Inflamação crônica no sistema nervoso central, importância de sua patogênese em alterações neurocognitivas associadas ao HIV- por Helder Freitas dos Santos: resenha do artigo “Brain inflammation is a common feature of HIV-infected patients without HIV encephalitis or productive brain infection”.

Estrutura do vírus HIV

 

As consequências clínicas da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) devem-se à capacidade deste retrovírus em infectar células do sistema imunológico. Os alvos primários do vírus são os linfócitos que expressam o marcador de superfície CD4, que serve como receptor que se liga à proteína do envelope do vírus. Estas células, chamadas de linfócitos auxiliares, orquestram diversas funções imunes. A infecção por HIV pode ser considerada uma doença do sistema imunológico, caracterizada pela redução progressiva de linfócitos CD4.

O HIV penetra no SNC após cerca de uma a duas semanas da infecção sistêmica através de macrófagos e linfócitos infectados e persiste principalmente em macrófagos perivasculares e na micróglia. O vírus não infecta diretamente os neurônios, porém a infecção pelo HIV é capaz de resultar na produção de substâncias tóxicas que causam dano neuronal, especialmente nas áreas subcorticais do SNC. Entretanto, quando o HIV invade o SNC, pode causar uma síndrome com distúrbios neurológicos, cognitivos e comportamentais graves, conhecida em adultos como desordens neurocognitivas associadas ao HIV, do inglês, (HIV-associated neurocognitive disorders, HAND),

Desordens neurocognitivas associadas ao HIV (HAND) é um termo genérico que descreve três níveis de disfunções neurocognitivas.

 

O mais grave destes, a demência associada ao HIV (HAD), compreende deficiências adquiridas em pelo menos dois domínios neurocognitivos, sendo associada a anomalias motoras ou comportamentais que resultam em prejuízo funcional no trabalho e atividades de vida diárias.

HIV e neuroinflamação
http://www.nature.com/nri/journal/v5/n1/fig_tab/nri1527_F3.html

 

A utilização de terapia com antirretrovirais (ART) diminuiu a incidência do HAD significativamente, no entanto, a frequência de desordens menos graves como, insuficiência neurocognitiva assintomática associada ao HIV (ANI) e desordem neurocognitiva menor (DNM), aumenta em até 50% nos indivíduos infectados com HIV, mesmo entre aqueles com supressão do vírus por longa data.

A encefalite causada por HIV (enchephalitis associeted-HIV, HIVE), é atenuada consideravelmente com uso de ART, com uma redução acentuada no número e tamanho das bainhas perivasculares e lesões nodulares, bem como a diminuição da produção do vírus no sistema nervoso central.

O estudo relata evidências de neuroinflamação em tecidos da autópsia
de pacientes com infecção pelo HIV e vários graus de disfunção cognitiva, com e sem a presença de HIVE. A ativação da microglia e astrócitos é menos intensa, mas semelhante aos registros observados em HIVE, uma das neuropatologias subjacentes a HAND.

 

 

 

 

Enquanto o neuropatogênese de HAND não é completamente compreendida, estudos extensos demonstraram um papel significativo de monócito/macrófago (MO) de acumulação e o HIV de replicação dentro do compartimento do SNC no desenvolvimento e a progressão do HAD e HIVE.

 

Foi visto no estudo que houve ativação imune semelhante no tecido cerebral da autópsia de pacientes tratados com ART, e infectados pelo HIV com e sem encefalite, com algumas diferenças distintas na freqüência, intensidade e localização.

 

 

Outros testes neuropsicológicos revelaram o comprometimento neurocognitivo entre a maioria dos indivíduos infectados pelo HIV estudados. Estes dados suportam a hipótese de que a inflamação crônica do cérebro é uma característica comum na infecção pelo HIV e provavelmente desempenha um papel fundamental na patogênese da HAND.

Esquema da barreira hematoencefálica.

