Introdução do livro “Criança, família e escola: promovendo o desempenho e a saúde emocional do seu filho” , de Elisabete Castelon Konkiewitz e Miguel Ângelo Boarati

Leia a Introdução do livro “Criança, família e escola: promovendo o desempenho e a saúde emocional do seu filho”. Um guia prático direcionado para pais e professores, da autoria de Elisabete Castelon Konkiewitz e Miguel Ângelo Boarati.

 

1.INTRODUÇÃO – HÁ MUITAS FORMAS DE AJUDAR

Elisabete Castelon Konkiewitz

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“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande.

A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas.

Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade…” (Manoel de Barros).

 

 

A escolarização é a tarefa de vida mais importante para a criança na meninice. Conseguir ficar em um novo ambiente, separar-se por um período dos pais, estabelecer novos contatos, afirmar-se diante do grupo, lidar com situações desconhecidas,além de lidar com tarefas competitivas e com situações de avaliação não são processos fáceis. O entrosamento da criança com a professora e com os colegas vai influenciar seu aprendizado. Por isso, a professora e a família não podem olhar apenas para o desempenho da criança, mas analisar também as suas dificuldades emocionais, os desafios que essa criança enfrenta e seu modo de agir. É fundamental ajudá-la também a se socializar. Se a forma de pensar dos pais é discordante da postura e dos valores da escola, isso pode gerar um conflito para a criança, que não saberá mais quem ela é e a quem deve seguir. Por exemplo, uma criança muçulmana em uma escola católica ou uma criança indígena em uma escola nãoindígena, mas também uma criança de uma família altamente permissiva, sem limites e que não valoriza a aquisição de conhecimentos terão dificuldades frente às exigências e restrições da vida escolar.

Os transtornos de aprendizado, emocionais e de comportamento na infância são um problema de saúde pública no nosso país. Considerando-se apenas os problemas de saúde mental, ou seja, os diagnósticos psiquiátricos,estima-se que em torno de 20% das crianças apresentem algum grau de comprometimento (OMS, 2001). Na realidade, trata-se de um grupo muito amplo, incluindo situações muito diferentes. O que todos eles, porém, têm em comum são as dificuldades de adaptação social, o sofrimento e/ou o baixo desempenho escolar.

Esses problemas sempre existiram e fizeram parte da realidade escolar. A diferença é que, hoje, são mais bem compreendidos e explicados, pois houve um avanço no conhecimento e nas possibilidades de tratamento em diversas áreas, como a psiquiatria, a neurologia, a psicologia e outras afins. Mecanismos genéticos vêm sendo desvendados, circuitos cerebrais identificados, vários novos medicamentos desenvolvidos, técnicas psicoterápicas aprimoradas, etc. É necessário ressaltar que o diagnóstico psiquiátrico é feito a partir da descrição de fenômenos clínicos observados e descritos, sendo necessário o uso de manuais clínicos. Para se definir um diagnóstico são utilizados os critérios descritos no manual de diagnóstico e estatística em saúde mental da academia americana de psiquiatria, que está em sua quinta edição (DSM V, 2013) e a classificação internacional das doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, que atualmente está em sua décima edição, sendo que provavelmente no próximo ano será lançado a 11ª edição.

É muito importante que essa evolução se converta na melhor compreensão do processo de adoecimento mental e na melhora na qualidade de vida, na integração e nas perspectivas futuras das nossas crianças.

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O que leva aos problemas de desempenho e comportamento na escola?

 

As causas dos problemas de comportamento e desempenho são muitas, por exemplo: retardo mental ou inteligência limítrofe; problemas neurológicos; problemas emocionais, como depressão e ansiedade; dificuldades de concentração e controle dos impulsos, como no transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; comportamento de negação e oposição aos adultos; dificuldades associadas à leitura e escrita ou à matemática; doenças físicas que enfraquecem a criança; efeito colateral de remédios; uso de drogas; problemas na família (separação dos pais, luto, violência, alcoolismo etc.); problemas no ambiente escolar ou no método de ensino, dentre outras.

