ATIVIDADES DO COTIDIANO. COMO ORGANIZÁ-LAS?: ORIENTAÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS-por Adriana Dias Barbosa Vizzotto. In: APRENDIZAGEM, COMPORTAMENTO E EMOÇÕES NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: UMA VISÃO TRANSDISCIPLINAR. Organização: Elisabete Castelon Konkiewitz. Editora UFGD, Dourados, 2013.

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“Quanto mais penso em desenvolvimento infantil costumo imaginar uma locomotiva cruzando territórios desconhecidos e podendo, a qualquer momento, descarrilar e passar a trilhar novos rumos, muitos deles perigosos e traiçoeiros. Quanto mais precocemente observarmos e identificarmos tais ‘mudanças de curso’, mais rapidamente temos a chance de restabelecer a ordem e recolocar a ‘locomotiva’ nos trilhos corretos.” (Gustavo Henrique Teixeira)1 

 

Meu filho tem 14 anos e desde criança é muito agitado, não conseguia brincar por muito tempo com um único brinquedo, desinteressando-se rapidamente. Na hora das refeições permanecia mais de pé do que sentado, levantando e saindo da mesa por qualquer motivo. Hoje, adolescente, consegue ficar sentado, mas não para de movimentar braços e pernas. Na escola, a professora queixa-se que além de não parar sentado, conversa o tempo todo e incomoda quem está quieto. Ele ficou de castigo várias vezes e algumas suspensões devido a brigas e desobediência. Seu caderno é um ‘garrancho’ e dificilmente faz as tarefas escolares. Suas notas são baixas e já repetiu o ano porque não consegue se concentrar no estudo. Seu quarto e seus pertences estão sempre bagunçados. As únicas atividades que o interessam estão relacionadas a futebol (sabe tudo do assunto), videogame e conversas no Orkut. Foi diagnosticado por TDAH quando tinha 8 anos. Seu coeficiente intelectual (QI) é acima da média. Faz tratamento medicamentoso, terapia ocupacional há 4 anos e psicológico há 6 anos.”

 

“Meu filho não consegue se organizar em suas tarefas. O que eu faço para ajudá-lo? Ele sempre foi muito tímido, de poucos amigos, nunca me deu trabalho, mas só no final da adolescência é que os problemas apareceram… Com 17 anos sua timidez foi virando isolamento, permanecia no quarto em silêncio. Pensava que estava estudando para o vestibular, mas seus pensamentos estavam em outro lugar. Não tinha namorada, não saía com os amigos e com outros adolescentes. Fui percebendo que alguma coisa estava errada. Pensei em conflitos da adolescência, mas o seu comportamento foi se alterando. Falava sozinho, às vezes gritava e quebrava objetos. Era o começo das alucinações e delírios de perseguição. Seu diagnóstico é de esquizofrenia. Achava que ele era apenas um menino tímido. Nunca pensei que esse seu jeito se transformaria em doença. O que fazer?”

(Relatos de mães durante avaliações de terapia ocupacional)

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Como lidar com portadores de transtornos comportamentais? 

O objetivo deste capítulo é orientar pais e professores a lidar com crianças e adolescentes com transtornos comportamentais. Através de experiências vividas na clínica da Terapia Ocupacional (TO), com transtornos neuropsiquiátricos e emocionais detectados na infância e/ou adolescência, observa-se prejuízos importantes nas atividades cotidianas desses portadores. As relações familiares, sociais e escolares ficam prejudicadas devido a sintomas comportamentais, tais como agitação psicomotora, falta de atenção, concentração, motivação, depressão, prejuízos cognitivos e outros. A convivência com esses portadores torna-se difícil por apresentarem uma desorganização significativa nas atividades diárias, práticas, escolares e, consequentemente, as relações interpessoais intensificam-se e tornam-se mais complicadas. Uma das propostas da TO é fazer que pais e professores ajudem seus filhos/alunos a organizarem-se adequadamente, reabilitando-os e criando possibilidades de convívio familiar, de aprendizagem e outras habilidades sociais.

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O que é terapia ocupacional?

