Capítulo 9-Inteligência e criatividade dentro do espectro autista, por Elisabete Castelon Konkiewitz.

Trechos do Capítulo do livro- Superdotação-processos criativos, afetivos e desenvolvimento de potenciais. Ângela Rodrigues Virgolim (Org.). Ed. Juruá. 2018

Introdução

O espectro autista (EA) corresponde a um transtorno neurobio-lógico do desenvolvimento que se associa a prejuízos de comunicação, de socialização e a um comportamento repetitivo com interesses restritos (American Psychiatry Association, 2013). Atualmente este transtorno tem se destacado principalmente pela sua alta prevalência: nos Estados Uni-dos uma a cada 68 crianças na idade de oito anos foi diagnosticada com EA (CDC, 2014). Esta taxa é 30% maior que as estimativas de 2008 (1 a cada 88 crianças), 60% maior que as estimativas de 2006 (1 a cada 110) e 120% maior que as de 2000 e 2002 (1 a cada 150). Não há ainda explica-ção plausível para este fenômeno, sendo que as mudanças nas formas de avaliação e nos critérios diagnósticos não são suficientes para justificar um aumento desta magnitude. Apesar da escassez de dados no Brasil, admite-se que no nosso país a prevalência também seja alta, possivelmen-te próxima à dos Estados Unidos.
A frequência elevada e nitidamente em ascensão já seria sufici-ente para justificar a importância de abordar este tema num livro sobre inteligência, criatividade e altas habilidades, mas, além disso, o EA é por si só fascinante em suas peculiaridades, em sua forma de perceber e de interagir com o mundo. O seu estudo amplia ideias preconcebidas de um comportamento humano padrão, de uma inteligência padrão e de uma criatividade padrão e dá provas de que, de fato, há diversos caminhos cognitivos, afetivos e neurais que não apenas revelam deficiências, mas também vantagens e potencialidades para gerar grandes e belas contribui-ções ao nosso mundo.
Na realidade, o EA representa um amplo leque com diversas formas de manifestação e de severidade, havendo crianças que nunca aprenderão a falar e outras que levarão como adultas uma vida normal. Tipicamente pessoas do EA são vistas como pouco criativas, uma vez que a criatividade é relacionada à extroversão, busca por novidade, abertura ao diferente, percepção global e integrativa, menos voltada para detalhes, enquanto que as pessoas do EA são introvertidas, resistentes a mudanças, apegadas à mesmice e tendem a perceber mais os detalhes e menos o todo. Por outro lado, é fato comprovado que muitos autistas são criativos e até mesmo geniais. Este paradoxo é um convite para revisar a compreensão atual do EA e da própria criatividade. Por quais processos mentais uma pessoa do EA chega a aquisições criativas? Quais seriam os fatores positivos que contrabalançam os seus déficits: traços de personalidade? Influências do meio? Ou poderiam os próprios traços do autismo propiciar a criatividade?…..

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Criatividade no espectro autista
A criatividade e o EA guardam uma relação controversa e ainda pouco compreendida. Como visto no tópico acima, o EA é um transtorno do neurodesenvolvimento associado a diversas dificuldades de compor-tamento e de adaptação social, porém cada vez mais ganha voz a ideia de que as mesmas diferenças de funcionamento, que causam as dificuldades destas pessoas, também são as bases de muitos dos seus surpreendentes talentos.
À primeira vista, grande parte dos estudos indica limitação da criatividade no EA, com redução da flexibilidade cognitiva, da fluência imaginativa e da originalidade (Craig, 1999). Certamente diversos traços deste grupo se opõem às características de personalidade associadas à criatividade: enquanto traços pró-criativos são flexibilidade, busca por novidade, integração de partes desconexas em um conjunto, extroversão, sociabilidade e empatia, as pessoas do EA são inflexíveis, apegadas à mesmice e à repetição, focadas em detalhes, mostram dificuldades de interação social e baixa responsividade emocional. Ademais, do ponto de vista neurobiológico, observa-se que a empatia e a Teoria da Mente (pre-judicadas no EA) compartilham os mesmos circuitos neurais que o pro-cesso criativo, ou seja, também se associam à ativação do DMN, o que indiretamente faz supor que a criatividade, por depender da mesma base neuroestrutural, também seja prejudicada no EA. Além disso, há indícios de que, de fato, o DMN é hipoativo neste grupo (Kennedy, 2006). O pre-juízo das funções executivas no EA, comprovado em diversos estudos, é outro fator que provavelmente se antepõe ao desempenho criativo….

O texto integral se encontra como capítulo 9 do livro Superdotação-processos criativos, afetivos e desenvolvimento de potenciais. Ângela Rodrigues Virgolim (Org.). Ed. Juruá. 2018

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