Um modelo animal de memória traumática, por Bruno Ernandes e Victor Colpo. Resenha do artigo “PTSD-Like Memory Generated Through Enhanced Noradrenergic Activity is Mitigated by a Dual Step Pharmacological Intervention Targeting its Reconsolidation” Lucas Gazarini, PhD; Cristina A. J. Stern, PhD; Rene R. Piornedo, MSc; Reinaldo N. Takahashi, PhD; Leandro J. Bertoglio, PhD. International Journal of Neuropsychopharmacology, 2014, 1-9.

  1. Introdução

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Sabe-se que pacientes que sofrem de transtorno do stress pós-traumático (PTSD) possuem atividade noradrenérgica aumentada logo após o contato com o evento traumático em questão. Essa maior descarga de neurotransmissores nas sinapses do SNC (sistema nervoso central) é consequência de falhas na regulação feita pelos receptores α-2 dessas mesmas sinapses.

Em busca de um modelo animal para PTSD, os pesquisadores bloquearam farmacologicamente os receptores α-2 adrenérgicos de ratos a fim de que, quando expostos a uma situação de medo, desenvolvam uma memória traumática que será diferenciada de uma memória normal de medo por uma série de critérios. O primeiro é a generalização, pois, como se sabe, pacientes não mostram uma associação normal entre o medo e a situação de perigo em potencial, tendendo a disparar uma resposta de medo ou stress em situações inapropriadas.

A segunda característica é a resistência a desestabilização normalmente sofrida por outros tipos de memória. Entende-se por desestabilização o enfraquecimento de determinadas sinapses responsáveis por memórias recém evocadas que, para continuarem presentes em nossas mentes, devem ser novamente reforçadas (reconsolidação). Fármacos que inibem a reconsolidação e assim apagando a memória revivida serão utilizas nesse critério.

Por fim, a capacidade dos receptores NMDA de facilitar a desestabilização de memórias será utilizada nos rastos supostamente com PSTD para avaliar uma potencial abordagem terapêutica.

 

  1. Métodos

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Para inibir os receptores α-2 citados foi utilizada a droga ioimbina. Já para impedir a reconsolidação de memórias, canabidiol e clonidina foram escolhidos e D-cicloserina atuará como agonistas parciais dos receptores NMDA. Para causar o estimulo de medo, foram empregadas uma caixa A feita de alumínio na qual os ratos eram ambientados em um primeiro momento, amedrontados em choques elétricos em um segundo e, por fim, expostos novamente, mas sem estímulos dolorosos para se recordarem o ocorrido no segundo momento.

Para avaliar a generalização do medo, os ratos foram colocados em uma caixa B de Acrílico. Como critério para medo, foi medido o tempo em que os ratos permaneciam paralisados nos dois contextos além da pressão sistólica após os eventos. Durante o teste A foi medido o tempo de paralização na caixa A e de teste B, o tempo de paralização na caixa B.

 

  1. Resultados

 

3.1. Experimento 1: Efeito de facilitação da ioimbina na consolidação de memória induz a expressão do medo generalizado acompanhado de aumento na pressão sistólica

 

Após as etapas de familiarização e condicionamento (estimulo doloroso), 26 ratos foram divididos em 4 grupos, dos quais 2 foram tratados imediatamente enquanto os outros foram tratados depois de 6h. Um grupo tratado imediatamente e um tratado no período de 6h receberam veículo inerte ao invés de ioimbina. Os ratos foram relembrados no contexto A e colocados no contexto B e então observados.

Foi observado que ratos que receberam ioimbina em 0h expressaram mais medo que os demais no contexto B, resultado que sugere medo generalizado. Resultado também observado quando pressão sistólica foi observada.

 

3.2 Experimento 2: expressão de medo generalizado é de longa duração

 

O experimento 1 foi repetido, porém os grupos foram tratados todos em 0h e observado em 14 ou 28 dias após o estimulo doloroso para ser avaliada a durabilidade dessa memória formada.

Neste teste, as memorias consolidadas com ioimbina se mostraram duradouras.

 

3.3. Experimento 3: generalização do medo é associada com a ativação de β-adrenoceptores cerebrais

 

Para investigar a contribuição dos β-adrenoceptores centrais e periféricos para a atividade noradrenérgica aumentada e medo generalizado induzidos por ioimbina, 53 animais foram divididos em 6 grupos baseados no pretratamento dado imediatamento após o condicionamento (veícuo, β agonista central propranilol ou β agonista periférico nadolol) e tratamento dado 10 minutos depois (veículo ou ioimbina).