TO é a ciência que estuda a atividade humana e a utiliza como recurso terapêutico para prevenir e tratar dificuldades físicas e/ou psicossociais que interferem no desenvolvimento e na independência dos indivíduos em relação às atividades de vida diária, trabalho e lazer. É a arte e a ciência de orientar a participação do indivíduo em atividades selecionadas para restaurar, fortalecer e desenvolver a capacidade, facilitar a aprendizagem daquelas habilidades e funções essenciais para a adaptação e produtividade, diminuir ou corrigir patologias e promover e manter a saúde2.

A atividade humana está relacionada às atividades cotidianas (tarefas do dia a dia) e essas tarefas são de fundamental importância em nossa vida, sua realização, seu processo de execução e o resultado final têm diferentes graus e valores3. Quando essas atividades ficam prejudicadas devido a um transtorno, os prejuízos podem ser devastadores para o indivíduo, a família e a sociedade. A TO utiliza como instrumento em suas intervenções as atividades que é a execução de uma tarefa ou ação por um indivíduo4.

 

Objetivos

Os objetivos da TO é que as atividades sejam um instrumento de comunicação e expressão do indivíduo em terapia, nas quais há o estabelecimento de uma relação onde três elementos são de fundamental importância: o terapeuta, o paciente e as atividades5.

O processo terapêutico ocupacional deve favorecer ao indivíduo: a integração de conteúdos dissociados, valorizando sempre os aspectos sadios; que os aspectos patológicos tornem-se mais estruturados; a criação de elementos facilitadores de inserção social5.

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As atividades do cotidiano

A vida cotidiana dos indivíduos é composta por muitas atividades que são desempenhadas em determinado contexto, incluído o ambiente doméstico, escola, trabalho, hospital, clube, supermercado e outros. Segundo Heller o cotidiano pode ser entendido como “lugar de repetição do concreto, da experiência vivida. Constitui um espaço de transformação, pois é nele que ocorrem as relações sociais. O homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade”6. Isso nos faz pensar que nosso modo de existir no mundo é o que nos da a base de organização interna e, consequentemente, ferramentas para o convívio social. As atividades que os indivíduos desenvolvem ao longo de sua vida são consideradas áreas de ocupação de práticas do domínio da TO7. As principais atividades são8: Atividades de Vida Diária (AVD) – conhecidas também como atividades básicas de vida diária. Relativas: à higiene pessoal e autocuidado, alimentação e vestuário; Atividades Práticas da Vida Diária (AVP) – conhecidas também como atividades instrumentais de vida diária (AIVD). Relativas: ao cuidado com o outro, com animais, utilização adequada dos meios de comunicação (telefone, computador etc.), uso de transportes público e privado, gerenciamento financeiro, cuidado e manutenção da saúde, afazeres domésticos, fazer compras etc.; Atividades Educacionais – são as atividades de ensino e aprendizagem (escolares). Relativas: às tarefas escolares diárias e ao estudo; Atividades de Recreação e Lazer – são atividades lúdicas e de entretenimento; Atividades Produtivas e do Trabalho – atividades relacionadas à profissão e representam caráter econômico e de papel ocupacional; Atividades Corporais – são as atividades relacionadas ao cuidado com o corpo (aspectos físicos) e esportivos; Atividades Musicais e Artísticas – relacionadas às atividades expressivas; e as Atividades Culturais e Religiosas – estão relacionadas às tradições e crenças de um povo, comunidade ou de uma família.

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Hábitos

Os hábitos são associados à vida diária, sendo únicos para cada pessoa (individualizados) e são mecanismos de habituar os humanos para efetuar todo dia o requerido, o esperado ou o desejado, de maneira eficiente.  Por exemplo, a rotina de cuidados matinais (fazer a toalete, tomar café, ler etc.) em sequência diversas de tarefas está ligada às rotinas. O déficit de hábito é a extinção ou o rompimento da rotina diária. Em crianças pequenas existe uma ausência de iniciação própria de hábitos, mas durante seu desenvolvimento neuropsicomotor vão se acostumando a rotinas e hábitos copiados ou estabelecidos por seu cuidadores. Quando hábitos e rotinas são ausentes, as crianças não se desenvolvem na idade apropriada. Crianças e adolescentes com ausência de hábitos consequentemente apresentarão prejuízos nas demais atividades do cotidiano9.