A Análise de imuno-histoquímica da matéria frontal branca e gânglios basais de
tecidos de seres humanos com HIVE e HIV-E (com infecção pelo HIV, porém sem encefalite no SNC), revelou acúmulo signiticativo de macrófagos na microglia para HIVE e HIV-E, em relação aos tecidos controle.

Além disso foi observada expressão de CD16 significativa em macrófagos na microglia que se acumularam dentro do parenquima do cérebro, bem como aqueles que compreendem bainhas perivasculares e lesões nedulares em cérebros de pacientes com HIVE, não foi constatada expressão em cérebros soronegativos,  porém a expressão de CD16, também foi observada no sistema nervoso central de doentes HIV-E, porém em um grau menor do que observado em pacientes que demonstravam sintomas de HIVE.

Deste modo, observamos as características semelhantes da ativação imunitária no sistema nervoso central de pessoas prejudicadas neurocognitivamente, na presença e ausência de encefalite, independentemente de ART no momento do óbito. Muitas das descobertas em paciente com HIV-E, são mais pronunciados em paciente com HIVE, com maior intensidade a expressão e ou  frequência,  o que sugere que os mecanismos patogénicos semelhantes estão envolvidos nas formas menores e mais graves da HAND.

Expressão CD16 revela diferentes graus de ativação microglial na infecção pelo HIV que provavelmente contribui para o declínio neurocognitivo, mesmo entre aqueles que não passam a desenvolver demência e encefalite. Curiosamente, a expressão astrocítica de vimentina, uma proteína intermédiria de filamentos que pode ser envolvido em hipertrofia de processos astrocíticos, é significativamente maior na HIVE, do que o observado em pacientes HIV-E, o que pode ser o resultante de longos processos de neuroinflamação.

A neuroinflamação observada na ausência de infecção produtiva pode resultar de um número de diferentes fatores, incluindo a produção de vírus de baixo nível, que está abaixo do nível de detecção das análises, o efeito neurotóxico do ART e ou ativação imunitária sistémica crônica que pode estar presente, com ou sem células T CD4+.

Aqui vimos que a presença de inflamação crônica que envolve o SNC associado a macrófagos na microglia e astrócitos infectados pelo HIV, causa impacto em mecanismos de homeostase no cérebro, bem como em sua função neuronal. A neuroinflamação tem um papel bem estabelecido e proeminente na patogénese do HIV, onde provavelmente contribui para as formas mais leves de HAND, o ANI e MND.

Contudo, é necessário que mais estudos sejam realizados para que se amplie o entendimento sobre o grau de comprometimento do SNC relacionado à infecção pelo HIV, assim como o desenvolvimento de estratégias terapêuticas que visam a inflamação prolongada do SNC, proporcionando assim uma gama maior para a compreensão da patogénese e as desordens.

Artigo completo:

Tavazzi E, Morrison D, Sullivan P, Morgello S, FischerSmith T. Department of Neuroscience, Center for Neurovirology, Temple University School of Medicine, Philadelphia, PA, USA. Sep, 2014.

Disponível em:  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4152918/pdf/nihms-616251.pdf

 

Helder Freitas dos Santos-possui graduação em Biotecnologia (2016), pela Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais (FCBA), e atualmente é mestrando do Programa de Pós graduação em Biologia Geral/Bioprospecção, ambos pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Integrante do Grupo de Estudos em Biotecnologia e Bioprospecção Aplicados ao Metabolismo. Tem experiência em bioprospecção de moléculas bioativas e ensaios antioxidantes in vitro. Atualmente desenvolve pesquisas sobre atividades biológicas de produtos de abelhas sem ferrão utilizando culturas celulares e modelo in vivo Caenorhabditis elegans.

 

Referências

Goldman L, Ausiello D. (2009). Cecil Medicina. 23ª Edição. Rio de Janeiro: Elsevier.

 

Manji H. (2004). The neurology of HIV infection. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 75 (90001):29i–35.

 

Palacio M, Álvarez S, Muñoz-Fernández MÁ. (2012). HIV-1 infection and neurocognitive impairment in the current era. Rev Med Virol, 22 (1):33–45.

 

 

 

Adicionar a favoritos link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *