Trecho do livro-Espectro do Autismo, Criatividade e Emoções (talentos e oportunidades criativas)-Elisabete Castelon Konkiewitz e Edward Benjamin Ziff – Neurociências em Debate

jan 06 2018

Trecho do livro-Espectro do Autismo, Criatividade e Emoções (talentos e oportunidades criativas)-Elisabete Castelon Konkiewitz e Edward Benjamin Ziff

O espectro do autismo: neurônios, cérebro e comportamento: Uma breve apresentação

A maioria de nós já vem ao mundo com um funcionamento cerebral que nos permite aprender espontaneamente e com facilidade a comunicação com outras pessoas e a assimilação das regras e convenções de comportamento do nosso grupo cultural. Esse aprendizado é fundamental para a nossa adaptação e a nossa aceitação pela sociedade. Habilidades como saber pedir ajuda, saber convidar para uma brincadeira ou passatempo conjunto, saber consolar e saber compartilhar suas experiências são o cimento que nos une e nos permite consolidar identidades culturais.

Justamente aí se encontram as características centrais e definidoras do EA, que corresponde a um transtorno neurobiológico do desenvolvimento, associado a prejuízos de comunicação e de socialização e a um comportamento repetitivo com interesses restritos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013).

O EA tem despertado interesse e preocupação geral devido à sua prevalência alta e rapidamente crescente. Nos Estados Unidos, estima-se que ele acometa uma a cada 68 crianças (CDC, 2014), o que corresponde a uma taxa 30% maior que as estimativas de 2008 (1 a cada 88 crianças), 60% maior que as estimativas de 2006 (1 a cada 110) e 120% maior que as de 2000 e 2002 (1 a cada 150). Não há ainda explicação científica para esse fenômeno alarmante, sendo que as mudanças nas formas de avaliação e nos critérios de diagnóstico não são suficientes para justificar um aumento dessa magnitude. Apesar da escassez de dados no Brasil, admite-se que em nosso país a prevalência também seja alta, possivelmente próxima à dos Estados Unidos. O EA acomete todas as etnias e é cerca de cinco vezes mais comum no sexo masculino.

Aspectos definidores e universais

Na realidade, o termo EA remete a um grupo bastante heterogêneo em seu perfil de habilidades, dificuldades e padrões de comportamento, abrangendo desde pessoas com retardo mental severo, incapazes de se comunicar verbalmente e de desenvolver qualquer grau de independência, até pessoas altamente inteligentes, profissionalmente bem-sucedidas e socialmente adaptadas. Entretanto, apesar da heterogeneidade, as dificuldades na comunicação e nas interações sociais, incluindo a menor responsividade social, a dificuldade em reconhecer as emoções e as intenções do outro, assim como um padrão de comportamentos restritos e repetitivos são aspectos definidores e universais do EA.

Não existe uma alteração cerebral específica, visível em exames, como ressonância magnética ou eletroencefalograma, que demarque o EA. Assim, o seu diagnóstico é puramente clínico, baseado no relato dos cuidadores e na observação do comportamento da criança. Eventualmente, diversos exames complementares são realizados para avaliar possíveis distúrbios concomitantes (SCHWARTZMAN, 2015).

Bebês e crianças no espectro: desenvolvimento neurológico e comportamento

Cada vez mais tem sido possível perceber sinais do EA em idades bastante precoces, até mesmo no primeiro ano de vida. Por exemplo, bebês autistas tendem a ter menos contato visual com a mãe e com outras pessoas, a gostar menos de toque, a atender menos a chamados e a recorrer menos à mãe para consolo ou segurança. Eles também mostram déficit em atividades de atenção compartilhada, em que duas ou mais pessoas compartilham o mesmo objeto de atenção externo a elas. Por exemplo, se estamos na calçada e vemos alguém olhando para cima, a nossa reação espontânea é a de também olhar para cima. Do mesmo modo, em brincadeiras ou jogos de alternância de vez (partida de xadrez, tênis de mesa, brincadeira de roda, jogos musicais com rima e movimento), as pessoas permanecem focadas em um mesmo elemento comum. Já bebês autistas não compartilham o conteúdo de atenção proposto pelo outro, por exemplo, não olham para onde a mãe aponta e não se envolvem em jogos que ela inicia.

No decorrer do desenvolvimento, crianças do EA frequentemente apresentam atraso na aquisição da linguagem. Além das dificuldades de formulação de frases, podem apresentar outras alterações, como ecolalia (repetição daquilo que se acaba de ouvir) ou dificuldade em referir a si mesmo como “eu”, podendo, ao invés disso, usar o próprio nome ou o pronome em terceira pessoa. Como visto no capítulo 3, sua prosódia (entonação e melodia com que se pronunciam as frases) pode ser monótona, artificial, cantada ou de qualquer outra forma que seja estranha e estereotipada, sem as variações esperadas que transmitem o colorido emocional do que falamos. Mesmo após adquirirem vocabulário e domínio gramatical razoáveis, sua linguagem pode ser formal demais, rígida e inexpressiva, com grande dificuldade em usar e entender figuras de linguagem, como gírias e metáforas.

Crianças do EA podem mostrar movimentos repetitivos e sem finalidade, como balanço dos braços, da cabeça ou do tronco. Frequentemente são fixadas em determinados rituais e rotinas que não podem ser alterados, por exemplo, a posição dos móveis ou dos objetos em um cômodo, a rota do ônibus de casa para a escola, o lugar onde se sentam na classe, peças de roupa que usam, alimentos específicos que ingerem, palavras que devem ser ditas em certos momentos, palavras que nunca podem ser pronunciadas, etc. Uma pequena mudança pode causar verdadeiras crises de agitação, ansiedade extrema e até comportamentos de autoinjúria. Como a criança não consegue se expressar adequadamente e mostrar o que lhe desagrada e como a mudança normalmente não é notada pelos demais, seu comportamento pode permanecer por longo tempo incompreendido e inacessível a tentativas de consolo.

