirmam que demoram em média 7 anos para ser identificado. E pelo contrário do que pensam, cerca de 1% da população possui esse transtorno. Existem alguns sinais que podem ser observados:

  • presença de distorção temporal e lapsos de memória;
  • pacientes que se referem a si próprios por outros nomes ou em 3ª pessoa (“nós”) nas conversações;
  • dores de cabeça intensas acompanhadas por alucinações sonoras e crises convulsivas;
  • mudança de comportamento – geralmente, a identidade primaria é passiva, dependente e depressiva, enquanto a identidade secundaria é hostil, autodestrutiva e controladora.
  • Amnésia: a identidade primaria geralmente possui memórias fragmentadas enquanto a identidade secundaria possuem memórias mais completas.

Alguns especialistas afirmam que o TDI pode surgir até o sétimo ano de idade, a partir dai o individuo tende a responder a situações traumáticas por meio de uma dissociação em dois componentes fixos: o Eu-Emocional (kanjou) e o Eu-Racional (risei) – dissociação de Kanjou e Risei. Analisando por esse lado o filme tem suas contradições, entretanto o TDI é um transtorno pouquíssimo conhecido e pouquíssimo estudado que pode ainda nos revelar muitos mistérios com o passar do tempo.

  • Os sobreviventes (termo amplamente utilizado por portadores desse distúrbio) são quase sempre frutos da violência que assola nossa sociedade. Através dos processos dissociativos eles conseguem suportar situações terríveis, mostrando a incrível capacidade de readaptação do cérebro às condições mais adversas. Tudo a fim de vencer a luta pela manutenção da vida.

    Os sobreviventes (termo amplamente utilizado por portadores desse distúrbio) são quase sempre frutos da violência que assola nossa sociedade. Através dos processos dissociativos eles conseguem suportar situações terríveis, mostrando a incrível capacidade de readaptação do cérebro às condições mais adversas. Tudo a fim de vencer a luta pela manutenção da vida.

     Kaíque Miranda – graduando do curso de Medicina-UFGd-XIVa turma.

    Referências

    American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – 4º edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. 845 p. (1)

    Beck A., Freeman A. Terapia cognitiva dos transtornos de personalidade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. (2)

    Beck JS. Terapia cognitiva – teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. (3)

    Ono M.K., Yamashiro F.M. Múltiplas personalidades: o distúrbio dissociativo da identidade. Universidade Estadual de Campinas (4)

    http://www.ic.unicamp.br/~wainer/cursos/906/trabalhos/mc906_artigo_multiplas_personalidades_011738_008623.pdf (5)

    The Pfister Test and the dissociative identity disorder. Faria, Marcello de A. Universidade Católica de Brasília, 2008.

 

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