“O processo” de Franz Kafka e as Neurociências: bases neurobiológicas do delírio- um esboço de ensaio-por Elisabete Castelon Konkiewitz

O processo  é um filme de 1993, com direção de David Jones (“Nunca te Vi, Sempre te Amei“) e roteiro de Harold Pinter (dramaturgo inglês, prêmio Nobel de literatura em 2005,célebre pelas peças teatrais-Traição, A festa de aniversário e Volta ao lar-).
A característica mais marcante do filme é a sua fidelidade ao romance homônimo de Franz Kafka, tanto em seus aspectos iconográficos, quanto em relação ao texto. As interpretações fantásticas de
Kyle MacLachlan e Anthony Hopkins despertam no espectador sentimentos próximos aos evocados pelo romance. O filme não acrescenta, não interpreta, não simboliza, não re-significa, mas apenas reproduz a narração. E Kafka escreve de forma ideal para o cinema. Suas palavras são a descrição de uma câmara: tecnicamente inquestionável, minuciosa, lenta, objetiva e separada do seu conteúdo.


O.I

O romance

A história de “O Processo” se inicia subitamente, quando o personagem principal, Josef K.,  é surpreendido pela manhã em seu quarto por dois homens desconhecidos. Ele então descobre que os mesmos são policiais, funcionários da Justiça, e que ele está preso. Os guardas, porém, não sabem e nem se sentem na obrigação de lhe informar quem o acusa, nem qual foi o seu delito. Eles apenas cumprem ordens e seu dever é o de informar-lhe sobre este novo fato e de vigiá-lo a partir de então.

Estranhamente, esta prisão não implica em nenhuma mudança dos aspectos ordinários e cotidianos da vida de Josef K. , ele pode continuar trabalhando no banco e seguindo seus demais afazeres. De início, basta saber que o processo foi iniciado. É como uma mudança ontológica: o ser, enquanto ser, não é mais o mesmo.

O texto não traz apresentações, ou explicações introdutórias. O leitor não é informado sobre a época, ou o local da trama, não conhece a biografia de Josef K. Não há nenhuma descrição sobre a sua personalidade, nenhum tipo de tentativa de análise psicológica. Sabe-se apenas que ele é um bancário de trinta anos, que mora em um quarto de pensão e que se encontra em fase de ascensão profissional. O restante é insinuado, ou inferido. Aos poucos.

Todo o romance centra-se nas tentativas da personagem em entender o motivo de sua acusação e de provar sua inocência. A atmosfera é de contínua bizarrice e perplexidade. Concatenações absurdas são explanadas com extremo rigor lógico e preocupação com o detalhe, muitas vezes num discurso prolixo e pedante. Cada novo encontro é uma nova revelação, em que uma nova personagem apresenta relações e fatos até então totalmente desconhecidos e que mudam a interpretação da realidade.

Apesar desses elementos, a atmosfera não é propriamente a de um sonho. Faltam as imprecisões, a nebulosidade, as condensações, as metáforas que compõem o universo onírico. Ao contrário, em “O Processo”, assim como em toda a obra de Kafka, os diálogos são longos, bem elaborados, revelando clareza de pensamento, concentração e crítica. Opticamente, a descrição lembra a de uma câmara de filmagem: tecnicamente inquestionável, minuciosa, lenta, fria e objetiva. Não se assemelha às visões de um sonho. E justamente esta estrutura racional confunde ainda mais o leitor, pois acentua o paradoxo entre a inverossimilhança do conteúdo e a exatidão e confiabilidade da forma com que é relatado.

A história é fragmentária, pois, embora haja uma sequência, os capítulos se apresentam como elementos separados, cada um encerrando uma trama em si mesmo. O fio condutor é a busca pertinaz de Josef K. em vencer a batalha contra o inimigo, que é todo o sistema da Justiça e seus inúmeros burocratas. Ele não é subordinado, ou resignado, mas, pelo contrário, mostra uma postura altiva, desafiadora e confiante. Ele procura compreender e se impor à realidade através de recursos lógicos, ou seja, seu comportamento tem coerência interna e coerência com os fatos. Contudo, os fatos e principalmente as relações entre as pessoas na complexa rede da Justiça obedecem a leis que ele- e apenas ele- não compreende e por isso suas atitudes são sempre erradas e pioram as suas chances de libertação. A cada capítulo, a cada novo encontro, ele se vê mais e mais preso no emaranhado desta teia.

