Neurobiologia do instinto materno, por Bruna Scheidt Gregianin, Karoline Becker Paraboni e Natanye Lemes Matchil.

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O instinto materno é descrito como uma tendência primordial que cria em toda mulher um desejo de maternidade e que, uma vez satisfeito, incita a mãe a zelar pela proteção física e moral dos filhos. Está bem estabelecido que os parâmetros característicos do comportamento maternal são mais intensos na primeira semana pós parto do que nas seguintes1.

Durante o periodo gestacional, o corpo materno sofre alterações anatômicas, neurológicas e fisiológicas, sendo que as duas últimas são as principais responsáveis pelas modificações comportamentais2.

Os estudos relatados na literatura relacionados às alterações fisiológicas são mais bem demonstrados em animais, especialmente em roedores, por meio de modelos de comportamento materno. Esse comportamento consiste basicamente de quatro aspectos: recolhimento dos filhotes, construção do ninho, amamentação, e limpeza da ninhada3.  Nesses estudos foi possível constatar a verdadeira influência de diferentes hormônios sobre as variadas estruturas do sistema nervoso em ratas.

O aparecimento do comportamento maternal no rato é mediado por eventos hormonais que ocorrem antes e durante o parto, incluindo as variações críticas dos níveis circulantes dos hormônios ovarianos. Dentre outros hormônios envolvidos na indução e manutenção do comportamento materno estão a oxitocina, estrogênio, prolactina e vasopressina4.

A influência dos hormônios no aparecimento do comportamento materno foi demonstrada pela injeção de oxitocina nos ventrículos cerebrais em ratas virgens, produzindo comportamentos maternos após 2 horas da aplicação5. Além disso foi demostrado que o bloqueio de receptores para a oxitocina ou a inativação da própria oxitocina bloqueia o início do comportamento materno em ratas que acabaram de dar à luz. A oxitocina,  é responsável pelo aumento da ativação em áreas límbicas motivacionais do cérebro em resposta ao estímulo do contato da mãe com o filho6. Durante os últimos dias da gravidez e os primeiros dias da lactação, ocorre um significativo aumento dos receptores de oxitocina em várias áreas do cérebro e também há aumento do número de neurônios hipotalâmicos que começam a produzir esse neuropeptídeo.

 

Gioia Albano

Gioia Albano

 

 

Em resposta a estimulos ameaçadores o comportamento materno pode mostrar-se agressivo, com o intuito de preservar a vida da prole. O desenvolvimento desse comportamento depende do reconhecimento do adversário como como uma ameaça em potencial e esse reconhecimento envolve a detecção de pistas feromonais. A vasopressina, conhecida por sua função na manutenção da osmolalidade, é reconhecida por modular agressividade, o eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal, comportamentos sexuais, memória e tem sido estudada em transtornos depressivos.7

Além das alterações hormonais, também foi relatado  um aumento na matéria cinzenta em regiões do cérebro relacionadas com o processamento da informação somatossensorial a após os primeiros meses do pós-parto. Esses achados evidenciaram que essas mudanças na estrutura cerebral materna requer o relacionamento direto entre a mãe e sua cria. Em ratas, informações auditivas, olfatórias, somatossensoriais e visuais durante interações físicas com sua prole e estímulos de aleitamento estão relacionadas com a reorganização do tálamo, lobo parietal, córtex sensorial. Porém, essas mudanças no córtex parietal só ocorrem quando as mães interagem com seus filhotes, mas não quando elas foram expostas somente ao cheiro ou sons de sua prole. É interessante analisar que os volumes crescentes de matéria cinzenta encontrados no tálamo, giro pré-central e pós-central e no lobo parietal superior, e que ocorrem do primeiro ao quarto mês no período pós parto, estão relacionados com a frequência e a qualidade das interações da mãe com o seu filho.8       

  

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A neurofisiologia do instinto materno relaciona-se, principalmente, com neuroplasticidade na área pré-óptica medial do hipotálamo, no sistema límbico e uma série de hormônios, todos produzidos e ou relacionados com o eixo hipotálamo-hipofisário. Todas essas alterações estão diretamente relacionadas entre si.

A área pré-óptica medial (MPOA) é um sítio neural crítico para a ação hormonal durante o parto que desencadeia a expressão do comportamento maternal, uma vez que neurônios da MPOA expressam receptores de estrógeno, progesterona, prolactina e ocitocina, fundamentais para esta resposta21.  Além disso, a expressão do comportamento maternal induz a um aumento de Fos, na MPOA, observado principalmente quando as fêmeas estão em contato com os filhotes, uma vez que a retirada dos mesmos induz a uma diminuição na expressão de Fos na MPOA. Portanto, a MPOA pode ser modulada tanto pela informação hormonal quanto pela informação sensorial, ambas críticas para a expressão e para manutenção das respostas maternais22.

A MPOA, sendo uma área do hipotálamo, tem participação no eixo hipotálamo-hipofisário, relacionado com hormônios do metabolismo e com comportamentos.

A área do sistema límbico envolvida com o comportamento maternal é a amigdala. Esta área está relacionada com a agressão maternal, que tem como função preservar a vida da prole, representando, assim, uma expressão do instinto maternal. O desenvolvimento desse comportamento depende do reconhecimento do adversário como como uma ameaça em potencial e esse reconhecimento envolve a detecção de pistas feromonais.O núcleo pré-mamilar ventral é um dos principais alvos do núcleo medial da amígdala, que representa o setor amigdalar crítico para o processamento dessas pistas feromonais.Durante a agressão maternal, o núcleo posterior da amigdala, a área hipotalâmica lateral tuberal e a parte ventrolateral do núcleo ventromedial apresentam aumento significativo na expressão da proteína Fos pela MPOA23. A vasopressina, conhecida por sua função na manutenção da osmolalidade, também é reconhecida por modular a agressividade, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, comportamentos sexuais, memória e tem sido estudada em transtornos depressivos7. A lactação estimula a produção de vasopressina pelo eixo HPA e, assim, a vasopressina liberada age na amígdala, podendo estimular a agressividade materna 24.

