Altas habilidades/superdotação, motivação e desempenho-por Gustavo Wolff Cardoso.

Resenha do texto — “O.k., a prática traz a perfeição, mas o que sustenta a prática? Aspectos motivacionais e emocionais da aprendizagem expert de uma perspectiva psicanalítica —  Alfonso Galvão e Anna Carolina Ribeiro. Capítulo 12 do Livro Altas Habilidades / Superdotação, Inteligência e Criatividade – Uma Visão Multidisciplinar – Elisabete Konkiewitz e Angela Virgolim (Org.). São Paulo, 2014. Papirus Editora.

Afonso Galvão e Anna Carolina Ribeiro exploram qual seria o componente responsável por um indivíduo se consolidar como um expert dentro de uma área de domínio e atuação ao longo dos anos. De início, os autores trazem a construção do conhecimento pelo indivíduo sob a perspectiva psicanalítica: a busca, aquisição, ansiedade, caos, ordem, unificação, autonomia, dependência, desintegração.
Para eles, é necessário um estado de motivação frente à busca do conhecimento para que o indivíduo se mantenha em contínua atuação em sua área, cujo fim é a expertise. É o caso, por exemplo, de músicos renomados, escritores clássicos, engenheiros e arquitetos conhecidos mundialmente, médicos especialistas, campeões mundiais de xadrez, esportistas olímpicos o fazem.

A grande discussão do capítulo se constrói a partir de então. Se para se tornar um expert em uma área são necessárias uma grande quantidade de anos de prática — um grande somatório de erros e acertos, frustrações, ansiedade, angústia  —, existiria então alguma forma de motivação que o mantivesse — vou usar agora aqui o termo “seduzido”, e mais para frente, os leitores compreenderão —, que o mantivesse portanto, “seduzido” por todos esses anos, a continuar buscando a expertise.

Os autores consideram expert um indivíduo consistentemente capaz de exibir performance superior em uma determinada área, adquirida por meio de prática ou estudo individual deliberado. A expertise não se refere a um alto conhecimento geral sobre todas as áreas, mas a um domínio específico, fruto de dedicação intensa e continuada durante vários anos a essa área singular; para tanto, o expert, esforça-se para tornar-se um expert; posto pelas palavras dos próprios autores.

O indivíduo expert  e seu objeto de conhecimento estariam envolvidos em algum tipo de relação especial; somente assim poderia ser possível a aquisição da habilidade de alto nível. Razão pela qual, Alfonso Galvão e Anna Carolina Ribeiro, justificam ser necessário considerar as particularidades de cada sujeito para o exercício da performance superior. É neste ponto que o estudo da expertise passa a ser uma investigação do expert desde seus primeiros estágios do desenvolvimento; características individuais são salientadas, vínculos são apontados e toda a forma como a estrutura subjetiva se organizou é delineada.

Sob a perspectiva psicanalítica, dentro do contexto do desenvolvimento da subjetividade do expert, ocorre uma ligação com êxito desse com seu objeto do conhecimento. O expert consegue se relacionar significativamente bem com a aprendizagem a longo prazo, mantendo sua pulsão de saber ativa por muitos anos.

Um dos momentos mais interessantes do capítulo, dentro da explicação psicanalítica de como a relação de entre o objeto de conhecimento e o expert acabam mantendo uma relação tão próxima e íntima está nesta passagem:

“ (…) o vínculo do aprendiz de expert com o objeto de expertise torna-se progressivamente um vínculo amoroso, em que o objeto parece ter uma personalidade própria, como uma pessoa. O objeto de expertise passa, então, a se confundir com a própria trajetória de vida do expert. (…) à medida que ele se aprofunda, torna o aprendiz cada vez mais autorregulado e liberto da necessidade de estímulos e/ou pressões externas para desenvolver processos de aprendizagem de alto nível. (…) O objeto de aprendizagem torna-se uma marca impressa no inconsciente do aprendiz, capaz de proporcionar os movimentos de tensão e distensão típicos do movimento primário da pulsão e que refletem a base mais fundamental da vida. Trata-se da pulsão epistemofílica. Aprender torna-se um fim em si mesmo.”   

pág. 316

Na sequência, os autores se aprofundam no entendimento da motivação. Para eles, motivação é o que mantém o sujeito constantemente atuando em determinado contexto, sendo possível inferir que motivação e desejo têm a mesma sustentação inconsciente. Concluem então que o núcleo da vinculação entre o expert e o objeto de expertise está no desejo organizado subjetivamente pelo sujeito.

