Decifrando o estigma: uma busca para redução de seus impactos em minorias sociais – resenha do artigo “Reducing stigma and discrimination to improve child health and survival in low- and middle-income countries promising approaches and implications for future research”- por Helder Freitas dos Santos.

 

Samoa, Fasotootai community, May 2013. Peati Malaki. HIV +. HIV officer at Red Cross. She is the only person living openly with HIV in Samoa. She runs awareness campaigns in schools and communities.

Samoa, Fasotootai community, May 2013. Peati Malaki. HIV +. HIV officer at Red Cross. She is the only person living openly with HIV in Samoa. She runs awareness campaigns in schools and communities. http://www.redcross.int/EN/mag/magazine2013_2/14-17.html

É necessário entender previamente que o estigma corresponde a um processo de desvalorização de um indíviduo ou grupo, de acordo com suas atribuições físicas ou pessoais, muitas vezes consideradas incabíveis no ambiente em que vive. Desta forma, o estigmatizado se vê alvo de atitudes e comportamentos negativos da sociedade, como julgamentos morais e discriminação.

Toda sociedade em geral possui parâmetros culturais relacionadas às condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida. As políticas organizacionais e nacionais refletem os valores e normas sociais. Elas podem replicar e reforçar o estigma social contra certos comportamentos ou grupos ativamente, por exemplo, através da criminalização, ou inibição de serviços, de acordo com fatores estruturais que vão desde distinções econômicas e geográficas a diferenças na etnia, ocupação, ou orientação sexual.

O individuo que sofre de estigma tem sua identidade deteriorada, enfrentando as experiências negativas decorrentes dos sintomas da própria condição de saúde, como pessoas portadoras de HIV por exemplo.

Tea Pluckers//Nuwara Eliya//February 2007//Photo: Patrick Fuller

Tea Pluckers//Nuwara Eliya//February 2007//Photo: Patrick Fuller

Tea pluckers, in Nuware Eliya, who all participate in HIV awareness programme conducted by the Sri Lanka Red Cross Society. (p18690).The South Asia region, home to half the world’s poor, hosts an estimated 2.67 million people infected with HIV. Stigma and discrimination against people living with HIV and gender inequality remain the two biggest challenges to AIDS prevention in the region.

De acordo com os autores, é evidente a importância da investigação de identificação de meios para que possa se intervir e reduzir os impactos do estigma e a discriminação, com objetivo de promover melhoria na saúde de crianças de países de baixa e média renda, por fim, identificar os meios de intervenção mais eficazes para produzir um impacto na população.

Para interromper o processo de estigmatização e discriminação, é necessário entender os diferentes domínios do estigma que podem ser mudados, interrompidos ou reduzidos através de intervenções programáticas ou estruturais. Um esforço global recente, para desenvolver indicadores padronizados de estigma e discriminação causados pelo HIV levou ao desenvolvimento de um quadro prático que oferece um modelo informativo para pensar sobre como a estigmatização das doenças e grupos marginalizados podem estar influenciando a saúde infantil e bem-estar.

De acordo com este quadro prático são destacados dominios que constituiem o processo de estigmatização, como a marcação pelo estigma (estigma de doenças, intersecções de estigmas e outros), meios acionáveis (falta de consciência do estigma, preconceito e estereótipos negativos, influenciam o processo de estigmatização a nível individual), facilitadores como gêneros, normas culturais, disponibilidade de serviços de apoio social e leis de proteção (influenciam o processo de estigmatização positiva ou negativamento a nível social e coletivo), manifestações de estigma e resultados do estigma.

Para a saúde infantil são relevantes os multiplos estigmas ou estigmas de intersecção, que são estigmas que pessoas muitas vezes emfrentam devido à sorologia por HIV, profissão, gêneros, probreza, uso de drogas, estado civil e raça. Quando um estigma é aplicado a indivíduos ou grupos, pode ocorrer uma série de manifestações imediatas, inclusive o medo antecipado de experimentar os tratamentos humilhantes e degradantes.

 

HIV-positive Ei Ei Phyu, who lives at the hospice with his HIV-positive mother, sleeps in a hammock at the HIV/AIDS hospice founded by a member of the National League for Democracy (NLD) party in the suburbs of Yangon May 26, 2012. Their plight demonstrates the painful limits of democracy in Myanmar. While the government is pursuing reforms that promise to overhaul its health ministry and other institutions, the process is too slow to bring change to its most destitute. There are few better examples than AIDS sufferers, who due to a combination of poor education, social stigma and bureaucratic mismanagement are isolated in clinics, cut off from society.  Picture taken May 26, 2012. To match Feature MYANMAR-HIV/  REUTERS/Damir Sagolj (MYANMAR - Tags: SOCIETY HEALTH) ATTENTION EDITORS PICTURE 09 OF 20 OF PACKAGE 'AIDS HOSPICE IN MYANMAR' TO FIND ALL IMAGES SEARCH 'MYANMAR HIV' - RTR32V28