Via de regra, nossa impressão sobre as pessoas se baseia no que podemos perceber do seu comportamento. A professora observa na criança a sua linguagem, a sua interação com os outros alunos, a sua compreensão dos conteúdos, seus gestos etc. Realmente temos acesso direto apenas a essas manifestações externas. Assim, também na psiquiatria, os diagnósticos são baseados no conjunto de alterações comportamentais manifestas pelo paciente. No entanto, é importante guardar em mente que muitos comportamentos parecidos podem ter causas totalmente diversas e que também um mesmo transtorno pode se manifestar de formas bastante diferentes. Por exemplo, uma criança pode apresentar comportamento hiperativo e impulsivo devido ao transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), mas também ao transtorno de humor bipolar, ao transtorno de Tourette, a altas habilidades, transtornos de sono ou mesmo como resposta a estressores familiares, dentre outras causas. Por outro lado, tomando como exemplo o transtorno depressivo, este pode se manifestar com melancolia e retraimento, mas também com rebeldia e agressividade. Portanto, não aceite para as suas crianças explicações imediatas e simplistas, elas não vão esclarecer a questão nem te ajudar a como lidar com ela. Toda criança necessita de uma observação cuidadosa, longa e, de preferência, realizada em diferentes ambientes e por diferentes pessoas que com ela interagem. É importante que se considere as impressões dos pais, a história da família, as impressões dos professores, a avaliação psicológica etc.

A comorbidade é a regra, ou seja, a maioria das crianças apresentará dois ou mais diagnósticos simultâneos, por exemplo, transtornos específicos do aprendizado de leitura e escrita, TDAH e ansiedade. É importante que todos sejam reconhecidos para que se possam organizar estratégias terapêuticas e pedagógicas adequadas.

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Teoricamente, a cognição envolve mecanismos de percepção, linguagem, atenção, memória, enfim, processos relacionados ao nosso desempenho intelectual. Todavia, a própria neurociência fornece evidências de que os processos emocionais e cognitivos são interdependentes e profundamente intrincados. De fato, comportamentos marcados por hiperatividade, impulsividade, oposição, agressão, desafio e manifestações antissociais estão associados à dificuldade escolar, também a depressão e a ansiedade interferem fortemente nas capacidades de concentração e memória, existindo explicações neurobiológicas para isso. Na medicina, fala-se em psiconeuroendocrinoimunologia, sendo esta uma área que se dedica à compreensão dessas complexas interações. Os estados psíquico, neurológico, imunológico e endocrinológico caminham sempre juntos, o que explica várias doenças psicossomáticas tão frequentes na infância, como alergias, asma, enxaquecas etc. Por isso, é impossível tratar um transtorno de aprendizado sem se preocupar com os aspectos emocionais, sociais e familiares da criança.

Em relação à origem dos diversos transtornos de aprendizado e de comportamento na infância, sabe-se que esta é multifatorial, ou seja, que resulta da interação de fatores genéticos, pré-natais e ambientais. A contribuição genética é evidenciada através de estudos familiares e em gêmeos criados em ambientes diversos, pois estes mostram que o risco de um familiar de uma pessoa acometida e, em especial, de um irmão gêmeo monozigótico (com os mesmos genes) apresentar os mesmos problemas é significativamente maior que o esperado na população geral. Por outro lado, mesmo gêmeos monozigóticos não apresentam uma concordância de 100%, ou seja, muitas vezes, apesar de ambos apresentarem os mesmos genes, apenas um irmão apresenta o transtorno e o outro não. Isso indica que outros fatores também são determinantes.

A interação entre os genes e o ambiente ainda não é totalmente compreendida, mas sabe-se o suficiente para poder dizer que a genética nem sempre é destino. Apesar das evidências claras de que grande parte dos transtornos de aprendizado e de comportamento tem ocorrência familiar, como por exemplo, o TDAH, o TOC e a dislexia, é importante ressaltar que o padrão de herança é bastante complexo e imprevisível, sendo o componente genético melhor compreendido, como a transmissibilidade de predisposições e tendências, as quais interagirão com fatores ambientais, resultando na eventual manifestação em maior ou em menor grau de um determinado distúrbio.

 

Genética e neuroplasticidade

 

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O que é gene? É um “pedaço” da longa fita de DNA, que contém a informação (o código) para a formação de uma determinada proteína. Quando essa informação é lida e a proteína sintetizada, diz-se que esse gene foi expresso. O desenvolvimento do cérebro tanto no período intrauterino, como no período pós-natal, segue um programa genético com a previsão de etapas sequenciais. No entanto, esse programa é apenas um potencial, que na sua execução terá interações constantes com o ambiente. Por exemplo, a ingestão de álcool pela mãe e o uso de determinados medicamentos interferirão na formação do sistema nervoso.