“Lucas acorda às 09h30 e vai jogar videogame. Toma seu leite no sofá da sala e de pijama, depois de duas horas aproximadamente, come bolachas e tenta fazer suas tarefas escolares com a TV ligada. Às 12h almoça, alimentando-se muito pouco, escova os dentes e veste o uniforme escolar. Vai para a escola. Retorna às 18h30. Toma banho e, em seguida, liga o videogame e faz as refeições no sofá da sala. Depois, assiste TV e acaba dormindo no sofá com a TV ligada…”

Os hábitos e a rotina de Lucas é o que normalmente acontece no dia a dia de muitas famílias. Podemos considerar adequados os hábitos de Lucas? O que mudaríamos em seus hábitos? São hábitos saudáveis? É importante ter uma rotina adequada? Isso faz diferença na vida de crianças e adolescentes?

 

Como organizar as atividades do cotidiano de crianças e adolescentes com transtornos comportamentais?TO-8

O estabelecimento de regras e limites é uma necessidade para a educação de qualquer indivíduo e significa cuidado e afeto pelo outro. Toda criança e/ou adolescente precisa de uma referência e um modelo de comportamento adequado. O ambiente familiar deve ser facilitador e continente às necessidades afetivas e educacionais de nossas crianças e adolescentes. A escola é a segunda e mais importante instituição, depois da família. É na escola que a aprendizagem tem continuidade e as relações sociais acontecem. Os pais devem escolher e conhecer a escola quando isso é possível. Saber se os educadores têm algum preparo para receber seus filhos e comunicar a escola dos comprometimentos e das eventuais implicações que um transtorno de comportamento traz. A comunicação deve ser clara e compartilhada entre pais, irmãos, tios, avós, professores e outros cuidadores que devem utilizar de uma mesma linguagem. A escola tem que estabelecer um contato regular com a família e com os profissionais da saúde responsáveis pelo tratamento. Essa comunicação é fundamental para um prognóstico favorável.

 Orientações para pais

Não existem “receitas prontas” para lidarmos com crianças e adolescentes com transtornos comportamentais, mas algumas estratégias e dicas de manejo podem ajudar na convivência e aliviar o stress de familiares, como por exemplo:

  • Favorecer um ambiente tranquilo, com pouco barulho e sem grande movimento de pessoas pela casa.  Ambientes agitados e com muitos estímulos podem ser prejudiciais. Evitar discussões tensas e assuntos polêmicos dentro de casa. O funcionamento familiar caótico pode intensificar alguns sintomas.
  • Manter a casa arrumada, limpa e organizada colabora na organização dos portadores. Estabelecer uma rotina diária onde há participação de todos os membros da família. Não se esqueça que a família é uma referência importante para um comportamento adequado do seu filho.
  • O planejamento é uma tarefa de difícil execução para o portador de transtornos comportamentais, auxilie-o quantas vezes for necessário, estabelecendo e criando estratégias para facilitar as tarefas diárias, por etapas, orientando-o a executá-las da forma mais simples possível. Evite pressioná-lo durante sua execução. Não é adequado utilizar frases do tipo: “pare de fazer hora”, “ande rápido” etc.
  • Estimular a participação em tarefas variadas, pedindo que faça pequenos favores, como dar um recado, buscar objetos ou comprar alguma coisa. É importante sentir-se útil.
  • Dialogar e procurar estabelecer um bom vínculo com o seu filho. Olhe nos olhos e seja claro no que tem que dizer e saiba ouvi-lo com atenção. Regras e limites devem ser colocados com muita clareza e com firmeza, mas sem punições. Repita as regras quantas vezes forem necessárias, de forma objetiva. Elogiar os avanços em relação a um bom desempenho, comportamento e outros aspectos positivos é de fundamental importância para a autoestima.
  • Evite chamar atenção do portador na frente dos outros para que ele não se sinta constrangido. Alguns rótulos devem ser evitados, como preguiçoso, burro, louco, lerdo etc. Pense antes de agir para evitar perder o controle. Xingar, bater, ameaçar ou castigar frequentemente, só vai causar um ambiente estressante.
  • Reforços positivos e recompensas podem ser mais úteis do que punições. É necessário ter bom senso nesta hora para que isso não seja a única forma de estabelecer limites. Outras formas como o diálogo, o afeto e ensiná-lo a refletir sobre seus atos é muito importante.
  • Mantenha firmeza e constância em seus propósitos e não mude de ideia constantemente. Os pais precisam manter um diálogo firme e objetivo com seus filhos, evite que um desacate o outro.