HIV-positive Ei Ei Phyu, who lives at the hospice with his HIV-positive mother, sleeps in a hammock at the HIV/AIDS hospice founded by a member of the National League for Democracy (NLD) party in the suburbs of Yangon May 26, 2012. Their plight demonstrates the painful limits of democracy in Myanmar. While the government is pursuing reforms that promise to overhaul its health ministry and other institutions, the process is too slow to bring change to its most destitute. There are few better examples than AIDS sufferers, who due to a combination of poor education, social stigma and bureaucratic mismanagement are isolated in clinics, cut off from society. Picture taken May 26, 2012. To match Feature MYANMAR-HIV/ REUTERS/Damir Sagolj (MYANMAR – Tags: SOCIETY HEALTH)
ATTENTION EDITORS PICTURE 09 OF 20 OF PACKAGE ‘AIDS HOSPICE IN MYANMAR’
TO FIND ALL IMAGES SEARCH ‘MYANMAR HIV’ – RTR32V28 http://www.redcross.int/EN/mag/magazine2013_2/14-17.html

Para as crianças menores de 5 anos de idade, o estigma e a discriminação sofrida pelos pais, por exemplo, como resultado de ter uma doença estigmatizada como o HIV ou pertencentes a um grupo estigmatizado como a casta programada na Índia, pode impedir o acesso ou a captação de serviços de saúde disponíveis, levando a maus resultados de saúde para as crianças.

Para este trabalho, resumidamente, foi utilizada uma revisão inicial da literatura realizada pela USAID do inglês, (U.S. Agency for International Development), identificando estudos de intervenção ou avaliações de alta qualidade visando resultados de saúde materna e infantil. Dado que algumas intervenções de redução de estigma foram desenvolvidas especificamente para melhorar os resultados de saúde da criança, como estudos de intervenção de redução de estigma relevantes de prevenção de mãe para filho (PMF).

No contexto HIV, o estigma, a discriminação e a desigualdade contribuem para resultados negativos para as crianças e seus pais, uma vez que existem programas para tratar mulheres HIV positivos, entretanto o estigma e a discriminação relacionados com o HIV afetam as decisões das mulheres grávidas para se inscrever em programas de PMF. As intervenções para reduzir as atitudes negativas em relação às pessoas que vivem com o HIV entre membros da comunidade podem utilizar uma combinação de atividades de sensibilização e de participação, como abordagens baseadas em informação, construção de habilidades, aconselhamento e apoio.

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At the Don Bosco transit centre in Goma, in the Democratic Republic of the Congo, this woman with HIV poses for a photo during an ICRC HIV/AIDS awareness-raising event in December 2011. Photo: ©Phil Moore/ICRC   http://www.redcross.int/EN/mag/magazine2013_2/14-17.html

 

A falta de práticas preventivas na gravidez, como a ingestão de ferro, complicações durante a gravidez, parto com atendentes não qualificadas, e uma falta de cuidados no período pós-natal, contribuem para altas taxas de mortalidade neonatal, algumas intervençoes nestes casos incluem a promoção de início precoce da amamentação, e o tratamento de infecções precoce com antibióticos.

No nível individual, a saúde materna e o estado emocional afetam o desenvolvimento da criança. A depressão materna está fortemente associada com muitos fatores de risco que podem ser estigmatizados, a depressão em si é uma condição de saúde mental estigmatizada, além disso, o estigma e a discriminação sofrida pelos responsáveis ou pais (principalmente mães), pode afetar negativamente o acesso das crianças aos recursos relacionados com a saúde e nutrição.

A marginalização é o processo de discriminação e exclusão de grupos estigmatizados, por sua vez, os filhos de pais pertencentes a grupos marginalizados têm menor acesso aos serviços de saúde e aumento da morbidade e mortalidade, diarreia e infecções respiratórias agudas são outros exemplos de problemas de saúde que afetam desproporcionalmente os grupos pobres e marginalizados.

Uma implicação importante deste trabalho é que as intervenções de PMF devem incluir esforços para reduzir o estigma em múltiplos níveis socioambientais, incluindo os níveis institucionais e interpessoais, como um mecanismo, para promover a retenção de mulheres HIV-positivos em programas que são fundamentais para garantir a sobrevivência neonatal e saúde infantil.

Em 2012, os países se comprometeram a programar um piso de proteção social que garanta que suas populações tenham acesso a um pacote básico de saúde, educação e benefícios de renda, se implementada de forma equitativa e inclusiva, tais intervenções políticas de alto nível poderiam superar a discriminação e a exclusão de grupos estigmatizados, e assim criar um ambiente propício para comportamentos que melhorem a saúde e desenvolvimento da criança, bem como a comunidade em que se vive.

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Referências

Ferreira, G. C. L., da Silveira, P. S., Noto, A. R., & Ronzani, T. M. (2014). Implicações da relação entre estigma internalizado e suporte social para a saúde: Uma revisão sistemática da literatura. Estudos de psicologia, 19 (1).

Michalak, E., Livingston, J. D., Hole, R., Suto, M., Hale, S., & Haddock, C. (2011). ‘It’s something that I manage but it is not who I am’: Reflections on internalized stigma in individuals with bipolar disorder. Chronic Illness, 7 (3), 209-224.

 

Vyavaharkar, M., Moneyham, L., Corwin, S., Saunders, R., Annang, L., & Tavakoli, A. (2010). relationships between stigma, social support, and depression in hiv-infected African American women living in the rural southeastern United States. Janac-Journal of the Association of Nurses in Aids Care, 21 (2), 144-152.

 

Artigo: “Reducing stigma and discrimination to improve child health and survival in low- and middle-income countries promising approaches and implications for future research” -Nayar U.S., Stangl A.L., Zalduondo B., Brady L.M. International Center for Research on Women, Washington, District of Columbia, USA, 2014.Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4205916/pdf/uhcm-19-142.pdf

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