Adversidades durante a infância podem ser fatores de risco para o desenvolvimento de fibromialgia durante a vida adulta? Por Nycolle Bueno e Murillu Augusto Lopes.

 

fibromialgia

 

 

A fibromialgia refere-se a uma condição dolorosa crônica e generalizada. É considerada uma síndrome, porque envolve vários sintomas, como rigidez e fragilidade muscular, fadiga crônica, distúrbios do humor, déficits de cognição e insônia. Além disso, a fibromialgia está associada a aberrações no sistema neuroendócrino, disfunção na regulação do estresse, função dos neurotransmissores e na estrutura e conectividade do cérebro. Essa doença afeta de 2 a 4 % da população e é mais comum em mulheres. O artigo “Early Life Adversity as a Risk Factor for Fibromyalgia in Later Life” aborda fatores ocorridos nos primeiros meses de vida de uma criança, que a tornam mais suscetível ao desenvolvimento da fibromialgia.

Um dos fatores de risco para o desenvolvimento da fibromialgia, segundo o artigo, são experiências dolorosas durante o desenvolvimento. A experiência da dor na infância pode causar alterações no seu processamento que podem se entender da infância à vida adulta. Crianças que nascem prematuras ou com adversidades e que necessitam de terapia intensiva em unidades de cuidado neonatal estão sujeitas a muitos procedimentos dolorosos diários e estressores, muitas vezes realizados sem a analgesia adequada. A repetição desses procedimentos por semanas ou meses pode então afetar o desenvolvimento do circuito nociceptivo no cérebro e alterar o processamento da dor mostrado em pacientes com fibromialgia.

 

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Tanto a hipersensibilidade quando a hiposensibilidade podem ser observadas como consequências da dor nas primeiras semanas de vida. A forma como a percepção sensorial é alterada depende de vários fatores como a época da vida em que a dor foi experimentada, o tipo de injúria sofrida e a quantidade de nocireceptores que foram ativados. Por fim, é possível que vias discretas no sistema nervoso central sejam capazes de alterar a sensibilidade e a hiperalgesia em neonatos que sofreram injúrias.

O uso de modelos animais evidenciou que a hiposensibilidade generalizada demonstrada em neonatos que sofreram experiências dolorosas nas primeiras semanas de vida a estímulos mecânicos e térmicos é provavelmente mediada por mudanças em regiões do tronco encefálica que modulam vias ascendentes para a substância cinzenta periaqueductal (PAG) e a medula rostroventral (RMV), o que pode aumentar ou diminuir a sinalização de nociceptores da medula espinhal.

 

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http://www.clevelandclinicmeded.com/medicalpubs/diseasemanagement/hematology-oncology/cancer-pain/images/figure-2.jpg

 

Além disso, o artigo sugere que a dor nas primeiras semanas de vida pode alterar o circuito inibitório de dor endógena. A inflamação e a liberação de moléculas inflamatórias resultam em um aumento na resposta neuronal espinal e o aumento de fibras nervosas na pele que também levam a um aumento na resposta nociceptiva. Assim, o manejo adequado da dor em neonatos é importante para prevenir a prevalência de fibromialgia em adultos.

 

O artigo sugere também que parto prematuro e o uso de corticoides a ele relacionado pode estar envolvido no desenvolvimento da fibromialgia. O ambiente estressante da unidade de terapia intensiva (luz,barulho,estímulos táteis,cirurgia,medicação e separação maternal) altera os níveis de cortisol dos neonatos quando comparados ao grupo controle, esses níveis são controlados por meio de feedback negative pelo eixo HPA((hipotálamo-pituitária-adrenal),mas na fibromialgia a regulação do eixo encontra-se anormal.

O uso de corticoesteróides pela mãe de recém-nascidos prematuros para adiantar o parto e promover o desenvolvimento do pulmão fetal pode alterar a capacidade do eixo HPA de responder a situações de estresse. Para comprovar essa hipótese estudos feitos com ratos expostos a glicocorticoides durante o período neonatal demonstraram que as glândulas adrenais e o peso do cérebro de ratos adultos foi menor, a regulação do estresse foi comprometida, houve comprometimento cognitivo em testes de memória e comportamento de ansiedade com efeitos exacerbados em ratos do sexo feminino.

 

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How maternal stress affects the fetus http://neurowiki2013.wikidot.com/individual:effects-of-prenatal-stress

 

Além disso, o risco de deficiência cognitiva e psiquiátrica é maior em crianças pré-termo.Esses problemas cognitivos estão presentes também na fibromialgia  e são conhecidos como fibro-fog estando relacionados a dificuldades de memória e atenção.

Imagens cerebrais de crianças pré –termo e crianças normais mostraram mudanças na estrutura e função do cérebro que explicam esses déficts. A superfície da área cortical é menor em crianças pré –termo extremas. O volume do tálamo em crianças pré –termo é menor e muitas podem perder a conexão tálamo-e córtex.

Segundo o artigo, o modelo animal de privação materna tem obtido um grande papel para a entender a fluidez da expressão genética durante o início da vida na formação do fenótipo adulto (estudo da epigenética, como o ambiente influencia a ativação e expressão de diferentes genes, tem proporcionado uma visão fascinante sobre essa fluidez genética).

O modelo animal tem mostrado que A privação materna tem influência em respostas ao stress futuramente. Por exemplo, ratos, que foram separados por barragem das mães, durante 180 minutos por dia após o nascimento, demostram níveis elevados de ARNm de CRF (fator de liberação de corticotropina) na fase adulta, o que fez com que houvesse um aumento na liberação de adrenalina e cortisol. Eles também mostram comportamentos como ansiedade em adultos e uma maior propensão para o consumo de álcool.

A privação materna tem sido utilizada para criar parâmetros de estados psiquiátricos, como ansiedade, transtornos de vício, esquizofrenia, e um estudo recente Uhelski e Fuchs mostraram que os animais maternalmente privados têm maior dificuldade de interagir com o meio onde podem ocorrer experiências dolorosas, sugerindo uma amplificação nas respostas a dor.

A fibromialgia é classificada como um distúrbio do processamento da dor e regulação do estresse, muitas vezes justaposto com comorbidades de ansiedade e depressão.

A quantidade de evidências que ligam a adversidade durante a fase inicial da vida à dor, stress e problemas emocionais na vida adulta sugerem fortemente que estes eventos adversos e traumas podem aumentar o risco de desenvolvimento da fibromialgia tardiamente.

Como conclusão sobre o artigo é mencionado que há uma possibilidade remota que a fibromialgia ocorra devido a um único fator, é possível que vários fatores concomitantes, tais como a predisposição genética ligados a sensibilidade à dor, experiências traumáticas, influência de hormônios sexuais, entre outros coeficientes podem combinar-se e/ou interagir criando uma maior propensão e risco de desenvolver a doença.

Nycolle Bueno e Murillu Augusto Lopes: alunos do curso de Medicina da Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD

Referências Bibliográficas:

Fibromialgia.Disponível <http://www.fibromialgia.com.br/novosite/index.php?

modulo=pacientes_artigos em &id_mat=4 >Acesso em : 09 de abril de 2016

LOW,L,A;L,ASCHWEINHARDT,P. Early Life Adversity as a Risk Factor for Fibromyalgia in Later Life. Pain

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