Depressão e resiliência em mulheres com infecção pelo HIV-resenha do artigo “Depression and resilience in women with HIV and early life stress: does trauma play a mediating role? A cross-sectional study”- por Bruno Ernandes e Vitor Colpo

 

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O surgimento da terapia antirretroviral e o aumento da expectativa de vida de indivíduos infectados com o vírus HIV trouxe consigo o aumento da prevalência de morbidades psiquiátricas, como depressão e ansiedade, nesses indivíduos. A prevalência de depressão em portadores do vírus HIV chega a ser de duas a quatro vezes maior que em não portadores.

Ao mesmo tempo, altas taxas de violência física, emocional e sexual na infância são encontradas na população portadora de HIV.  E estudos mostram que abusos na infância e exposição a outros traumas estão entre os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas na vida adulta.

Entretanto, nem todo indivíduo que foi exposto a um trauma na infância desenvolve alguma doença psiquiátrica na vida adulta, o que ressalta a importância da resiliência, que é a capacidade individual de se adaptar com sucesso ao estresse agudo, trauma ou outras formas crônicas de adversidade. Sendo assim, a resiliência pode ser importante para o tratamento de quadros como ansiedade e depressão. Dados recentes mostram que em pacientes não infectados pelo vírus HIV depressivos ou portadores do transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), a resiliência contribui para resultados mais positivos ao tratamento.

Como não há estudos que relacionam sintomas de depressão e resiliência em indivíduos portadores de HIV que tenham sido expostos a traumas, esse trabalho busca avaliar essa como a sintomatologia depressiva e a resiliência de relacionam e se a exposição a traumas ou a presença de sintomas de TSPT atuam como mediador nessa relação.

Participaram do estudo 95 mulheres portadoras de HIV e expostas a traumas na infância segundo a definição do Childhood Trauma Questionnaire. As doenças psiquiátricas atuais e passadas foram avaliadas usando o MINI-International Neuropsychiatric Interview-Plus (MINI-Plus). Os sintomas de depressão foram avaliados pela Center for Epudemiologic Studies Depression Scale (CES-D). A exposição a traumas durante a vida foi avaliada pelo Life Events Checklist (LEC). Os sintomas de TSPT foram avaliados pela Davindson Trauma Scale (DTS). A resiliência foi avaliada pela Connor Davindson Resilience Scale (CD-RISC). Os dados foram analisados por pacotes de programas de cálculos estatísticos. Uma variável foi considerada mediadora, segundo Baron e Kenny, quando age como interveniente entre duas variáveis, ou seja, quando recebe influência da variável independente e influencia a variável dependente.

Os resultados mostraram que o trauma na infância, TEPT e resiliência afetam independentemente a presença de sintomas depressivos, ao passo que a exposição a outros traumas não. Foi encontrada forte relação entre depressão e resiliência, sendo que a resiliência atua como fator de proteção nessa relação.

TEPT, segundo o estudo, atua como mediador na relação entre a resiliência e fatores depressivos, ou seja, os sintomas de TEPT variam de acordo com a resiliência (quanto maior a resiliência, menos sintomas de TEPT) e, consequentemente, influenciam os sintomas depressivos (quanto menos sintomas de TEPT, menos sintomas depressivos). Traumas na infância, por outro lado, não atua como mediador na relação entre depressão e resiliência.

Por fim, os resultados obtidos nos estudos vão ao encontro com os relatos da literatura. Ressalta-se a importância desse estudo por ser o primeiro que relaciona resiliência e depressão em mulheres infectadas com HIV e com traumas na infância, onde o TEPT foi encontrado como mediador dessa relação e as limitações do estudo são a retrospecção e a possível presença de comorbidades psiquiátricas nas mulheres pesquisadas.

Bruno Ernandes; Vitor Colpo-graduandos do curso de medicina FCS-UFGD-Dourados-MS

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Artigo:
Spies G, Seedat S.Depression and resilience in women with HIV and early life stress: does trauma play a mediating role? A cross-sectional study.BMJ Open. 2014 Feb 24;4(2):e004200. doi: 10.1136/bmjopen-2013-004200. (disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939658/)
Dra Georgina Spies-
I am a postdoctoral researcher in the deparment of Psychiatry at Stellenbosch University. My interests lie in the field of NeuroAIDS. I am working on two neuropsychological and neuroimaging studies, one in HIV-infected women exposed to childhood trauma and the other in HIV-infected individuals who engage in hazardous alcohol use.
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