Você precisa mapear o seu cérebro!- por Elisabete Castelon Konkiewitz

O cérebro governa todo o corpo. De fato, é nesse órgão que se iniciam os comandos para tudo o que fazemos e percebemos, desde as funções mais básicas para a sobrevivência, como respiração, batimentos cardíacos, digestão, até as experiências mais complexas, como os sonhos, o raciocínio matemático, a paixão, o ciúmes, o medo e as inspirações criativas. Não há nada na vivência humana que não saia, ou não chegue até ele. A consciência que temos de nós mesmos e do nosso ambiente é apenas uma mínima fração do nosso processamento mental. Enquanto isso, a nossa mente vai trabalhando, elaborando e gravando os mais diversos conteúdos, que nos permanecem despercebidos.

Mas como pode ocorrer este comando à distância? Como são transmitidas as informações? Como o cérebro sabe o que se passa nos meus pulmões, no meu estômago, ou o sabor da sobremesa que acabei de provar? Como o cérebro dita ordens para as minhas pernas e braços? Isso tudo é possível porque o cérebro está conectado a todas as partes do corpo através de nervos, que funcionam como fios elétricos que conduzem impulsos de ida e de volta. Dentro do cérebro, as coisas ficam muito mais complicadas, pois aqui os “fios” formam emaranhados que conectam os neurônios (células cerebrais) entre si, de forma que um único neurônio pode se conectar a até 10.000 outros!

Para a ciência e a medicina compreender tudo isso sempre foi um grande desafio, principalmente porque o cérebro não pode ser visto, nem palpado, nem escutado. Durante séculos, a única possibilidade de estudo era abrir o crânio e retirá-lo em pessoas já falecidas. Entretanto, um cérebro morto já não revela o seu funcionamento. Foi apenas no início século XX que veio a chance revolucionária de finalmente acessar o que ocorre nesse órgão misterioso. O eletroencefalograma é uma técnica que mede a atividade cerebral em diferentes regiões. A vantagem é que assim o cérebro é observado em detalhes enquanto está trabalhando, sem que haja cortes, anestesia, radiação, ou qualquer coisa que coloque a pessoa em risco. Além disso, o exame tem um custo acessível, é silencioso e não envolve câmaras fechadas (não há problema em pessoas com claustrofobia).

Atualmente com a informatização, o eletroencefalograma evoluiu com o mapeamento cerebral. Aqui a atividade elétrica é computada e analisada estatisticamente, resultando em gráficos e mapas que reproduzem o estado de diferentes áreas.

Quem precisa fazer o eletroencefalograma com mapeamento cerebral? Este exame está indicado em todos os casos de desmaio, ou alteração de consciência/comportamento, pois pode revelar situações de epilepsia. Em pessoas com perda de memória, ou de concentração, o mapeamento pode evidenciar lentificação da atividade cerebral, ou lentificação de áreas específicas, ou mesmo padrões de descarga anormais que contribuem para o esclarecimento diagnóstico. Em pessoas que sofreram AVC, o mapeamento mostra alterações na área que sofreu pela falta de oxigênio, ou pelo sangramento e pode avaliar o risco de epilepsia. Naqueles que sofrem com dores de cabeça, o exame muitas vezes é normal, mas pode mostrar alterações que ajudam o médico a suspeitar de algo mais grave por trás das dores. Em unidades de terapia intensiva cada vez mais se estabelece a necessidade de monitoramento com eletroencefalograma, pois pode auxiliar na avaliação de pacientes em coma. Em crianças com prejuízo no desenvolvimento, o exame pode mostrar atividade epileptiforme, padrões de lentificação, ou mudanças mais sutis, como o aumento da razão teta/beta (ondas mais lentas, sobrepondo-se às ondas mais rápidas) na região fronto-central em crianças com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade.

Na realidade, é uma boa conduta realizar o eletroencefalograma com mapeamento cerebral em todas as pessoas em uso de medicamentos que atuam sobre o sistema nervoso central (calmantes, ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, etc.), pois muitos destes medicamentos, apesar de bastante seguros, mudam os padrões de descarga elétrica e reduzem o limiar para crises epilépticas.

Há várias outras indicações, inclusive grande uso do eletroencefalograma com mapeamento cerebral em pesquisa. Assim, um dia, quem sabe, ainda realizaremos o sonho de decifrar o que ocorre nos labirintos profundos da nossa mente.

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