Os resultados mostram que o grupo de ratos que recebeu propranolol teve menor tempo de paralização, mostrando sua capacidade de inibir o medo generalizado induzido por ioimbina.

 

3.4. Experimento 4: medo consolidado sob a influência de ioimbina é mais resistente à extinção

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Para investigar se a super-consolidação de uma memória de medo induzida por ioimbina pode afetar sua extinção, 22 animais foram divididos em 2 grupos baseados na administração de fármaco imediatamente após o condicionamento (veículo e ioimbina). Foram submetidos aos testes A e B, uma sessão de extinção na, qual os fármacos que impedem a reconsolidação da memória são administrado logo após a instabilizarão desta. Em seguida foram repetidos os testes A e B

A extinção foi feita em 5 sessões nas quais os fármacos eram administrados após a recordação do contexto A ( sem estimulo doloroso), nos quais os ratos tratados com ioimbina se mostraram mais resistentes a extinção, apresentado medo exacerbado ainda quando os testes A e B foram repetidos.

 

3.5. Experimento 5: memória de medo consolidada sob a influência da ioimbina se torna susceptível à interrupção da consolidação após a potencialização da desestabilização

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Para investigar se a super-consolidação da memória de medo induzida por ioimbina pode afetar a susceptibilidade de ter a reconsolidação interrompida, 58 animais foram divididos em 6 grupos, baseados no tratamento dado após o condicionamento (veículo ou ioimbina) e tratamento dado imediatamente antes de uma rápida sessão de recuperação no dia seguinte (veículo, clonidina ou canabidiol).

A clonidina e o canabidiol foram capazes de interromper o processo de reconsolidação, dado o tempo reduzido de congelamento mostrado no teste A no grupo tratado com veículo, mas o mesmo não aconteceu no grupo tratado com ioimbina. O teste B mostrou que, em todos os grupos tratados com ioimbina, houve grande tempo de paralização, indicando generalização do medo.

Para avaliar se a potencialização da desestabilização da super-consolidação da memória de medo com D-cicloserina pode viabilizar os efeitos de interrupção da reconsolidação do canabidiol e da clonidica, o mesmo teste foi repetido com ratos, porém todos receberam D-cicloserina 30 minutos antes da recuperação de memória.

Os efeitos de interrupção da reconsolidação da clonidica e do canabidiol foram observados durante o teste A em todos os grupos pela redução do tempo de paralização, assim como no teste B, mostrando que esses ratos não mais apresentam generalização do medo.

Foi ainda mostrado que a D-cicloseria por si só não é capaz de interferir na recuperação, expressão e extinção da memória, por meio de mais um experimento onde ratos foram divididos em 2 grupos baseados no tratamento com veículo e D-cicloserina, e o comportamento de ambos os grupos foram iguais nos testes A e B após a sessão de recuperação.

 

  1. Discussão

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Os experimentos mostraram que a administração de ioimbina durante o contexto de formação da memória de medo leva a uma inabilidade de restringir a paralização no e o aumento da pressão sistólica, mostrando que a atividade aumentada de noradrenalina nesse momento leva ao desenvolvimento de medo generalizado. Além disso, como o experimento 2 indica, a memória “anormal” de medo induzida por ioimbina é mantida por pelo menos 29 dias e também são resistentes à extinção (experimento 4), corroborando com os achados de memórias do tipo do transtorno do estresse pós-traumático.

O experimento 3, ao mostrar que o bloqueio de receptores adrenérgicos β centrais bloqueia o desenvolvimento de medo generalizado, indica que esses receptores estão envolvidos na formação de memórias aversivas.  E o 5, que um agonista parcial de receptores NMDA é capaz de potencializar a desestabilização dessas memórias, permitindo a ação de interrupção da reconsolidação do canabidiol e da clonidina.

Por fim, o artigo ressalta dois aspectos importantes. A expressão de medo generalizada pode ser melhorada por intervenções farmacológicas que potencializem a desestabilização e que interrompam a reconsolidação e que os mecanismos de ação da droga capaz de interromper a reconsolidação pode não ter relação com os mecanismos neuroquímicos responsáveis por induzir a memória de medo generalizado (clonidina e canabidiol).

Bruno Ernandes- graduando do curso de Medicina-FCS-UFGD-XVa turma

Victor Colpo- graduando do curso de Medicina-FCS-UFGD-XVIIa turma

 

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