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Nascemos com o cérebro bastante imaturo. Nele, apenas as estruturas necessárias para as funções básicas de sobrevivência do organismo estão “prontas”. Por exemplo, o nosso córtex visual ainda não está totalmente formado. Todo o futuro desenvolvimento do sistema nervoso será modelado pelas experiências do bebê. Durante essa fase, “nascem” muitas células nervosas, mas apenas aquelas que se mostram ativas vão tendo as suas conexões“fortificadas”, formando circuitos que transportam as informações para áreas específicas, onde estas serão interpretadas, comparadas com informações antigas e armazenadas, resultando em aprendizado e memória. Por outro lado, uma célula nervosa que teria a função de transmitir um determinado tipo de informação sensorial, que o bebê porém nunca recebeu do ambiente, morrerá ou então assumirá uma outra função dentro do sistema nervoso.

Circuitos neuronais que modelam aprendizado, memória, concentração, percepção e outras funções cognitivas são biologicamente modificáveis de acordo com os estímulos recebidos e as experiências vividas. Esta qualidade do sistema nervoso central é denominada neuroplasticidade, sendo mais acentuada na infância.

Simplificadamente, podemos conceber o homem como um sistema dinâmico, mutável, em constante transformação, sofrendo as influências diversas do seu ambiente e respondendo a elas, buscando sempre a sua adaptação e sobrevivência de acordo com o seu arsenal genético. Alguns responderão a eventos estressantes com depressão, outros com fobias, outros com doenças psicossomáticas e ainda outros com superação e crescimento emocional. Mesmo as respostas de uma determinada pessoa não serão sempre as mesmas, pois as experiências são capazes de mudar os circuitos cerebrais e o próprio arsenal genético. Hoje, por exemplo, há grande interesse na pesquisa do papel do stress em fases precoces da vida. O stress, aqui, pode ser entendido como qualquer situação que seja interpretada pela criança como ameaça e a coloque em posição de alarme e de defesa. Pode se tratar de abuso sexual, negligência, violência doméstica ou urbana, eventos traumáticos etc. Há evidências de que essas experiências deixam suas cicatrizes no sistema nervoso, predispondo suas vítimas a reagirem na vida adulta diante de novos estressores com maior ansiedade, depressão e doenças físicas.

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Embora os transtornos de aprendizado e de comportamento na infância sejam compreendidos, primeiramente, como um problema da criança, não se pode desconsiderar a importância do ambiente escolar em sua manifestação. Por exemplo, o método de alfabetização adotado pode influenciar o desenvolvimento de dislexia em filhos de pais disléxicos. A forma de organização didática, as metas priorizadas no ensino, incluindo as crenças e percepções do professor em relação ao aluno também são um fator preditivo do seu desempenho.

Estudos também revelam que conteúdos de significado emocional são mais facilmente memorizados e que crianças aprendem mais quando encorajadas e motivadas em um ambiente menos competitivo e estressante, onde haja colaboração e valorização das habilidades individuais e da criatividade.

 

Neurodesenvolvimento, deprivação e hiperestimulação.

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A neurociência tem fornecido evidências de que ambientes ricos em estímulos sensoriais, que despertam a curiosidade e a busca de realização de experimentações levam, devido à neuroplasticidade, ao aumento da densidade de conexões das células nervosas, aprimorando o desempenho cognitivo, mesmo em crianças com déficit intelectual. Por outro lado, a deprivação sensorial pode levar ao desenvolvimento de diferentes formas de deficiência. Nesse contexto, entende-se por deprivaçãoa falta ou a presença insuficiente de estímulo ambiental necessário para o desenvolvimento cerebral, podendo levar à deficiência física ou mental. É importante salientar que essa deficiência muitas vezes só poderá ser corrigida com grandes esforços e talvez, ainda assim, não completamente. Por exemplo, uma criança que permaneceu nos seus primeiros anos de vida em lugares fechados, com poucos estímulos visuais, auditivos ou linguísticos, pouco contato com seus cuidadores, pouco afeto, poucas possibilidades de movimento etc. apresentará alterações comportamentais graves e um atraso importante no seu desenvolvimento neuropsicomotor, pois este segue uma ordem geneticamente prevista, segundo a qual haverá fases específicas, nas quais determinados circuitos estarão aptos a se formar desde que sejam devidamente estimulados. Fala-se em janelas do desenvolvimento. A criança tem então para cada fase uma janela aberta, que depois se fecha, dando lugar à outra.