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A rotina diária precisa ser bem-estruturada, constante e previsível. Os portadores de transtornos comportamentais normalmente apresentam prejuízos em seu funcionamento executivo, principalmente no planejamento, na iniciativa de realizar tarefas, tomar decisões e solucionar problemas e também em outros aspectos cognitivos, tais como manter a atenção, concentração e memória.

 

Atividades de vida diária 

Quanto aos cuidados pessoais: estabelecer horários diários para acordar, escovar os dentes, tomar banho e outros cuidados de higiene; orientar quanto ao vestuário – alguns portadores apresentam dificuldade na escolha da roupa, onde encontrá-la, no cuidado e sua higienização; alimentação saudável, com horários estabelecidos, sentar-se à mesa, utilizar os talheres adequadamente contribui para o estabelecimento dos bons hábitos alimentares. Realizar as refeições em família é de fundamental importância, considerando ser um momento de encontro de seus membros e de possibilitar trocas afetivas.

Dica: convide a criança ou adolescente para ajudá-los a arrumar a mesa do jantar e preparar um alimento de seu interesse.

 

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Atividades práticas 

Quanto às atividades práticas: ensine o portador a cuidar de seus pertences, tais como roupas, brinquedos, materiais escolares e outros – solicitar como rotina diária a arrumação de seu quarto e organização de outros espaços; quando há animais domésticos, se possível dar a tarefa do cuidado para o portador, isso pode ajudá-lo a ter a noção do que é “cuidar” e ter responsabilidades; estabelecer horários para o uso do computador e videogame. São atividades da atualidade e de grande interesse de crianças e adolescentes e ampliam e colaboram para alguns aspectos cognitivos, mas precisam ser controladas, supervisionadas e não excessivas. Os conteúdos agressivos não contribuem em nada. Procure jogos mais adequados e educativos e de preferência participe desses jogos. Dessa forma, os pais terão conhecimento de alguns conteúdos e podem se aproximar e interagir de uma forma mais prazerosa. Tarefas fora de casa, na comunidade, parques, idas ao supermercado com um adulto ou sozinho quando não há riscos, favorecem para o exercício da autonomia, a iniciativa e a independência.

Dica: peça para a criança ou adolescente realizar pequenas tarefas, como por exemplo, no computador (listas das compras do supermercado), para que aprenda a fazer as atividades práticas gradualmente.

 

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A execução das tarefas escolares e o estudo são, na maioria das vezes, de difícil manejo em lares de portadores de transtornos comportamentais. Algumas dicas aqui apresentadas podem facilitar: estabelecer horários fixos e diários para realização de tarefas e estudo; o espaço físico deve ser tranquilo e com pouco estímulo – colocar o portador sentado adequadamente e manter a mesa arrumada, apenas com os materiais necessários para evitar a dispersão; ler as instruções das lições para a criança ou adolescente com dificuldade, para ajudá-lo a manter a atenção e compreensão dos enunciados – talvez seja necessário fazer um resumo do conteúdo ou relatar em forma de uma história para facilitar a compreensão e atenção; estimular a leitura é fundamental para a aprendizagem. Se o portador não tem o hábito de ler, reserve um tempinho e leia ou conte histórias diárias. Um exemplo é contar ou ler histórias para o portador 10 minutos antes de ele se deitar. Escolha assuntos de seu interesse. Jornais, revistas e gibis também podem ser utilizados. A leitura pode se tornar um hábito e o ato de contar histórias é uma forma de fazer algo compartilhado, favorecendo a relação interpessoal; utilizar recursos visuais, desenhos, computadores, esquemas, jogos etc. Canetas coloridas e marcadores de texto podem ajudá-los a destacar o que é o mais importante estudar; ajudar o portador na organização do estojo, lápis apontados, cadernos e livros. Uma dica seria encapar junto com o portador seus cadernos e livros com os temas preferidos, personalizar os seus pertences e materiais escolares pode motivá-lo a cuidar melhor do que é seu.

Dica: os portadores com dificuldades nas atividades educacionais devem explorar outros recursos que podem ser encontrados na internet, museus e jogos. Exemplo: crie uma brincadeira de perguntas e respostas que tenham a ver com o conteúdo estudado.