O final é trágico e, na realidade, já anunciado no início do romance, quando Josef K se questiona porque os guardas, após lhe comunicarem seu aprisionamento, o deixam sozinho no quarto, apesar de saberem que ele, neste momento, poderia usar esta oportunidade para se suicidar. Este pensamento de suicídio, aparentemente desproporcional à gravidade da situação, já demonstra que Josef K, a bem da verdade, já sabe que não haverá salvação, que sua condenação é inexorável.

Kafka desenvolve uma técnica peculiar de narração, pois, ao mesmo tempo em que os fatos são contados em terceira pessoa, a perspectiva é em primeira pessoa, ou seja, subjetiva. Não se trata de um narrador onisciente, mas sim daquele que acompanha intimamente e tem acesso apenas à mente da personagem, ou figura refletora (Reflektorfigur). Na narrativa em primeira pessoa, o protagonista retrata a partir de uma perspectiva subjetiva, ele é apenas sujeito. Na narrativa em terceira pessoa, ele é objeto, mas nos textos kafkianos, ele é ambos. Esta técnica contribui para amplificar a atmosfera surreal do texto, pois, de fato, apenas se tem acesso à própria mente, ou seja, é absurda a situação de um narrador, que não é a personagem, poder penetrar sua consciência e seguir todas as suas reflexões e ao mesmo tempo manter-se distante. É como se um detector- uma máquina- tivesse sido implantada no cérebro da figura refletora e então emitisse continuamente um relato detalhado, preciso e imparcial dos seus processos internos. Talvez isto explique porque Josef K., embora mostre claramente sua indignação diante das circunstâncias apresentadas,  não nos comove. Seu sofrimento é, de algum modo, frio, o que causa no leitor um estranhamento ainda maior.  Percebe-se uma cisão entre a capacidade intelectual de apreender e conceber os elementos da realidade e a capacidade de senti-los e a eles reagir emocionalmente.

O poder paira sobre toda a história. Ele é a meta. Absoluto e imutável é, ao mesmo tempo, inalcançável e incognoscível. Josef K. não sabe quem o condena e qual é a sua culpa, mas esta inconsciência não o inocenta, não o redime, nem reduz o seu castigo. O poder é a moeda, o elo que rege as relações entre as personagens. As constelações de dominação assumem forma e intensidade tão grotescas, que culminam no cômico. Logo no início do romance, os guardas, após invadirem a privacidade de Josef K, adentrando sem permissão seu dormitório, obrigam-no a vestir-se em traje formal, pois iria ser apresentado ao inspetor, embora, como se percebe em seguida, este fosse um funcionário de nível inferior. Em outro capítulo, Josef K., ao seguir a direção de gritos que ouvira ao passar pelos corredores do banco, descobre em um quarto de despejo que os mesmos guardas que o declararam preso estavam sendo chicoteados por um carrasco, ou seja, um outro funcionário da Justiça revestido deste cargo. O advogado que assume a defesa de Josef K. faz questão de lhe demonstrar como pode abusar de um outro mandante, o qual ele humilha   e  ameaça. Por sua vez, o mandante adota uma atitude de medo e de servidão infantis, completando a teatralização de um ritual sado-masoquista. O próprio Josef K.  brinca e abusa de seu poder psicológico sobre Frau Grubach- a dona da pensão onde ele mora – oscilando entre atenção quase carinhosa e rispidez.

As personagens femininas também são apresentadas como peças deste jogo hermético, cujo objetivo é se aproximar e manter-se em conexão, ainda que distante, com o poder. Ocupando posições socialmente inferiores, elas, na realidade, manipulam sua sexualidade para angariar e manter algum grau de influência sobre homens poderosos. Atraídas por Josef K. , tentam seduzi-lo e prometem ajudá-lo com seus meios. Ele, por sua vez, embora também as deseje sexualmente, aproxima-se delas na intenção de instrumentalizá-las para a sua meta. Além disso, a posse destas mulheres é uma forma de subverter e compartilhar o poder, que é, em sua essência, masculino.

No último capítulo, Josef K é informado de que deve ciceronear um cliente italiano do banco, acompanhando-o até a Catedral. Ao chegar lá, porém, esta se encontra escura e vazia e o cliente não aparece. Quando já está indo embora, ouve a voz possante do padre, chamando-o de cima do púlpito pelo nome. Este se apresenta como capelão da prisão e diz que fez com que Josef K. viesse até lá, pois queria falar-lhe. Esta situação implica na existência de uma conspiração da qual até mesmo seus superiores no banco participam.

Antes de ir à Catedral, Josef K. conversa ao telefone com Leni_ sua amante  e criada de seu advogado_ e esta,  ao saber do seu encargo junto ao cliente estrangeiro, declara bruscamente: “Sie hetzen Dich”, que pode ser traduzido por “ Eles te atormentam”, ou “Eles te agitam”, comentário que também insinua que ela foi capaz de entender o significado verdadeiro, o motivo oculto da visita à Catedral. Deste modo, o último capítulo amplia e intensifica a certeza, embora absurda, de que, de fato, existe um sistema de elementos conectados e cooperantes, abrangendo as diversas esferas da vida de Josef K., incluindo a Justiça, a Igreja, o Banco, seu advogado e sua amante. Todos são cúmplices. Somente ele permanece alienado até o fim.

Parábola final

A parábola “Diante da Lei” é contada pelo padre a Josef K, enquanto os dois caminham a sós, lado a lado, pela Catedral escura. É apresentada como um texto das Escrituras da Lei, sendo permanente e imutável, o que claramente remete o leitor a textos sagrados. Nela, um homem do campo se dirige à Lei, mas tem sua entrada vedada por um guardião. De início, ainda tenta desobedecê-lo, mas, ao perceber isso, o guardião lhe diz: “Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”. Esta advertência basta para paralisar o homem para sempre e iniciar um processo inexorável e progressivo de desintegração da sua personalidade: Ele regride, tornando-se servil e infantilizado. Sujeita-se aos interrogatórios inúteis do guardião, tenta suborná-lo de todas as formas, humilha-se, implora e finalmente perde as forças, envelhece e morre. Antes da morte, porém, acontecem dois fatos: Ele, apesar de já praticamente cego, tem um vislumbre da luz que emana eternamente da Lei, o que alude a uma imagem religiosa, talvez uma promessa que não se cumpriu?

O segundo fato é um insight:

”Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. – ”Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: – ”Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.

Tanto a visão da luz como a revelação de que aquela porta era destinada a ele acontecem, quando já é tarde demais. Ao morrer, o homem do campo tem a confirmação de que ansiou toda a sua vida por algo, cuja existência é real e que, além disso, teria sido a sua missão, o seu chamado. É uma trágica ironia.

O padre anuncia a história como tratando do mesmo erro de interpretação do caráter da Justiça que Josef K comete. Pouco antes ele o havia criticado rudemente por procurar sempre a ajuda de outras pessoas na resolução do seu processo. Parece assim que, segundo o padre, Josef K. se engana sobre a Lei e sobre como chegar até ela, de modo que a parábola representaria todo o romance: um homem tenta penetrar, ou vencer  uma esfera superior, mas por não compreender a sua natureza, erra, esperando que outros lhe abram o caminho. Esta imagem, por sua vez, lembra um aforismo de Kafka:

“O verdadeiro caminho passa por uma corda que está esticada, não em cima, mas rente ao chão. Antes parece destinar-se a fazer tropeçar que a ser percorrida”.

Em seguida, o padre lhe apresenta diversas interpretações possíveis: alguns defendem que o guardião da porta que dava entrada à Lei teria cumprido seu dever corretamente e até mesmo teria mostrado laivos de compaixão para com o homem do campo, outros acreditam que o guardião estaria enganado em relação à natureza da Lei e talvez ele mesmo a temesse, ainda outros propõem que o guardião, na realidade, fosse subordinado ao homem do campo. Todas estas interpretações são defendidas com o rigor lógico característico da argumentação kafkiana e mostram coerência, no entanto contradizem-se umas às outras. Deste modo, o significado da Escritura permanece impenetrável pelo entendimento. Talvez esta seja uma analogia à própria vida e à situação ontológica do homem. Josef K. também sucumbe ao tentar deduzir intelectualmente e enquadrar as circunstâncias da sua realidade em categorias racionais.

Diante da Lei
Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. – ”É possível” – diz o guarda. – ”Mas não agora!”. O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao
ver tal, o guarda ri-se e diz. – ”Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.
O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença
para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar. O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: – ”Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste”.
Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guarda durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda a percebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.
Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. – ”Que queres tu saber ainda?”, pergunta o guarda. – ”És insaciável”.
– ”Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. – ”Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: – ”Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.  
Parábola que faz parte do livro “O Processo”
http://www.esquerda.net/media/Diante_da_lei.pdf

Por outro lado, é digno de nota que, enquanto o romance “O processo”, como dito acima, é uma publicação póstuma de Max Brod, a parábola foi publicada pelo próprio Kafka em 1915 como um texto isolado e, fora do contexto do romance, ela pode ser apreciada sob uma luz totalmente diversa. Abrem-se inúmeras novas possibilidades de interpretação, sendo uma delas a de que o guardião e o homem do campo seriam a cisão de uma mesma pessoa (Pfeifer, 1970). Quando um morre, o outro vai embora, como se também deixasse de existir. Além disso, a duplicação do eu é uma constelação que acompanha a obra e provavelmente a vivência de Franz Kafka, por exemplo, a duplicidade entre o médico e o cocheiro e entre o médico e o paciente no conto “O médico da aldeia”, ou o fantasma que visita o homem solitário no conto “Ser infeliz”, ou o pai e o filho, ou o filho e o amigo distante no conto “A condenação”. Um texto de 1920 parece revelador:

“Com uma prisão ele teria se resignado. Terminar como preso- isto seria um objetivo de vida. Mas era uma jaula. Indiferente, imperioso, assim como em sua casa, o ruído do mundo jorrava através das grades para dentro e para fora; o prisioneiro era, na verdade, livre, podia participar de tudo, nada do que acontecia do lado de fora lhe escapava, até mesmo abandonar a jaula ele poderia, já que as grades estavam a metros uma da outra; nem mesmo prisioneiro ele era.” (tradução livre da autora).

Aqui fica explícita a situação de que o aprisionamento está nele mesmo, pois, com efeito, poderia sair da jaula a qualquer momento. Não são as grades que o encerram e isto torna sua angústia e frustração consigo mesmo ainda maiores, pois o obrigam a perceber que ele é o impedimento. Se ao menos houvesse uma prisão objetiva, ele teria se resignado. Necessariamente existem dois, um que constrói o obstáculo e outro que está preso e tem consciência disso.

Em uma carta à sua noiva Felice Bauer de 19 de outubro de 1916, ele escreve:

“Você então me pertence, eu te tomei para mim; eu não posso acreditar que em algum conto de fadas tenha sido mais e mais desesperadamente combatido por uma mulher que por você em mim, desde o princípio e sempre recomeçando e talvez para sempre. Deste modo, você me pertence.” (tradução livre da autora).

Um ano depois, em 01 de outubro de 1917, ele lhe escreve, discorrendo sobre sua doença recém-diagnosticada:

“Que dois combatem em mim, você sabe. Que o melhor dos dois te pertence, disso é o que eu menos duvido, especialmente nos últimos dias…”

“Estes dois, que em mim lutam, ou melhor, de cuja batalha de mim apenas um resto martirizado ficou, são um Bom e um Mau; às vezes eles mudam estas máscaras, o que confunde ainda mais a batalha já confusa; mas finalmente eu podia, apesar dos recuos, até os últimos tempos ainda acreditar que o mais improvável aconteceria (o mais provável seria: eterna batalha), o que tornava o sentimento último algo radiante, que eu, deplorável e mísero pelos anos, finalmente poderia ter você”.

“…Quando o Mau, provavelmente ou talvez, não teria encontrado mais com suas próprias forças nada de decisivamente novo para sua defesa, esta nova lhe é oferecida pelo Bom.

A saber, secretamente eu não tomo esta doença por tuberculose, ou pelo menos, primeiramente não por uma tuberculose, mas sim pela minha falência geral. Eu acreditei que isso iria ainda mais longe, mas não foi. O sangue não provém dos pulmões e sim do golpe, ou de um golpe decisivo de um combatente.”  (tradução livre da autora).

O próprio Kafka contempla, analisa e apresenta esteticamente sua duplicidade, transformando-a em literatura. Além disso, é como se, ao descrever-se, ele mesmo se transformasse em um terceiro, um narrador que enxerga de fora os dois combatentes.

Josef K., ao ouvir a parábola, acredita que o guardião enganou o camponês, mas outra questão é por que este se resignou, ou melhor, ele não se resignou, mas esperou a permissão lhe ser dada por outrem. O medo, na imagem internalizada do guardião, o paralisou. E o medo é uma criação da própria mente.

“Só que existem, com certeza, possibilidades que de certo modo são grandes demais para serem aproveitadas; há coisas que não malogram em nada a não ser em si mesmas”.

Interpretações de Kafka

Os textos de Kafka não são simplesmente um desafio intelectual, um jogo labiríntico, um amontoado de sofismas, ou de fantasias surreais, mas são textos de dimensão trágica. Embora usando de todos os recursos para distanciar emocionalmente o leitor do protagonista e repelir naquele qualquer sentimento de compaixão, Kafka perfura e rasga o invólucro de certezas, de convicções e da própria consciência de si que o leitor acredita possuir. Kafka penetra nos cantos mal iluminados da mente e revela as inquietações mais íntimas e inerentes à condição existencial do homem.

Há inúmeras interpretações da obra de Kafka, mais que o suficiente para preencher centenas de bibliotecas. Alguns críticos, dentre eles, Max Brod_ seu amigo íntimo, que publicou seus textos póstumos, dentre eles o fragmento de romance O processo_, apresentam uma interpretação teológica. Kafka era judeu (em uma época em que o anti-semitismo na Europa ainda não era tabu, pois viveu antes do período nazista). Max Brod propõe que a obra kafkiana recebeu influência do filósofo Søren Kierkegaard e simboliza questões existenciais associadas à religião judaica, como a culpa, o pecado, o castigo, o bem e o mal e a mensagem divina.

Outros vêem em O Processo, além de uma ferrenha crítica social à burocratização, à alienação e ao encerramento do homem na virada do século XIX para o século XX, uma visão profética do nazismo, posto que neste também houve a destituição de direitos, a mudança radical e súbita das relações de poder, a não informação, a condenação sem delito e a incoerência, que, no entanto era lógica, meticulosa e perfeccionista.

Kafka também recebeu leituras psicanalíticas e, de fato, “Carta ao pai” é para todo bom freudiano um convite do tipo “Decifra-me, ou devoro-te”. Trata-se da carta que escreve ao seu pai e que, porém, nunca lhe entrega. Nela é realizado um acerto de contas sobre inúmeros episódios do passado remoto e recente. Kafka, que era advogado, escreve um texto de acusação, tendo o pai como réu. Os argumentos convencem o leitor de que um filho sensível foi castrado por um pai, ainda que talvez bem intencionado, na verdade imperioso e devorador, como no mito de Cronos.

Seguindo as palavras do padre a Josef K._ “Não dê importância excessiva às interpretações. A Escritura é imutável e as interpretações frequentemente não são mais que a expressão do desespero que os intérpretes sentem ante isso”_pode-se dizer que a obra de Kafka, assim como todo verdadeiro clássico, paira acima de todas as leituras que vem recebendo ao longo das décadas.  Ela fascina, perturba e instiga. Assim como Josef K, o leitor também fica preso na teia e cai na tentação de usar seus próprios recursos lógicos para atribuir ao enredo kafkiano significados que sejam coerentes com as suas próprias categorias e referenciais teóricos. E também sucumbe.

Usar a obra kafkiana como um instrumento para a compreensão de determinados conceitos e modelos de pensamento é um exercício intelectual possível. Ela generosamente nos permite isto, mas acreditar no contrário seria ingênuo. Nenhum sistema de categorias é capaz de encerrá-la, ou mesmo de explicá-la satisfatoriamente.

Por que então insistir nesta atividade interpretativa, uma vez que está fadada ao fracasso? Provavelmente porque os textos de Kafka, assim como outros clássicos, despertam esta necessidade em alguns leitores. A leitura causa um forte impacto emocional e oferece novas percepções intuitivas, sobre as quais é preciso refletir. E nesse processo intelectual e introspectivo o mais importante é o caminho.

O processo como narrativa delirante?

Apresento neste “esboço de ensaio” uma proposta de interpretação do romance O processo como narrativa de uma mente delirante. O objetivo não é aprimorar a compreensão da obra de Kafka, uma vez que esta já foi mais profundamente analisada por outros. Ao contrário, uso atrevidamente a obra para uma reflexão sobre o delírio e a fase inicial da esquizofrenia e para um diálogo entre literatura, psiquiatria e neurociências.

Delírio é uma crença não justificada pelas evidências disponíveis e que, no entanto, é inabalável e incorrigível, resistindo a revisões, argumentações ou provas do contrário, mesmo quando é absurda. Delírios podem aparecer em diversas doenças neuropsiquiátricas, como na esquizofrenia, no transtorno delirante, nas síndromes demenciais, na doença de Parkinson, etc. A temática do delírio varia, podendo ser de grandeza, de ciúmes, erótica, religiosa, somatoforme, dentre outras. A temática mais comum, porém, é a de perseguição, ou delírio paranoide.

Considerando que o romance “O processo” é narrado em terceira pessoa, mas assume a perspectiva subjetiva do protagonista, poderia ser questionado se os eventos realmente ocorreram conforme relatados, ou se não resultariam de uma interpretação paranóide da realidade. Por exemplo, o trecho abaixo, em que Josef K., durante o interrogatório preliminar, afronta o juiz de instrução publicamente, poderia ser o discurso de uma mente delirante.

“…não pode haver dúvidas, senhores, de que por trás das manifestações desta justiça, por trás da minha detenção, consequentemente para falar de mim, e do interrogatório de hoje, encontra-se uma grande organização em atividade. Uma organização que não apenas emprega guardas corruptos, inspetores e juízes de instrução imbecis, mas também tem ao seu dispor uma hierarquia judiciária de um nível elevado, aliás do mais elevado nível, com seu indispensável e numeroso séquito de empregados, funcionários, policiais e outros auxiliares, talvez até carrascos_e não estremeço ao pronunciar esta palavra. E qual o sentido dessa grande organização, senhores? Prender inocentes e mover-lhes processos sem razão…” (p. 48-49).

Com efeito, uma atmosfera de conspiração e de perseguição permeia toda a história. Por exemplo, já no primeiro episódio, quando Josef K. tem seu quarto adentrado por guardas, ele toma ciência de que estes vinham acompanhados por três funcionários subalternos do banco onde trabalhava. Além disso, estranhamente, Josef K. só é capaz de notar a presença dos mesmos após esta ser anunciada pelos guardas, apesar de os três já estarem no mesmo cômodo desde o início. Josef K. coincidentemente cruza com estes mesmos funcionários pela cidade, na manhã de domingo, quando se põe a caminho para o interrogatório preliminar. Ao chegar ao prédio do interrogatório, uma mulher desconhecida que lavava roupas e a quem ele não se apresentara, mostrou-lhe a sala à qual deveria se dirigir, dizendo-lhe: “Tenho que fechá-la; ninguém mais pode entrar depois do senhor”. Em uma tarde, Josef K. recebe a visita inesperada de um tio, o qual, apesar de viver na zona rural, já tinha sido informado sobre o processo. Sua filha havia lhe escrito uma carta, mencionando o fato que ouvira de um empregado do banco. O advogado de Josef K. também já sabia do seu processo antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente. Em outro episódio, K é surpreendido em sua sala por um industrial, cliente do banco, que entrara sem se anunciar. Este se aproxima e sem preâmbulos lhe pergunta: “O senhor tem um processo, não é?”. Na catedral, como já explicado acima, Josef K. descobre que o padre já o esperava e, com a cooperação dos funcionários do próprio banco, fez com que ele viesse ao seu encontro.

Pode-se dizer que se constrói ao longo do romance uma sequência de situações que sugerem e gradualmente consolidam a convicção de que há uma trama, um cerco que se fecha em torno do protagonista, que é o seu centro. Esta imagem é reforçada pelas repetidas advertências que recebe de diversas personagens, afirmando que ele se encontra em engano, erro, ou ilusão. Todo este cenário se enquadra nas descrições fenomenológicas do delírio, ou, mais especificamente, da fase inicial, ou prodrômica da esquizofrenia.

Criada pelo filósofo Edmund Husserl (1859-1938), a fenomenologia é a descrição metódica e rigorosa da experiência consciente e de como estruturas mentais gerais derivadas deste método descritivo podem ser afetadas em transtornos neuropsiquiátricos e em estados anormais de consciência (Mishara, 2010a). Nesta abordagem, o psiquiatra alemão Klaus Conrad desenvolveu um modelo que divide a experiência esquizofrênica em estágios. Antecedendo a instalação do delírio, haveria um estado prodrômico de ânimo delirante (‘‘delusional mood’’), caracterizado por uma sensação de apreensão opressiva, de expectativa, de “haver algo no ar”, sem que o paciente conseguisse explicar o que mudou. Ele poderia sentir desconfiança, medo, inibição, culpa, sensação de estar separado dos outros, ou frequentemente uma combinação destes sentimentos. A atenção se dirigiria a estímulos irrelevantes, a pensamentos e a conexões imprevisíveis e perturbadoras. Aspectos cotidianos, normalmente despercebidos (perceptual background) adquiririam significado próprio (Conrad, 1992). Num segundo estágio, ocorreria de forma súbita a “revelação”, que seria a transição do ânimo delirante para a crença delirante. Neste momento, o paciente perderia a capacidade de se distanciar da sua experiência, ou seja, de mudar de perspectiva, de enxergar a situação com outro olhar. O paciente deslocaria o ponto de referência da realidade para si mesmo, ou seja, passaria a interpretar todos os acontecimentos como girando em torno dele, ou guardando relação com ele (para revisão: Mishara, 2010b).

Além do enredo, a descrição física dos ambientes no romance também alude às alterações perceptivas que podem acompanhar o ânimo delirante. O termo psiquiátrico desrealização é definido como uma alteração na percepção subjetiva do paciente, que faz com que o mundo como lhe pareça irreal (American Psychiatric Association, 1994). É como se o mundo fosse um palco bidimensional, ou plano, ou de cores alteradas. Coisas podem parecer menores, ou maiores, mais próximas, ou mais distantes, nebulosas, em câmera lenta ou como em um sonho. No romance, os prédios da Justiça são labirínticos_repetidas vezes Josef K. se vê perdido e tendo que solicitar ajuda para deles conseguir sair_, seus corredores são longos, as escadas estreitas e mal iluminadas, o ar sempre denso e sufocante. As proporções são grotescas_em uma das salas, as pessoas em pé precisam ficar curvadas, pois o teto é baixo demais. O ateliê do pintor Titorelli recebe descrição semelhante. Da mesma forma, a Catedral é escura e lá Josef K. também não consegue sozinho encontrar a saída. Até mesmo o banco, que parece ser o único ambiente amplo e arejado da trama, tem um quarto de despejo desconhecido, escuro e de teto rebaixado. A claustrofobia, a asfixia e a desorientação espacial seriam assim a representação corporificada da angústia e da perplexidade do protagonista diante dos acontecimentos ao seu redor.

O ar opressivo assume um aspecto surreal e caracteriza a Justiça e seus membros como seres de outra realidade. Por exemplo, quando Josef K tem uma indisposição súbita no prédio da Justiça, uma moça funcionária de uma das suas repartições lhe explica que isto ocorre com freqüência com pessoas não acostumadas àquele ambiente. Por outro lado, quando a moça o acompanha até a saída, ele percebe que ela, por pertencer ao mundo da Justiça, não tolera o ar livre que vinha de fora,.

Como se isto não bastasse, os ambientes materializam em sua arquitetura a sugestão de perseguição e ameaça. Por exemplo, o assombro de Josef K., ao sair do ateliê do pintor Titorelli por um caminho diferente daquele pelo qual viera: 

“…olhando pela porta aberta,teve um sobressalto e recuou:

_Mas o que é aí?_perguntou ao pintor.

_De que se espanta?_exclamou o outro, igualmente surpreso._São os escritórios da justiça. O senhor não sabia que havia deles aqui? Pois se há em quase todos os sótãos, por que não haveria aqui? Meu ateliê mesmo faz parte dessas instalações, mas a justiça colocou-o à minha disposição”. (p. 165).

Pessoas com delírio paranóide sofrem de uma distorção da percepção da realidade. Elas atentam seletivamente para informações de conteúdo ameaçador, como se estivessem previamente “sintonizadas” para este conteúdo; saltam para conclusões precipitadas sem informações suficientes que lhes dêem embasamento, evidenciando um déficit na forma de interpretação de indícios, ou pistas do ambiente; tendem a atribuir causas pessoais (malevolência) a resultados negativos, ou seja, a procurar culpados, ao invés de atribuir os resultados às circunstâncias. Ademais apresentam um déficit na teoria de mente, ou seja, na habilidade de inferir as intenções, os pensamentos, as motivações, ou os estados mentais de outras pessoas para predizer, ou explicar o comportamento das mesmas. (Blackwood et al., 2001, Stanford et al., 2011).

Acredita-se que a crença delirante se associe à atribuição de saliência a estímulos irrelevantes. Pessoas normais, ao receberem uma recompensa além daquela prevista (prediction error), apresentam um pico de liberação de dopamina da área tegmental ventral para o nucleus accumbens e esta liberação leva à atribuição de saliência à recompensa e facilita sinapticamente o aprendizado que associa a recompensa ao estímulo, ou contexto espaço-temporal  no qual ela ocorreu  (Robinson e Berridge, 1999). Trata-se de um aprendizado condicionado, pelo qual dois elementos anteriormente isolados passam a ser conectados nos circuitos cerebrais. Assim, o comportamento futuro será o de buscar a experiência prazerosa, procurando repetir o contexto no qual ela foi obtida. Da mesma forma, a simples exposição a pistas, ou a alusões que remetam ao contexto evocam a memória da experiência prazerosa. Este mecanismo compõe o modelo explicativo das bases neurobiológicas da adição, ou dependência de substâncias e provavelmente de outros comportamentos compulsivos, como o jogo patológico.