Se a ordem de abertura das janelas segue basicamente a mesma sequência em todas as crianças, a velocidade é bastante variável. Crianças normais de uma mesma idade podem apresentar-se em fases diferentes, necessitando de estímulos individualizados. É, portanto, fundamental que se observe a criança. É preciso estar aberto aos seus interesses. O ambiente deve ser diversificado e rico em estímulos, para que nele ela possa achar o que procura, mas não adianta torna-lo extremamente complexo, levando à hiperestimulação. O desenvolvimento pode ser promovido, mas não forçado. Uma criança, por exemplo, só tem condições de aprender a andar, quando já senta sem apoio, rola etc. Não respeitar essa ordem seria atropelá-la.

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É do conhecimento de todos que o progresso científico, em especial das tecnologias de comunicação, gerou um mundo atual de hiperestimulação e de hiperexigência. Sofremos nós e as nossas crianças, diariamente, sob um bombardeio de informações e sob a pressão de acompanhar a velocidade das constantes mudanças no conhecimento.

Interessante é notar que esse excesso é por diversas razões, na realidade, contra-produtivo e representa paradoxalmente um estado de deprivação. Primeiramente, a hiperestimulação e a hiperexigência geram um estado emocional de stress subliminar, porém contínuo. O nosso cérebro as interpretam como possíveis ameaças, pois as mesmas sinalizam a necessidade de providenciar sempre novas respostas de adaptação. Não há repouso. O problema é que esse estado leva à ativação de circuitos neurais, imunológicos e endocrinológicos e à liberação de substâncias que,em longo prazo, são prejudiciais para o organismo como um todo. Há várias evidências que apontam para o papel do stress crônico no desenvolvimento de várias doenças, como a hipertensão arterial e o diabetes mellitus, mas também os transtornos de ansiedade e a depressão. Circuitos e áreas cerebrais associadas à memória são também prejudicados.

Outro aspecto é o fato deque a transmissão de várias informações em curtos períodos de tempo diminui a nossa capacidade de concentração duradoura com foco em um único estímulo, como é o caso da leitura silenciosa de um texto complexo. A concentração exige silêncio, relaxamento mental e filtragem de informações sem importância.

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O silêncio e a pausa de atividades e de informações também são absolutamente necessários para o processamento cognitivo e emocional das nossas experiências.

A hiperestimulação também pode paradoxalmente gerar uma situação de deprivação. É fato que muitas crianças não recebem, devido ao sedentarismo, os estímulos necessários ao seu desenvolvimento psicomotor. Também podem, eventualmente, devido aos longos períodos diante do computador, estar sendo privadas de experiências sociais importantes para seu desenvolvimento afetivo e de habilidades de comunicação.É na interação não virtual com o outro, em situações reais do cotidiano, que as crianças aprendem a resolver conflitos e a expressar suas emoções. É decifrando sinais não verbais que assimilam como as suas ações são interpretadas e julgadas pelos outros, que reações emocionais elas geram, parecendo ser esse aprendizado de extrema importância para a sua adaptação.

 

A adolescência, a melhor e a pior fase da vida.

Não existe fase na vida em que o individuo sofra tantas modificações e influências e em tão pouco tempo do que na adolescência. A infância é também um período importante de desenvolvimento e modificações, mas de certa forma, a família e em particular os pais possuem uma maior influência sobre as escolhas e no impacto das influências que a criança vai receber.

Já o jovem está mais voltado para o mundo, para seu grupo social, para o papel que ele desempenhará na sociedade e como ele quer ser visto e notado por essa sociedade. É uma fase de experimentação, tão necessária para que o jovem chegue à vida adulta de forma completa, mas que representa o risco de que ele se perda de forma irreversível.

Todo jovem quer e precisa ser bom em algo, ter o respeito dos pares, admiração dos pais e professores. Por outro lado, ocorre uma quebra significativa de valores antes tão arraigado e por vezes não questionado, que esse jovem começa a fazer.

A ação dos hormônios sexuais, o intenso desenvolvimento e maturação cerebral, a interferência das experiências fora de casa, o contato com as drogas, as dificuldades de aprendizagem, o desejo de obter bens de consumo e principalmente a influência do grupo de amigos. Tudo isso faz com que a fase da adolescência seja de particular vulnerabilidade.

O jovem ainda não tem maturidade para mensurar todas as consequências de suas escolhas, por outro lado, sofrerá o impacto das más escolhas. O envolvimento com gangues e práticas delitivas pode ocorrer tanto em jovens que cresceram no meio facilitador (regiões pobres e pouco assistidas) como em jovens abastados que tiveram acesso a informação, cultura e bens de consumo.