 

As atividades contribuem para 

TO-1As atividades de recreação, lazer, corporais (esportivas), culturais, religiosas, musicais e artísticas são necessárias para qualquer pessoa. Em crianças e/ou adolescentes com transtornos comportamentais, elas devem ser estimuladas e contribuem para o desenvolvimento de alguns aspectos motores, cognitivos, emocionais e sociais.

Recreação e lazer – é na recreação e nas horas de lazer que o brincar acontece. Na hora do brincar podemos pensar no desenvolvimento de alguns aspectos: o prazer, a descoberta de habilidades, interação e compreensão de um funcionamento e domínio da realidade, criatividade e expressão11. A recreação e o lazer facilitam no aprendizado. Pais e professores devem possibilitar e aproveitar esses momentos para trabalhar as áreas comprometidas. Por exemplo: utilizar jogos que trabalham a coordenação motora, a memória, o raciocínio, a iniciativa, a atenção e a criatividade. Jogar, construir brinquedos e brincadeiras são estratégias de aproximação com a criança e/ou adolescente e melhoram as habilidades sociais. No lazer inclui-se: passeios em parques, clubes, idas ao cinema, eventos e outros.

TO-wellness2Atividades corporais – o incentivo a práticas esportivas é fundamental para o desenvolvimento e um controle motor mais adequado. Outros objetivos são as regras, os limites, o gasto energético e em casos de esportes coletivos, os portadores têm a possibilidade de aprender a ter espírito de equipe, além de melhorar o relacionamento interpessoal.

Atividades culturais – estimular crianças e/ou adolescentes a conhecerem museus, feiras de ciência, centros culturais e artísticos. Aspectos históricos e culturais de uma cidade, estado ou país favorecem o processo de aprendizagem. A visualização de objetos, vestimentas experimentos, curiosidades históricas, científicas e artísticas ajudam na memorização, compreensão e entendimento de uma cultura e melhor fixação de conteúdos. Essas atividades podem servir de estratégias para facilitar o estudo.

Atividades religiosas – aspectos religiosos na vida de crianças e/ou adolescentes com transtornos comportamentais podem contribuir para o estabelecimento de virtudes, crenças, valores, respeito ao próximo e sentimento de fraternidade. Normalmente, as comunidades religiosas promovem encontro de crianças e adolescentes que podem propiciar relações interpessoais saudáveis.

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Atividades musicais e artísticas – essas atividades podem oferecer às crianças e/ou adolescentes com transtornos comportamentais possibilidades de expressão e outras formas de comunicação que podem melhorar alguns sintomas comportamentais. Pintura, desenho e teatro, por exemplo, podem exercer um efeito prazeroso e propiciar o desenvolvimento de habilidades que despertem interesse e que sirvam como válvula de escape para a melhora do autocontrole.

TO-14Atividades produtivas e de trabalho – essas atividades são importantes na adolescência. A realização de cursos voltados a atividades laborativas (cursos técnicos, informática etc.) pode ser um exercício para a realização de atividades profissionais. Um emprego nessa fase possibilita que o adolescente aprenda a ter responsabilidade, regras e limites. Nesses casos, o trabalho remunerado deve ser de acordo com as leis trabalhistas para menores de 18 anos.

É importante avaliarmos as atividades que mais se enquadram para cada portador com transtornos comportamentais. Pais e professores podem pedir ajuda ao profissional da saúde responsável pela criança e/ou adolescente. O desejo, as habilidades e os interesses dos portadores devem ser considerados na escolha das atividades. As atividades devem ser supervisionadas e não devem sobrecarregar o portador. Os exageros e excessos não são adequados.

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A escola

Na escolha da escola para portadores de transtornos comportamentais, deve-se levar em consideração12: a escola deve satisfazer as expectativas dos pais; as diferenças individuais, valorizando os aspectos humanos das relações e evitando a competitividade e somente os resultados quantitativos; o desenvolvimento global do aluno e que não enfoque apenas algum tipo específico de desempenho – artístico, esportivo, musical etc.; a possibilidade de comunicação entre família, terapeuta, médico quando necessário. A comunicação deve ser acessível para a troca de informações para definição de condutas mais indicadas para cada situação; o ambiente deve ser agradável, calmo, com salas de aula com um número reduzido de alunos para a criança manter a atenção e concentração; recursos didáticos variados como: computadores, livros, materiais artísticos, instrumentos musicais, jogos etc. que facilitam o aprendizado; professores treinados e habilidosos que promovam aulas prazerosas para a motivação de crianças e/ou adolescentes em sala de aula.