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A oxitocina, por sua vez, aumenta a ativação em áreas límbicas motivacionais do cérebro em resposta ao estímulo do contato da mãe com o filho25. Durante os últimos dias da gravidez e os primeiros dias da lactação, ocorre um significativo aumento dos receptores de ocitocina em várias áreas do cérebro e também há aumento do número de neurônios hipotalâmicos que começam a produzir esse neuropeptídeo. É, ainda, de referir que mecanismos psicológicos peculiares podem desencadear a secreção de ocitocina: isto significa, então, que interações sociais positivas compreendendo o toque e suporte psicológico, ambiente confortável e positivo, vários tipos de psicoterapia envolvendo a transferência de suporte, calor humano e empatia podem ser catalisadores da libertação da oxitocina26.

 

 

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O comportamento materno tem vários elementos: a construção do ninho, o agrupamento dos filhotes, os cuidados, a limpeza, a proteção e a não-agressão para com os filhotes. Diferentes redes neurais interligadas são responsáveis por cada elemento, tendo a área pré-óptica medial (MPOA) tem um papel central na regulação desses comportamentos maternos. O priming hormonal da MPOA é mediado pelo estrogênio, pela progesterona, pela prolactina e pela oxitocina, sendo que os receptores desses hormônios ficam upregulated (expressos em maior número e/ou com maior afinidade para o respectivo hormônio). A oxitocina é liberada no cérebro durante o parto e age em receptores de oxitocina na MPOA, no nucleus accumbens (NAcc), na área tegmental ventral (VTA), núcleo ventral do leito da estria terminal (vBNST), no núcleo paraventricular (PVN), nos bulbos olfatórios, no septo lateral (LS) e na amígdala, levando ao rápido início do comportamento maternal. A aversão ao odor de filhote de cachorro, que é evidente em ratas não-grávidas e nas grávidas nas fases inicial e intermediária, é mediada por projeções do bulbo olfatório para a amígdala cortical (CoA) e medial (MEA) e daí para o hipotálamo anterior (AH) e substância cinzenta periaquedutal (PAG). Durante o parto e na gravidez tardia, a ativação da MPOA e do vBNST adjacente supera e substitui as respostas aversivas ao odor de recém-nascidos e também leva à ativação de circuitos dopaminérgicos meso-límbicos de recompensa (VTA e NAcc). A retirada no momento do nascimento de mecanismos opióides inibitórios centrais, em particular no MPOA, também facilita o comportamento maternal. DA: dopamina; GABA: ácido gama-aminobutírico; NA: noradrenalina. The expectant brain: adapting for motherhood Paula J. Brunton & John A. Russell Nature Reviews Neuroscience 9, 11-25 (January 2008) doi:10.1038/nrn2280

 

 

Bruna Scheidt Gregianin,  Karoline Becker Paraboni e Natanye Lemes Matchil-graduandas do curso de Medicina da FCS-UFGD: XIIIa turma

 

Referências:

1 – Slamberová R, Szilágy B, Vathy I. Repeated morphine administration during pregnancy attenuates maternal behavior. Psychoneuroendocrinology. 2001;26(6):565-76

2 – Moore CL. Maternal behavior, infant development, and the question of
developmental resources. Dev Psychobiol. 2007;49(1):45-53.

3 – Numam M, R IT. The neurobiology of parental behavior. New York: Springer; 2003

4 – Bridges RS. The role of lactogenic hormones in maternal behavior in female rats. Acta Paediatr 1994; 397: 33±39.

5 – Pedersen CA, Prange AJ Jr. Induction of maternal behavior in virgin rats after intracerebroventricular administration of oxytocin.

6 – Weisman O, Sharon O, Feldman R. Oxytocin Administration to Parent Enhances Infant Physiological and Behavioral Readiness for Social Engagement.

7 – Todeschin, AS . Manipulação neonatal, ocitocina, vasopressina e comportamentos sociais em ratos. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Ciências Básicas da Saúde. Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Fisiologia.2010.

8 – The Construction of the Maternal Brain: Theoretical Comment on
Kim et al. (2010) Craig H. Kinsley and Elizabeth A. Meyer University of Richmondhipotálamo.The plasticity of human maternal brain: longitudinal changes in brain anatomy during the early postpartum period.Kim P, Leckman JF, Mayes LC, Feldman R, Wang X, Swain JE. Source Department of Human Development, Cornell University.

22- Laís da Silva Pereira, Sandra Regina Mota Ortiz. Estudo das conexões eferentes das porções ventral e dorsal da área pré-óptica medial. São Paulo, Brasil.

23- Cibele Carla Guimarães Souza. O Papel do núcleo pré-mamilar ventral na organização do comportamento agressivo maternal. São Paulo. 2011.

 

24- 1 P. J. Brunton, J. A. Russell and A. J. Douglas. Adaptive Responses of the Maternal Hypothalamic-Pituitary-Adrenal Axis during Pregnancy and Lactation. Journal of Neuroendocrinology 20, 764–776 a 2008 The Authors. Journal Compilation a 2008 Blackwell Publishing Ltd.

25- Omri Weisman, Orna Zagoory-Sharon, and Ruth Feldman Oxytocin Administration to Parent Enhances Infant Physiological and Behavioral Readiness for Social Engagement.
26- Diana Catarina Ferreira de Campos,João Manuel Garcia do Nascimento Graveto. Oxitocina e comportamento humano. III Série – n.° 1 – Jul. 2010.

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