Os conflitos com os pais se tornam mais acentuados e dificuldades que antes eram decididas com um simples não dos pais, será por vezes confrontado e desafiado. Pais que não tiveram autoridade sobre seus filhos durante a infância, dificilmente a terão nesse momento.

Existem, no entanto fatores protetivos que no conjunto facilitam ou evitariam os riscos inerentes a esse período de experimentação. Um bom vínculo com as figuras parentais, que foram ao longo da infância modelos consistentes de educação, bom nível de escolaridade, nutrição e saúde física adequada, crianças que aprenderam a lidar com a frustração durante o desenvolvimento, boa adaptação social (é fundamental que a criança tenha habilidades sociais bem desenvolvidas) e escolar, núcleos familiares bem constituídos com papéis bem definidos, onde a autoridade dos pais está bem estabelecida.

Por outro lado existem fatores considerados de risco que tornam a adolescência um período de risco para eventos adversos. Viver em áreas de risco, com baixo nível de desenvolvimento humano, pobreza, relações familiares conflituosas, figuras parentais pouco significativas, desnutrição, baixa escolaridade, contato com álcool, drogas e práticas delitivas. Tudo isso contribui para o desenvolvimento de situações adversas, risco de transtornos mentais e de mortalidade para os jovens.

A falta de planejamento das políticas públicas para a adolescência, como lazer, esporte, cultura, profissionalização, saúde, etc, aumentam ainda mais esse vácuo social, colocando nossos jovens em situação de maior vulnerabilidade.

É importante que o trabalho nessa fase da vida seja de caráter preventivo, do desenvolvimento de habilidades e tratamento específicos para situações de transtornos mentais que já estejam estabelecidas.

 

Há muitas formas de ajudar

 

O fato de não conseguirem se socializar na escola ou não conseguirem aprender como as outras crianças, pode ter tristes consequências: essas crianças começam a perder a autoconfiança e a autoestima, e ser dominadas por sentimentos de raiva, frustração e vergonha;  começam a ter um relacionamento cada vez mais tenso com os seus pais, dominado pelas cobranças, reclamações da escola, decepções e stress. Além disso, pesquisas indicam que elas têm um risco maior de se envolverem com álcool ou outras drogas na adolescência, obterem uma formação profissional de baixo nível, ficarem desempregadas ou terem empregos pouco remunerados e, até mesmo, um risco maior de entrarem em conflitos com a lei.

Hoje, sabe-se que grande parte dos problemas de saúde mental do adulto, na realidade, inicia-se na infância. O reconhecimento dos primeiros sintomas e a adoção precoce de medidas de prevenção e tratamento tem grande repercussão na história de vida de cada criança, mas também na saúde pública do nosso país. Essa questão é muito séria. As crianças precisam de ajuda! Vamos então ao desafio!

Devido à complexidade da situação, a criança com dificuldades na escola deve passar por uma avaliação médica detalhada, na qual todas as possibilidades e circunstâncias devem ser verificadas. Na maioria das vezes, o médico solicitará a ajuda de outros profissionais. São eles:

O psicólogo: é o profissional que irá detectar as dificuldades emocionais da criança, da família e do seu ambiente, bem como definir o quanto essa dificuldade interfere no desenvolvimento da criança e nas diferentes relações entre os membros da família. Ele irá conversar e observar a criança, muitas vezes também seus familiares. Pode, eventualmente, aplicar testes para melhor avaliar a personalidade, as capacidades ou os conflitos da criança. Será seu confidente íntimo, seu aliado durante todo o processo de tratamento, fornecendo também grande apoio e orientação aos seus pais, cuidadores e professores.  Reconhecerá os conflitos presentes e ajudará os envolvidos na resolução dos mesmos. Esse acompanhamento se denomina psicoterapia.

Opsicopedagogo: é o profissional especializado na análise dos processos de aprendizado da criança. Sua busca é tentar compreender de que forma ela aprende e o que está causando suas dificuldades na escola. Ele irá interrogar a criança e seus cuidadores, irá observá-la e interagir com ela através de brincadeiras, jogos e testes. Tentará também entender como é a sua escola, quais os seus métodos de ensino e de avaliação, como é a relação entre o professor e o aluno, qual a motivação e o interesse da criança para as diferentes áreas do conhecimento. Por fim, ele inicia um trabalho de acompanhamento da criança, o qual também ajudará os seus professores e cuidadores a encontrar novas formas de interagir e compartilhar com ela interesses e saberes.