A construction worker looks up at One World Trade Center in New York City, the central skyscraper under construction at Ground Zero, a year before its 2013 completion.

Parte-se do ponto que a realização de desejos mostra uma verdade do sujeito com base numa determinação inconsciente.  Essa realização dá sentido a uma realidade psíquica que acaba por revelar a característica desejante do sujeito. Dessa forma, os autores colocam que a conquista da expertise revela-se como um desejo que participa da verdade do inconsciente do expert , dando-lhe um sentido, ainda que inconsciente.

É neste ponto que os autores argumentam que seria totalmente descabido dizer que a subjetividade do expert, mesmo quando esse é um pesquisador em ciências naturais, por exemplo, está fora da objetividade de suas pesquisa, em razão da sua própria escolha do objeto ou do objetivo que elegeu para estudar. Os dois autores enfatizam ser exatamente o contrário: seria justamente a constituição subjetiva do objeto de expertise a responsável por conduzir o movimento do expert em busca constante de conhecimento. Em contrapartida, os outros sujeitos, por razões igualmente enigmáticas, dirigem-se a outros objetos. A realização do desejo implica uma fantasia inconsciente. O expert parece estar sempre em busca de uma satisfação pulsional.

A corrida desenfreada pelo conhecimento se baseia no “não saber” inicial do indivíduo, estimulada pela linguagem oferecida pelo outro. O expert, os autores inferem, recebeu de seus pais ricas formas de linguagem, que o inseriram nesse campo de desejo, oferecendo-lhe liberdade de pensamento para deixá-lo aprender, raciocinar e criticar. O expert absorveu, em suma, o devido investimento dos pais diante de suas curiosidades infantis acerca dos objetos do conhecimento, assim como incentivo à permanência no objeto de estudo. Isso porque, escrevem, Afonso Galvão e Anna Carolina Ribeiro, quando se está livre para fantasiar, é possível desenvolver o potencial criativo e criatividade sobre o mundo e sobre as coisas. O expert será aquele que sempre busca uma resposta satisfatória para suas teorias.

A curiosidade com que a criança explora o mundo virá associada a grande carga de prazer, frustração, ansiedade; percebe-se que o expert pode ser aquele que mescla prazer e ansiedade ao longo do desenrolar da aquisição do seu domínio. Ansiedade, explicam os autores, pois, o expert está sempre atrás do conhecimento, cujo processo de estudo deliberado de longo prazo pode ser desprazeroso e desestimulante. “Prazer-desprazer”, “tensão-distensão”: a base da circulação da energia pulsional.

A busca do expert pelo prazer absoluto, vinculada ao controle definitivo do objeto de expertise, ao domínio total do objeto pelo conhecimento, é da ordem do impossível. Trata-se, os autores colocam, de um espaço de falta que nunca será preenchido. Haverá sempre uma distância entre a satisfação almejada e a alcançada, sendo exatamente esse gap que marcará o sujeito em sua eterna procura por um suposto objeto que poderá completá-lo. O expert está sempre a procura de uma satisfação que nunca o preencherá completamente, mas que o estimula a continuar tentando ativamente, tal como no mito de Sifísio. A fantasia suprema que o move a tentar, a viver o quase conseguir colocar a pedra no topo da montanha como a permanência de sua condição. Entre expert e o objeto de expertise sempre existirá um jogo de sedução que o motivará e o fará ser quem o é.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁICA

VIRGOLIM, A. M. R.; KONKIEWITZ. Altas Habilidades/Supertodação, Inteligência e Criatividade. São Paulo:Papirus Editora, 2014.

Agradecimentos a:  Alexandre Salvatore Pipino — Médico pela Escola de Medicina da         Universidade Estadual de Londrina (UEL) pela ajuda na revisão de texto.

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