 

Orientação para professores

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A abordagem pedagógica adotada pela escola no processo de ensino-aprendizagem deverá utilizar uma metodologia que considere o aluno como um ser único, com características próprias, com habilidades e dificuldades ímpares, e que possa ser a personagem principal do seu processo de aprendizagem, sendo sempre atendido em suas necessidades individuais. Todo portador deve ter cuidados psicopedagógicos diferenciados, considerando que suas dificuldades comportamentais podem afetar diretamente o seu desempenho escolar12.TO-16

A escola deve seguir algumas estratégias para proporcionar um ensino eficaz aos portadores de transtornos comportamentais: buscar informações sobre os portadores de transtornos comportamentais diversos; a rotina deve ser constante, previsível, com regras claramente estabelecidas e que estabeleça limites aos problemas comportamentais apresentados; oferecer apoio e incentivo ao aluno, dando apoio e assistência individualizada quando necessário; elogiar o aluno quando apresentar comportamento adequado; evitar punições, mas se necessário fazê-las de forma breve, com calma, de preferência longe dos demais. Criticar o comportamento inadequado, mas nunca o aluno; evitar o emprego de críticas que depreciam o aluno; ensinar a utilização de uma agenda para orientar o aluno de suas tarefas; estimular o desenvolvimento de hábitos de cooperação; solicitar ajuda ao aluno para a realização de pequenas tarefas dentro e fora da sala de aula; certificar se o aluno entendeu todas as instruções e tarefas solicitadas; conversar com o aluno sobre suas dificuldades. Incluí-lo sempre que possível nas discussões, apresentações e tarefas, dando-      -lhe possibilidades de participações adequadas e valorizando-o; estimular hábitos sociais como: “dar bom dia”, “até logo”, “por favor”, “obrigado” etc.; oferecer tarefas que estejam próximas da vida prática do aluno; usar variados recursos didáticos e visuais (slides, quadro-  -negro, pôsteres, computadores etc.) que facilitam a criança a memorizar, manter a atenção e favorecem o aprendizado. Materiais como marcadores de texto, lápis de cor, símbolos e lembretes podem ajudar; auxiliar no planejamento das atividades, estudo do aluno, discriminando o que é importante e necessário; ajudar na organização dos materiais escolares e de sua mesa; reconhecer seus pontos fortes e o esforço despendido; estimular sempre o estudo e tarefas de casa diariamente.

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Resumindo 

  1. Converse com as crianças e/ou adolescentes quantas vezes for necessário com clareza a respeito de suas dificuldades e disponha-se a ajudá-los.
  2. Ajudá-los a realizar as atividades do cotidiano, fazendo acordos e criando regras de convivência entre os familiares. Estimular o desenvolvimento de uma rotina diária, orientando-os desde as atividades simples até as mais complexas. Não fazer as atividades para eles, ou tratá-los como se não fossem capazes. Acredite, eles podem!
  3. Criar possibilidades para que eles retomem ou aprendam a desenvolver certas habilidades.
  4. Ajudá-los a acreditar que têm aspectos sadios e não apenas criticar seus comportamentos ruins.
  5. Estimular o convívio com outras pessoas, objetivando a melhora de suas relações pessoais.
  6. Fazer com que eles se sintam amados, o afeto é fundamental para sua autoestima.

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Conversando com os pais

Compreender, aceitar e pôr em prática algumas ações requer muita paciência e dedicação dos pais e outros membros da família com os portadores de transtornos comportamentais. Investir no tratamento é muito importante para um bom prognóstico. Procurem saber sobre o transtorno e todas as possibilidades de tratamento. O papel da família é oferecer um ambiente facilitador e continente, de afeto, limites, proteção e receptividade. Mas não se esqueçam que vocês também precisam suprir suas necessidades emocionais e pessoais. Peçam ajuda quando necessário, só é possível ajudar o outro quando estamos em condições físicas e emocionais. Por exemplo, em caso de emergência aérea, a orientação que os comissários de bordo dão é a seguinte: “ao caírem as máscaras de oxigênio, coloque em você primeiro, depois nas crianças e idosos”. Isso significa que se eu não mantiver a minha consciência em condições para agir em uma situação com essa, eu não tenho como ajudar os que mais necessitam.

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Vocês também têm uma tarefa difícil que é ensinar e educar. Quando se deparam com portadores de transtornos comportamentais, essa tarefa torna-se muito mais difícil, além de precisarem “dar conta” de uma sala de aula e de alunos com suas especificidades. Divida suas angústias e ansiedades com seus coordenadores pedagógicos e exijam que a escola os ajude na solução de seus problemas. A escola tem o dever de orientar e cuidar de seus professores e buscar orientação e reciclagem. A relação professor – aluno com transtornos comportamentais – pais – profissionais da saúde deve ser constante.

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 Adriana Dias Barbosa Vizzotto – Terapeuta ocupacional especializada em Psiquiatria e Saúde Mental, coordenadora do Hospital Dia Infanto-Juvenil, do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SEPIA), supervisora suplente do Programa de Aprimoramento de Terapia Ocupacional, colaboradora do Programa Esquizofrenia (PROJESQ) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP).  

REFERÊNCIAS

  1. TEIXEIRA, G. H. Transtornos Comportamentais na Infância e Adolescência. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2006.
  1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. International Classification of Functioning. Genebra: Disability and Health, 2001.
  1. PEDRAL, C; BASTOR, P. Terapia Ocupacional. Metodologia e Prática. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2008.
  1. CENTRO COLABORADOR DA ORGANIZAÇÃO DA SAÚDE PARA A FAMÍLIA DE CLASSIFICAÇÕES INTERNACIONAIS EM PORTUGUÊS – Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF (Org.). Coordenação da tradução Cássia Maria Buchalla. 1ª Ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
  1. BENETTON, M. J. Trilhas Associativas. Ampliando Recursos na Clínica da Terapia Ocupacional. São Paulo: Diagrama&Texto/CETO, 1999.
  1. HELLER, A. Cotidiano e História. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2000.
  1. MELLO, M. A. F.; MANCINI, M. C. Métodos e Técnicas de Avaliação nas Áreas de Desempenho Ocupacional. In Cavalcanti, A; Galvão, C. Terapia Ocupacional. Fundamentação & Prática. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. p.49-69.
  1. CREPEAU, E. B. Activity Analysis: a way of thinking about occupational performance. In Neistadt M. E.; Crepeau, E. B. (Eds.). Willard & Spackmans occupational therapy. 9th Ed. Philadelphia: Lippincott, 1998. p.135-147.
  1. BENETTON, M. J.; TEDESCO, S.; FERRARI, S. Hábitos, Cotidiano e Terapia Ocupacional. Revista do Centro de Estudos de Terapia Ocupacional (CETO), ano 8, n.8, dezembro 2003.
  1. PARHAM, L. D.; FAZIO, L. S. Recreação na Terapia Ocupacional Pediátrica. São Paulo: Santos Livraria Editora, 2002.
  1. FERLAND, F. O Modelo Lúdico. O Brincar, a Criança com Deficiência Física e a Terapia Ocupacional. São Paulo: Roca, 2006.
  1. SENA, S. S.; DINIZ NETO, O. Distraído e a 1000 por Hora: Guia para familiares, Educadores e Portadores de déficit de Atenção/Hiperatividade. Porto Alegre: Artmed, 2007.

 

 

 

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3 Comments

  1. FERNANDA HENRIQUES ALONSO E SANTOS

    Este conteúdo é o capitulo de um livro, isso mesmo?
    ATIVIDADES DO COTIDIANO. COMO ORGANIZÁ-LAS?: ORIENTAÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TRANSTORNOS COMPORTAMENTAIS-por Adriana Dias Barbosa Vizzotto. In: APRENDIZAGEM, COMPORTAMENTO E EMOÇÕES NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: UMA VISÃO TRANSDISCIPLINAR. Organização: Elisabete Castelon Konkiewitz. Editora UFGD, Dourados, 2013.

  2. Lorena Galvao

    Ótimo texto, contempla todas as áreas. Parabéns!

  3. ivete carvalho

    Contéudo da presente pagina é bastante esclarecedor quanto ao que se pode fazer numa intervenção com portadores de transtornos comportamentais. Parábens,

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