Como o estresse social leva à depressão? por Victor Colpo e Bruno Ernandes. Resenha do artigo “From Stress to Inflammation and Major Depressive Disorder: A Social Signal Transduction Theory of Depression”. George M. Slavich and Michael R. Irwin -Psychological Bulletin-American Psychological Association 2014, Vol. 140, No. 3, 774–815

stress1Fatores ambientais e sociais podem causar alterações biológicas que  levam à depressão. A chave para o entendimento dessa relação de causalidade é a noção de que o estresse pode modular o sistema imune , o qual influi no funcionamento do sistema nervoso central (SNC). Primeiramente, o SNC, que é a “porta de entrada” para o estresse no nosso organismo pode estimular a imunidade por duas vias principais. A primeira é uma alteração epigenética difusa, enquanto a segunda envolve a especificação do cortisol.

O estresse é uma ferramenta importante pela qual nosso corpo pode se preparar para situações de perigo hipotéticas e futuras. Para tanto, o corpo humano evoluiu a ponto de que o perigo, mesmo que simbólico, causa alterações que vão desde um comportamento de prepo para luta/fuga até a pré –ativação de mecanismos de defesa contra patógenos. O primeiro modo com que o corpo se prepara é ativando o sistema autônomo simpático causando uma liberação difusa de noradrenalina por todo o corpo.A  noradrenalina, por sua vez, em contato com as células de defesa, causa alterações epigenéticas nestas células que  promovem a expressão de genes pró-inflamatórios e de combate a patógenos bacterianos, ao mesmo tempo em que inibem vias de comunicação intracelular importantes para a imunidade antiviral. Sendo assim, a estimulação simpática modula o nosso sistema imune para combater bactérias em detrimento do combate viral.

 

 

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A segunda via que envolve o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é maislenta e de longa duração,  tendo um papel central na origem da depressão. Em situação de perigo, níveis altos de cortisol são liberados pelas suprarrenais para efeitos sistêmicos e pontuais, dentre os quais estão, o “recrutamento de reservas energéticas para lidar com ameaças momentâneas” e a depressão imunológica, ou redução da inflamação. O problema é que, comprovadamente, a constante ativação do cortisol torna as células imunes progressivamente insensíveis à sua ação (estado de resistência ao cortisol), de maneira que, quando o cortisol for liberado a fim de inibir a inflamação, seus efeitos não mais serão suficientes, contribuindo para um contínuo e sistêmico estado pró-inflamatório.

Para exemplificar, imagine um ser humano primitivo, que se encontre em uma situação de perigo futuro iminente, como ter avistado um leão em uma savana, ou ter sido abandonado pelo seu grupo. Em ambos os casos é muito provável que este nosso ancestral se depare com inúmeros desafios à sua sobrevivência, de forma que a ativação do sistema simpático e do sistema hipotálamo-hipófise-adrenal são de grande ajuda. Já as ameaças percebidas pelo homem moderno são de natureza mais sutil, porém mais constantemente presentes em seu cotidiano.

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Romper laços amorosos, ser rejeitado por um grupo de amigos, ter cobranças no trabalho ou perceber a social-painameaça de uma demissão são situações que  em nada tem a ver com perigos para o nosso corpo. Entretanto  mas que  acionam nossas respostas ao estresse e  de modulação do sistema imune. Ademais, ao contrário de representarem eventualidades, são uma constante na vida contemporânea. Dessa maneira, uma via originalmente fisiológica, agora se caracteriza como patológica, pois não mais nos protege contra um perigo iminente, mas mantém continuamente nosso corpo num estado pró-inflamatório, que pode contribuir para depressão.

Agora devemos caracterizar como o sistema imune vai influir no SNC. O estado pró-inflamatório consiste na maciça liberação de citosinas como, TNF-α, IL-1, IL-6, que além de perpetuar o estado inflamatório, podem agir no SNC. Uma vez dentro do encéfalo, essas citosinas cronicamente levam ao um estado conhecido siknessbehavior e a longo prazo à neurotoxidade, que seria a causa imediata da depressão, se não à depressão em si.

Os fatos que levaram os autores a elaborar essa teoria, são os seguintes. Do estresse à depressão: diversos estudos comprovam que pessoas submetidas a eventos traumáticos na infância têm a propensão muito maior de desenvolver o transtorno depressivo maior, o que se justifica pelo fato de que o trauma torna a pessoa mais sensível ao estresse criando um ciclo vicioso entre estresse, ativação de vias pró-inflamatórias concomitante ao “comportamento estressado”, retornando para uma nova situação de estresse. Do estresse à inflamação: outros estudos muito bem reproduzidos mostram que situações de estresse, principalmente, as que envolver rejeição interpessoal levam ao estado pró-inflamatório e à liberação das citosinas já citadas. Da inflamação à depressão: também é observado em estudos que estresse, liberação de citocinas e ativação de regiões do cérebro conhecidamente relacionadas com a depressão, como o giro do cíngulo são concomitantes em vários testes. Outro fator, é que a expressão de citocinas pró-inflamatórias é comprovadamente mais elevada em pessoas com depressão.

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É importante ter em mente que esta teoria também permite explicar situações até hoje não muito bem entendidas sobre a depressão, a primeira é que doenças autoimunes como “reumatismo, fibromialgia” e depressão costumam aparecer juntas já que, tanto uma quanto a outra teriam causa imune, mas também é importante salientar que estudos epidemiológicos não estabelecem uma relação de causa e consequência entre ambos. Outro fato intrigante também explicado por essa teoria é o sucesso de muitos ensaios clínicos em tratar a depressão com agente inflamatórios inibidores de cicloxigenase (COX), particularmente em um ensaio, paciente que tomaram AS, não só tiveram melhora, como o anti-inflamatório por si só diminuiu em mais da metade o número de refratários aos antidepressivos convencionais. E por fim, os efeitos benéficos dos tratamentos disponíveis hoje não entra em conflito com essa teoria, pois pacientes submetidos a psicoterapia, medicação antidepressiva e até mesmo terapias como yoga, apresentam menores níveis de citocinas pró-inflamatórias.

 

Victor Colpo e Bruno Ernandes- alunos do Curso de Medicina FCS-UFGD

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