O terapeuta ocupacional: é um profissional com trabalho bastante flexível e amplo. No caso particular das crianças, ele geralmente irá treinar, através de jogos, brincadeiras e atividades caseiras, as habilidades motoras que dependem do amadurecimento do sistema nervoso, como a coordenação das mãos, a rapidez de reações, a concentração, a percepção do próprio corpo, as noções de direita e esquerda, a independência no cuidado de si mesma (amarrar os sapatos, vestir-se, higiene pessoal), dentre outras.

O fonoaudiólogo: é um profissional voltado para o tratamento de problemas da fala, da voz, da articulação, da leitura, da escrita, além de tratar também problemas de deglutição (ato de engolir). Geralmente, no caso de crianças com dificuldades de aprendizado, esse profissional irá avaliar sua linguagem falada e escrita, sua habilidade de ler e de compreender o que leu, sua capacidade de formar frases, seus erros de ortografia etc. Sua avaliação é fundamental no diagnóstico e no tratamento da dislexia (dificuldade específica de aprendizado de leitura e escrita com características próprias que a identificam).

 

Há inúmeras outras possibilidades de auxiliar a criança no seu sofrimento:

 

A arte abre um canal de expressão. Às vezes, não encontramos palavras que expliquem os nossos conflitos, mas podemos simbolizá-los em um desenho, em um modelo em argila, na música, na dança ou em um jogo de teatro. Isso diminui a sensação de isolamento, além de propiciar a experiência de ser capaz de realizar algo. Ao concentrar-se em uma atividade criativa, a mente se abre para fora e para o novo, interrompendo o ciclo repetitivo de pensamentos negativos e de autodepreciação.

O yoga engloba técnicas de respiração, meditação e posturas corporais, tendo resultados psíquicos muito amplos, incluindo a diminuição da ansiedade, um aprofundamento da paciência e da aceitação dos fatos da vida, o melhor conhecimento de si mesmo, dentre outros.

As atividades esportivas são de natureza muito variada, havendo modalidades que estimulam a cooperação em grupo e, com isso, a socialização da criança (como futebol, basquete, vôlei), outras que aprimoram a disciplina e o autocontrole emocional (artes marciais) etc. No entanto, todas as modalidades ativam o corpo, ocupam a mente, são voltadas para a realização de uma meta, gastam energia e levam o cérebro a liberar diferentes substâncias relacionadas à sensação de prazer.

A equitação, além dos aspectos esportivos, leva à interação com o cavalo, que é um animal bastante sensível e capaz de criar um bom vínculo. Essa atividade acalma, melhora a autoconfiança, o autocontrole, a concentração, além de outros efeitos benéficos.

A equoterapia é uma forma de tratamento realizada através de atividades com o cavalo, sob acompanhamento de um terapeuta especializado, muitas vezes,em um trabalho mais complexo e individualizado, envolvendo uma equipe com diferentes profissionais.

Os estímulos corporais gerados pelos movimentos do cavalo constituem, para a criança, uma nova forma de experimentar e perceber o próprio corpo, suas dimensões e possibilidades, o que torna esse método terapêutico bastante interessante para casos de deficiências sensoriais, retardo mental e transtornos do espectro autista. A equoterapia também pode ter efeitos positivos sobre os aspectos emocionais, como a interação social, o autocontrole, a formação de vínculos e a percepção do outro.

Nos capítulos a seguir, este texto apresentará algumas estratégias básicas que podem ser adotadas pelos pais e professores no apoio à criança. Em seguida, serão abordados alguns dos problemas de aprendizado e comportamento mais comuns da infância, procurando mostrar as suas manifestações e orientar os pais e professores sobre as condutas terapêuticas mais adequadas para cada caso.

“Ide pois aos vossos campos e pomares,

E lá aprendereis que o prazer da abelha

É de sugar o mel da flor,

Mas que o prazer da flor

É de entregar o mel à abelha.

Pois, para a abelha,

Uma flor é uma fonte de vida.

E para a flor

Uma abelha é mensageira do amor.

E para ambas,

A abelha e a flor,

Dar e receber o prazer

É uma necessidade e um êxtase.”(Kahlil Gibran) 

Criança, família e escola: promovendo o desempenho e a saúde emocional do seu filho. Guia prático para pais e professores. 

Autores: Elisabete Castelon Konkiewitz & Miguel Angelo Boarati
Ilustrações: Iraci Coneglian Oliveros
ISBN: 978-85-8298016-3
128 páginas
Peso – 0,240 grs
Idioma – português
Edição – primeira em junho 2015

http://www.pulsoeditorial.com.br/crianca-familia-e-escola.html

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