YOGA COMO TERAPIA ADJUVANTE NO MANEJO DOS SINTOMAS DA ESCLEROSE MÚLTIPLA – por Agatha Rosembarque Marques e Thamy da Cunha Nakamichi

  1. INTRODUÇÃO

 

“Yoga é transformar nossa consciência humana em consciência Divina”
Jaideva Singh

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A esclerose múltipla é um processo em que o sistema imune do próprio indivíduo produz anticorpos que danificam a mielina presente no sistema nervoso central. O início da doença ocorre, tipicamente, em jovens adultos, mais comumente no sexo feminino.

Atualmente, não existe cura para tal desordem e sua progressão, a longo-prazo, faz com que o manejo dos sintomas e a qualidade de vida sejam críticos. Existem diversos tratamentos farmacológicos aprovados, porém, devido à suas limitações, os pacientes tendem a procurar intervenções alternativas que complementem o tratamento.

Existem diversos trabalhos de revisões a respeito de como uma abordagem multidisciplinar pode beneficiar pacientes com desordens neurológicas, como a esclerose múltipla. Aqui, vamos tentar entender como e porque o Yoga pode beneficiar pacientes com esclerose múltipla, no sentido de manejo dos sintomas como a dor, saúde mental, fadiga, espasticidade, equilíbrio, controle da bexiga e funcionalidade sexual.

 

 

  1. A ESCLEROSE MÚLTIPLA

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A esclerose múltipla (EM) é uma doença crônica na qual o organismo produz anticorpos auto-dirigidos contra a bainha de mielina presente nas células do sistema nervoso central (SNC). A bainha de mielina é uma substância lipídica produzida pelos oligodendrócitos e que envolvem o axônio dos neurônios garantindo a efetividade na transmissão de sinais (Bitsch et al., 2000).

A resposta imune presente na EM é mediada por células-T e é direcionada contra os oligodendrócitos e a mielina, produzindo efeitos devastadores. A desmielinização é responsável por uma condução neuronal debilitada             que causará os sintomas apresentados pelos pacientes. Além do efeito inflamatório na mielina, ocorre também dano axonal, caracterizada pelo acúmulo de proteína precursora de amiloides (Bitsch et al., 2000).

Os sintomas mais comuns são variados e podem incluir fadiga, espasticidade, prejuízo ou perda da mobilidade, disfunções urinárias e intestinais, dor crônica, depressão e déficit cognitivo (Senders et al., 2012).

O início da doença ocorre tipicamente em adultos entre 20 e 40 anos, e é muito mais prevalente no sexo feminino. Estima-se que a EM afete mais de 2,5 milhões de pessoas no mundo, daí a necessidade da busca de terapias adjuvantes (Tullman, 2013).

A EM é classificada em 4 tipos de acordo com a National Multiple Sclerosis Society in US. O diagnóstico mais comum é da remitente com recaída (EMRR), que com o tempo progride para um curso progressivo secundário (EMPS). Os outros dois tipos menos comuns são progressivo primário (EMPP) e progressivo com recaída (EMPR) (Tullman, 2013).

Para os pacientes com EMRR, o início dos novos sintomas ocorre durante os períodos de recaída, que são seguidos por períodos de remissão de diferentes durações. Na maioria desses pacientes, a EMRR progride para EMPS, em que a doença avança sem períodos de remissão. Pacientes com EMPP vivenciam, desde o início da doença, disfunções neurológicas crescentes, sem períodos de remissão. Já os pacientes com EMPR apresentam uma diminuição constante das funções neurológicas, acompanhada de exacerbações ocasionais com piora dos sintomas (Tullman, 2013).

Atualmente, não existe cura para esclerose múltipla, por isso, devido ao caráter crônico e debilitante da doença, é extremamente necessário o manejo da progressão dos sintomas para que se possa assegurar alguma qualidade de vida.

Atualmente, existem alguns fármacos modificadores da doença aprovados pela FDA para reduzir a severidade das recaídas e o aumento das lesões cerebrais. As recaídas podem ser tratadas com corticoesteróides, os quais não apresentam benefícios a longo prazo (Senders et al., 2012).

Devido a severidade dos sintomas e cronicidade da doença, estima-se que mais de metade dos portadores da EM façam uso de terapias complementares adjuvantes ou alternativas ao tratamento farmacológico. A sociedade americana para EM promove uma abordagem ampla, incluindo fisioterapia, exercícios e atividades complementares como o Yoga (Senders et al. 2012).