Existe no EA um déficit de fantasia que se expressa pelo modo de brincar. Essas crianças exploram objetos, enfileirando-os, rodando-os, percutindo-os, etc., mas geralmente não os transformam em sua imaginação. O telefone não vira uma banana, sapatos não viram carrinho, folhas de árvore não viram comidinha. Seu interesse por histórias fictícias, como contos de fadas, cinema, teatro, desenhos animados, é baixo. Por vezes, pode até existir um fascínio por uma personagem, que é então imitada em suas vestes, seus hábitos, seus dizeres, etc., mas parece não haver um mergulho no universo emocional. Falta a Teoria da Mente, que é a compreensão dos sentimentos, das crenças, intenções e motivações do outro e o entendimento deles como separados do seu próprio estado interior. Por exemplo, diante da cena de um filme, em que alguém sofre por acreditar em uma mentira, temos a capacidade de identificar e de entender a causa do sofrimento da personagem, tendo consciência, ao mesmo tempo, de que ela está sendo vítima de uma ilusão e de que o próprio filme também não corresponde à realidade. Apesar de saber da mentira dentro da trama e da irrealidade da história em si, somos capazes – e até sentimos grande prazer ao fazer isso – de nos colocar no estado emocional da personagem e até de sofrer com ela. Já uma pessoa do EA teria dificuldade em separar a verdade dos fatos na trama, que é compartilhada com o espectador, da mentira, que corresponde à crença da personagem.

Crianças do EA também não brincam de “faz-de-conta”, pois o “faz-de-conta” requer que se coloquem em determinados papéis e usem a Teoria da Mente para inferir quais seriam as reações e comportamentos adequados para cada papel. Além disso, é necessária a atenção compartilhada, pois as crianças, num pacto subentendido, compartilham uma mesma “mentira”. Tendo consciência de que todas estão apenas fingindo, elas são ao mesmo tempo atores, diretores e roteiristas e treinam assim diversas situações sociais.

Em suma, o conjunto de dificuldades em perceber seu entorno e em se expressar torna a socialização muito difícil e faz com que pessoas do EA – em sua maioria genuinamente bem-intencionadas, honestas, sinceras e muitas vezes inteligentes, amorosas e até divertidas – sejam isoladas e permaneçam sem a chance de se desenvolver plenamente e de oferecer ao mundo suas contribuições.

http://www.pulsoeditorial.com.br/espectro-do-autismo-criatividade-e-emocoes-talentos-e-oportunidades-criativas.html

Título: Espectro do Autismo, Criatividade e Emoções (talentos e oportunidades criativas)

Autor: Elisabete Castelon Konkiewitz Edward Benjamin Ziff

ISBN – 978-85-8298-028-6
R$ 120,00
135 páginas
Peso – 0,600
Idioma – português
Edição – primeira em outubro 2017

Elisabete Castelon Konkiewitz é médica graduada pela UNIFESP, em 1993, e doutora em Neurologia pela Technische Universität München – Alemanha, em 2002. Possui o título de especialista em Neurologia pela Academia Brasileira de Neurologia e o título de especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria. Desde 2008 atua como docente na Faculdade de Ciências da Saúde (Universidade Federal da Grande Dourados –UFGD), no cargo de professora associada. Contribuiu com diversos livros nas áreas de Neurociências, Aprendizagem e Educação, incluindo a obra Altas Habilidades/Superdotação, Inteligência e Criatividade: Uma Visão Multidisciplinar , que recebeu o prêmio Jabuti na categoria Educação em 2015. Em 2017 publicou o livro Espectro do Autismo, Criatividade e Emoções-talentos e oportunidades criativas.
Elisabete Castelon Konkiewitz faz parte do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da UFGD, pesquisando os efeitos cognitivos e neuropsiquiátricos da infecção pelo HIV. Dedica-se à divulgação médica e científica em seu blog Neurociências em Debate e através de vídeos de orientação sobre diversos temas da Neurologia e da Psiquiatria no seu canal no youtube.

 

Edward Ziff formou-se em Química pela Columbia University, em Nova York,
em 1963 e concluiu o doutorado em Bioquímica pela Princeton University, em 1969. Como aluno de pós-doutorado sob orientação de Fred Sanger (laureado duas vezes com o prêmio Nobel de Química), conduziu em Cambridge estudos pioneiros sobre o sequenciamento de genoma. Edward Ziff trabalhou nas faculdades do Imperial Cancer Research Fund, em Londres, e na Rockfeller University, em Nova York. Desde 1982 é professor de Bioquímica e Farmacologia Molecular e de Neurociência na Faculdade de Medicina da New York University,
tendo sido pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes. Atualmente, Edward  Ziff pesquisa na área da neurobiologia molecular e atua na UFGD como pesquisador visitante
em um projeto de investigação dos efeitos do vírus HIV sobre o cérebro. O autor vive em
Nova York, escreve artigos para o New York Review of Books, é coautor de um livro popular
sobre DNA, além de ser um praticante amador de fotografia, cinema e pintura.

 

Link permanente para este artigo: http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=4064

2 comentários

  1. |O artigo é bastante esclarecedor!

  2. Fantástico! Um livro essencial para mudar o ponto de vista daqueles que não entendem nada sobre o autismo. Ótimo artigo!!

Deixe uma resposta

Seu e-mail não será publicado.