jul 07 2018

Modelos animais de estresse social-por Ana Cláudia Piccinelli.

Resenha do artigo-VASCONCELOS, Maílton; STEIN, Dirson Jõao; DE ALMEIDA e Rosa Maria. Social defeat protocol and relevant biomarkers, implications for stress response physiology, drug abuse, mood disorder and individual stress vulnerability: a systematic review of the last decade. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, v.37, n. 2, p. 61-66, 2015.

 

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 31,7% dos anos de incapacidade de uma pessoa devem ser relacionados a condições neuropsiquiátricas, sendo as cinco principais a depressão unipolar (11,5%), abuso de álcool (3,3%), esquizofrenia (2,8%), depressão bipolar (2,4%) e demência (1,6%). Apesar de não considerada uma condição neuropsiquiátrica, o suicídio causa por ano cerca de 800.000 mortes, um número preocupante. Além disso, alguns problemas de saúde devem ser considerados como contribuintes dos desenvolvimentos de problemas neuropsiquiátricos, como os problemas coronários, derrame, diabetes, HIV/AIDS e sintomas somáticos inexplicáveis.

Os modelos animais de estresse social têm contribuído para a busca de informações sobre os estressores ambientais que levam ao desenvolvimento das doenças psiquiátricas. O protocolo de derrota social (DS) em roedores é comumente utilizado e é possível medir o número de atos salientes, posturas e exibições e determina se o animal pode ser considerado dominante ou derrotado. Tal resposta é considerada extremamente estressante e leva a adaptações fisiológicas e comportamentais frente ao estresse. Estudos durante anos têm demonstrado que as respostas neuroendócrinas aos desafios sociais começam com a ativação do eixo simpático-adrenal-medular (SAM), seguido da estimulação do eixo hipotálamo-pituítario-adrenal (HPA) responsáveis por estímulos do estresse, que ativam também o metabolismo energético e a resposta imune (Keeney et al., 2001).

 

Os autores apontam como de extrema importância estudos que determinem a associação entre o estresse social com as respostas fisiológicas e os substratos neurais envolvidos. Sabe-se que o estabelecimento do comportamento ocorre inicialmente devido a uma exposição ao estresse social e, em caso intenso e crônico de exposição, a sensibilização comportamental deteriora e o prejuízo comportamental aparece. É pouco esclarecido ainda como as mudanças moleculares no sistema nervoso central (SNC) ativam e sustentam as mudanças comportamentais e psicológicas, e por isso, o objetivo desta revisão sistemática foi fornecer uma visão geral do protocolo DS e dos biomarcadores envolvidos nos últimos 10 anos de pesquisa (Fuchs e Flügge, 2002) .

Para tanto, Vasconcelos e colaboradores selecionaram estudos sobre biomarcadores induzidos pelo protocolo DS publicados entre 2002 e 2013 usando os seguintes termos de busca: derrota social, neurotrofinas, marcadores neuroinflamatórios e fatores de transcrição. Foram selecionados 38 estudos para análise. Estudos sobre as bases moleculares da resposta ao estresse reforçam a hipótese de que diferentes exposições ao estresse resultam em comportamentos diferentes, como uma forma de resposta adaptativa específica. Reações cerebrais importantes ao estresse, na forma de plasticidade neural, tem como biomarcador o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e outros mecanismos de resposta ao estresse como o eixo HPA, podendo desempenhar um importante papel nas respostas aos marcadores imunológicos, como a via envolvendo a amígdala (Padgett e Glaser, 2003).

social defeat model (modelo de derrota social)

 

Em sua conclusão os autores apontam que a maioria dos resultados encontrados fornecem contraditoriedade nas informações e que deveriam se melhor analisadas e discutidas. Tais problemas estariam ligados a complexidade dos efeitos induzidos pelo estresse social e dependem das características do estressor, como duração, intensidade e da amostra biológica, que pode sofrer problemas de qualidade dependendo da cobaia e modo de coleta. Vários pontos devem ser analisados também quanto aos dados fornecidos pelo protocolo DS, pois cada laboratório pode ter sua própria versão de procedimentos e fases do protocolo e estas discrepâncias devem ser avaliados em conformidade com o modelo animal utilizado e as condições a serem alcançados.

A exposição ao modelo DS ativa circuitos corticais e límbicos, áreas que estão subjacentes ao tratamento de estresse emocional e de recompensa, o que reforça o papel dos protocolos em estudos de comportamento de dependência. A curta duração da ativação induz uma curta adaptação importante para a compreensão da resposta fisiológica e comportamental ao stress. Progressivamente, os aumentos de duração ou de reincidência ao estresse induzem adaptações transitórias ou de longo prazo, conhecidas como neuroadaptações, e alterações nos percursos neuronais envolvidos com o estresse.

Exposições contínuas ao estresse induzem consequências duradouras, como disfunções e desenvolvimento de estados de desordens afetivas. O modelo DS pode ser um método relevante para estudar as respostas ao estresse e ao desenvolvimento de comportamentos de dependência. Ele também pode ser usado como um modelo de ansiedade e depressão clínica para o desenvolvimento de tratamentos terapêuticos e farmacológicos.

 

Ana Cláudia Piccinelli-Possui graduação em Farmácia pelo Centro Universitário da Grande Dourados (2009) e mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal da Grande Dourados (2014) doutora pela Universidade Federal da Grande Dourados. Tem experiência na área de Farmacologia e Toxicologia de Produtos naturais, atuando nos seguintes temas: inflamação, neuroinflamação, dor, dor neuropática e depressão.

 

 

Referências

Fuchs  E,  Flügge  G.  Social  stress  in  tree  shrews:  effects  on physiology,  brain  function,  and  behavior  of  subordinate individuals. Pharmacol Biochem Behav.;73:247-58, 2002.

Keeney  AJ,  Hogg  S,  Marsden  CA.  Alterations  in  core  body temperature,  locomotor  activity,  and  corticosterone  following acute and repeated social defeat of male NMRI mice. Physiol Behav. 74:177-84, 2001.

Padgett  DA,  Glaser  R.  How  stress  influences  the  immune  response. Trends Immunol.;24:444-8, 2003.

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