Um regime de exercícios que combine equilíbrio, fortalecimento, alongamento e aeróbica podem ser benéficos e apreciados para pacientes com EM (Hale et al,. 2003).

 

  1. O YOGA

O Yoga é uma prática indiana antiga que combina os elementos descritos acima com uma filosofia de autoconhecimento da mente e do corpo, incorporando respiração, posturas e relaxamento. Existem diversas formas de Yoga, com diferentes intensidades, cruzamento com outras práticas e formas de ensino. Hatha e Kundalini são mais suaves, com focos na respiração e em posturas. Iengar, com foco nas posturas e no uso de adereços. Ashtanga e Vinyasa que tipicamente, demandam mais esforço físico. Alguns tipos são mais apropriados que outros para pacientes com EM, de acordo com as habilidades físicas individuais. Práticas incorporando adereços e almofadas tem um maior apelo para pacientes com doenças neurodegenerativas (Senders et al., 2012).

Apesar de os efeitos do manejo dos sintomas serem diferentes entre pacientes, o foco do yoga na respiração, movimento e alongamento podem ter efeitos terapêuticos benéficos nos pacientes com EM e aprimorar resultados como auto-dependência, saúde mental e qualidade de vida. Por esta perspectiva, o yoga é um método promissor de controle dos sintomas (Frank and Larimore, 2015).

 

  1. O YOGA COMO FORMA DE INTERVENÇÃO

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Qualidade de vida é um conceito extremamente amplo, incorporando tanto saúde física como mental. Diversos estudos, como o feito por Oken et al, mostram que a pratica regular de Yoga traz benefícios à saúde dos pacientes com EM, aumentando sua qualidade de vida. Também foi que o Yoga melhora o desempenho cognitivo, fadiga, equilíbrio, além de ter efeitos benéficos sobre o saúde emocional do paciente.

O propósito do Yoga é trazer um equilíbrio entre corpo e mente. O efeito positivo do Yoga no aumento da qualidade de vida nos pacientes com EM pode ser resultante direta da diminuição do estresse mental e corporal, uma vez que observamos uma melhora da força física, do equilíbrio e a diminuição da fadiga (Parshad, 2004).

Como a EM é uma doença de rápida progressão que, com o tempo, leva a desabilidades físicas, psicológicas, sociais e econômicas, os pacientes estão mais propensos à depressão, divorcio e até suicídio. Dessa forma, terapias adjuvantes como o Yoga, se mostram alternativas simples, econômicas e práticas que podem auxiliar o paciente a retomar certa autonomia, fornecendo compatibilidade com a condição vivenciada (Oken et al., 2004).

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  1. ORIENTAÇÕES PRÁTICAS E POSIÇÕES SUGERIDAS

Os estudos que dizem respeito ao tempo e pratica do yoga pelos pacientes com EM foram baseadas em estudos randomizados que definiam um tempo de aula entre 30-60 minutos, 2 a 3 vezes por semana (Oken et al., 2004).

Sugerimos que a prática possa ser iniciada com um tempo de 30 minutos, 3 vezes por semana, e que esse tempo vá aumentando gradativamente, conforme o paciente passe a apresentar mais segurança e melhora da capacidade física, até que se atinja os 60 minutos. Contudo, trata-se apenas de uma sugestão diante dos estudos citados acima, que deve ser adaptada de acordo com a condição particular de cada paciente.

A seguir, listaremos algumas posições sugeridas pelo estudo de Guner e Inanici que contemplam uma gama de déficits gerados pela EM. Faz-se importante ressaltar que tais posições estão descritas para pessoas hígidas e, para o paciente com EM, pode ser necessário adaptações e uso de adereços como almofadas e cadeiras para que haja um maior suporte e, consequentemente, uma maior segurança do paciente durante a prática. Acrescentamos que, tais adaptações, devem ser acompanhadas por profissionais experientes, para se assegurar a funcionalidade e a efetividade do Yoga como terapia.

 

5.1. POSIÇÕES

5.1.1. TADÁSANA

Corrige más posturas pelo alinhamento da coluna; melhora o alinhamento do corpo e o tônus postural; aumenta o espaço entre as articulações, agindo contra os efeitos degenerativos do envelhecimento da coluna, pernas e pés; tonifica os músculos das coxas, nádegas, tornozelos; melhora a consciência corporal; cria espaço na cavidade abdominal e torácica, contribuindo para a saúde digestiva e também aumentando a capacidade pulmonar (Guner e Inanici, 2014).

 

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5.1.2. DANDÁSANA

Fortalece os músculos das costas, alonga os ombros e abre o peito e melhora a postura (Guner e Inanici, 2014).

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5.1.3. SAVÁSANA

Relaxa, acalma o cérebro, ajuda a aliviar o stress e a depressão leve  reduz a dor de cabeça, a fadiga, a insônia e ajuda a baixar a pressão arterial (Guner e Inanici, 2014).

 

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            5.1.4. UTTANASANA

Trabalha toda a musculatura posterior promovendo maior elasticidade das pernas costas e cervical; alívio de dores nas costas por má postura; combate a hiperlordose; benéfico para os nervos espinhais e ajuda a prevenir dores ciáticas; reduz a fadiga e a ansiedade (Guner e Inanici, 2014).

 

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5.1.5. TRIKONASANA

Fortalece e alonga as pernas, quadris e coluna vertebral; estimula os órgãos abdominais; ajuda a aliviar o stress (Guner e Inanici, 2014).


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5.1.6.BADDHA KONASANA

Alonga os músculos adutores; melhorar a mobilidade do quadril; estimula os órgãos abdominais; estimula o coração e melhora a circulação geral; ajuda a aliviar a depressão leve, ansiedade e fadiga (Guner e Inanici, 2014).

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5.1.7. HALASANA

Acalma o cérebro; estimula os órgãos abdominais e da glândula tireoide; alonga os ombros e coluna vertebral, reduz o stress e fadiga (Guner e Inanici, 2014).

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5.1.8. BHUJANGASANA

Fortalece os músculos das costas, ventre e pescoço, ajuda a melhorar a postura, ação benéfica e intensa sobre as vértebras da coluna, mantendo a flexibilidade destas (Guner e Inanici, 2014).

 

 

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5.1.9. PASCHIMOTTANASANA

Fortalece as costas e as pernas, acalma o cérebro, ajuda a aliviar o stress, dores de cabeça e ansiedade além de reduzir a fadiga (Guner e Inanici, 2014).

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  1. CONCLUSÃO

Diante do exposto, fica claro que o exercício físico para o paciente com EM, traz benefícios ao corpo, mas também contribui para a melhoria do desempenho mental.

O Yoga é uma forma segura, barata e acessível aos pacientes com espasticidade e mobilidade prejudica em comparação com outras formas de exercícios. Além disso, foi demonstrado que o Yoga é tão benéfico quanto o aeróbico, apresentando a vantagem de ser mais prático para o paciente com EM por ter posições facilmente adaptáveis (Oken, et al. 2004).

Contudo, apesar das evidências de que os pacientes com EM podem se beneficiar de terapias complementares como o Yoga, ainda existem inconsistências e limitações nos resultados experimentais.

Uma grande limitação dos estudos feitos com o Yoga é que os pacientes criam expectativas de melhora, que podem influenciar nos resultados. Mesmo assim fica claro que os benefícios da pratica do Yoga superam a de muitas outras atividades complementares, por conseguir casar o fortalecimento físico com a melhoria da capacidade cognitiva.

Agatha Rosembarque Marques -acadêmica do curso de Medicina XVa turma-FCS/UFGD

Thamy da Cunha Nakamichi-acadêmica do curso de Medicina XIIa turma-FCS/UFGD

 

 

REFERÊNCIAS

  1. Bitsch, A., Schuchardt, J., Bunkowski, S.,Kuhlman, T.,and Bruck, W.(2000). Acute axonal injury in multiple sclerosis: correlation with demyelination and inflammation.
  2. Senders, A., Wahbeh, H., Spain,R., and Shinto, L.(2012).Mind-body medicine for multiple sclerosis: a systematic review.
  3. Tullman, M. J. (2013). Overview of the epidemiology, diagnosis, and disease progression associated with multiple sclerosis.
  4. Hale, L., Schou, E., Piggot, J., Littman, A.,and Tumilty, S.(2003).The effect of a combined exercise program for people with multiple sclerosis.
  5. Frank, R. and Larimore, J. (2015). Yoga as a method of symptom management in multiple sclerosis.
  6. Oken BS, Kishiyama S, Zajdel D, Bourdette D, Carlsen J, Haas M, et al. Randomized controlled trial of yoga and exercise in multiple sclerosis. Neurology, 2004
  7. Parshad O. Role of yoga in stress management.West Indian Med J, 2004.
  8. Guner, S., Inanici, F., Yoga Therapy an ambulatory multiple sclerosis assessment of gait analysis parameters, fatigue and balance. Turkey, 2014.
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