Transtorno do pânico- por Elisabete Castelon Konkiewitz

De repente, surge uma sensação horrível. A garganta se tranca, como se o ar não pudesse mais ser inspirado, o coração dispara, as mãos ficam geladas, a cabeça não consegue pensar. Algo muito sério e ameaçador está acontecendo. Tudo é desespero e desorientação.

Após eternos minutos, talvez até meia-hora, a sensação vai pouco a pouco se esvaindo, como uma tempestade se acalmando. A respiração vai ficando mais tranquila, a mente mais clara e o medo de morrer se reduzindo. Contudo a experiência não pode ser esquecida e restam muitas questões: Qual a razão disso? Como evitar? Quando irá ocorrer novamente? Foi o início de um infarto, ou um AVC? Que médico devo consultar?

Assim é o drama de muitos pacientes que me procuram com o transtorno do pânico. Trata-se de um problema psiquiátrico, no qual o cérebro emite para o corpo um “alarme falso”, como se houvesse uma ameaça iminente, sem que nada de fato esteja acontecendo. Áreas cerebrais associadas ao processamento do medo comandam o sistema nervoso autônomo que por sua vez controla a pressão arterial, os batimentos cardíacos, a frequência respiratória, etc. Nosso corpo é geneticamente preparado para acionar circuitos e sistemas neuroendócrinos que nos permitem escapar do perigo. Por exemplo, na pré-história uma sombra mal definida por trás de uma árvore poderia ser um predador fatal e foi preciso um cérebro capaz de se aperceber imediatamente desse risco e tomar as decisões de enfrentamento, que incluem ativar no corpo o “programa de luta ou fuga”.

Acontece que os tempos mudaram, hoje as nossas ameaças são de outra natureza, mas o nosso cérebro continua o mesmo. A quantidade de estímulos e informações a serem processadas aumentou enormemente. A alta competitividade social, o desemprego, a pressão para consumir e obter continuamente, a necessidade de se adaptar a arranjos cada mais “flexíveis” (mudanças de cidade com perda de vínculos sociais e familiares, mudanças de rotina, imprevisibilidade, moradias inóspitas, horários irregulares), o risco constante de a qualquer momento ficar de fora, marginalizado pelo sistema— tudo isso são mensagens subliminares de ameaça para o nosso sistema nervoso, que geram insegurança e medo. Aos poucos, os recursos biológicos vão se esgotando e um quadro de depressão e de ansiedade pode se instalar. Na maioria das vezes, as pessoas com o transtorno do pânico têm também sintomas de depressão, ainda que discretos.

É fato que existe uma predisposição genética para o desenvolvimento do transtorno do pânico, mas ele também resulta de fatores psicossociais típicos dos nossos tempos. As crises não são em si perigosas, ou seja, não desencadeiam parada cardíaca, infarto, ou morte súbita, mas são experiências muito angustiantes, que tendem a se repetir.

Não há exames específicos que detectem o transtorno do pânico, assim o diagnóstico se baseia na avaliação pelo psiquiatra. O tratamento é realizado com medicação e com medidas psicoterápicas, que envolvem entender que a crise de pânico é um alarme falso, aprender a se acalmar diante dela e repensar os fatores de vida que originaram essa situação. Na verdade, a crise de pânico é um alarme falso, mas que avisa sobre algo mais profundo e que realmente está errado nas nossas vidas.

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