No caso da esquizofrenia, há evidências de que ocorre um aumento dos níveis extracelulares de dopamina no estriado e que este aumento se correlaciona com a gravidade dos sintomas positivos (delírio, alucinações, desorganização do pensamento e do comportamento) (Abi-Dargham et al., 2000). A hiperatividade dopaminérgica, resultante de um padrão caótico de disparo no estriado, levaria o paciente a atribuir saliência a estímulos, ou pistas irrelevantes, atribuindo-lhes um significado inexistente, que é uma característica do estado prodrômico de ânimo delirante (Heinz e Schlagenhauf, 2010). Este é um processo de aprendizado inconsciente, pelo qual a neuroplasticidade sináptica cria traços de memória nos circuitos estriatais e estes enviam esta informação ao córtex cerebral.

Sabe-se que os gânglios da base têm um papel importante na seleção das informações que chegam ao córtex pré-frontal, ou seja, que adentram a consciência. Deste modo, a sua disfunção poderia causar um “déficit de filtração” das aferências corticais, não diferenciando adequadamente o que é relevante e o que não é (Kapur, 2003).

Além disso, os neurônios estriatais inibem neurônios adjacentes (inibição colateral) para que não sejam criadas associações entre aferências coincidentes. É possível que alterações nestes circuitos inibitórios propiciem a formação de novos traços de memória, associando eventos não relacionados, porém simultâneos, fazendo com que conexões improváveis (novos significados) sejam apresentadas à consciência (Morrison e Murray, 2009).

Por outro lado, estudos de neuroimagem evidenciam em pacientes esquizofrênicos não medicados um déficit de ativação do núcleo accumbens frente a estímulos, ou pistas que predizem recompensa (reward-predicting stimuli) (Juckel, 2006). Sendo assim, pode-se dizer resumidamente que há um corpo de evidências  sugerindo que na esquizofrenia ocorre resposta mais intensa que o normal a estímulos neutros e menos intensa que o normal a estímulos associados à recompensa (Schlagenhauf, 2009) e isto pode refletir o comportamento de atribuição caótica de significados, contribuindo para a formação do delírio.

Todavia, mesmo com todos os argumentos acima, a obra O processo definitivamente não pode ser vista como a narrativa de uma mente delirante.Na realidade, como já mencionado, o leitor não tem acesso às emoções e aos processos mentais de Josef K., apenas tenta inferi-los a partir das suas atitudes e reações. Além do mais, o próprio Josef K. causa estranhamento. Ele não aparenta se sentir em um sonho, embora mostrando-se indignado. Ao contrário, ele raciocina o tempo todo e busca soluções como se as situações fossem passíveis de compreensão. Compara com a sua capacidade de organização elogiada no banco e pensa em construir uma rede de colaboradores para a sua meta. Apesar disso, suas atitudes são ilógicas. Por exemplo, quando o seu tio o leva até o advogado, ao invés de permanecer no quarto na companhia deste e do chefe de departamento, que pertencia à justiça e que poderia ajudá-lo, Josef K. vai ter com a criada. Em outro episódio, quando está diante do secretário de informações, o qual a princípio poderia explicar-lhe sobre o seu processo, Josef K. não faz nenhuma pergunta, apenas se preocupa em deixar o prédio o mais rapidamente possível.

Com efeito, quem sente a perplexidade é o leitor. Este é quem experiência através da obra o ânimo delirante, este é quem atenta a todos os detalhes, atribuindo-lhes significados sem fundamento e tenta construir relações de causalidade inexistentes, este é que sente seu déficit na teoria da mente, posto que é incapaz de adotar a perspectiva dos outros personagens e inferir e compreender o que pensam e sentem. A experiência de desrealização é do leitor, a atribuição de saliência a estímulos irrelevantes é feita pelo leitor… quem aos poucos constrói o delírio paranóide é o leitor!

REFERÊNCIAS:

Abi-Dargham A, Rodenhiser J, Printz D, et al. Increased baseline occupancy of D2 receptors by dopamine in schizophrenia. Proc Natl Acad Sci U S A. 2000;97:8104–8109.

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Pfeifer, Martin. Erläuterungen zu Franz Kafkas Der Prozess (Königs Erläuterungen Band 209). C. Bange Verlag – Hollfeld/Oberfr.; Auflage: 6. Auflage (1970)

Robinson TE, Berridge KC. The neural basis of drug craving: an incentive-sensitization theory of addiction. Brain Res Brain Res Rev. 1993;18:247–291.

Schlagenhauf  F, Sterzer P, Schmack K, et al. Reward feedback alterations in unmedicated schizophrenia patients: relevance for delusions. Biol Psychiatry. 2009;65: 1032–1039.

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