Transtorno do Estresse Pós-Traumático, por Ana Claudia Piccinelli. Resenha do artigo: SAREEN, Jitender. Posttraumatic Stress Disorder in adults: impact, cormobidity, risk factors and treatment. Canadian Journal of Psychiatry, v.9, n.59, p. 460-467, 2014.

O estresse pós-traumático (PTSD), apesar de ser observado em pacientes desde a década de 80, somente apareceu na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM). Na quinta edição algumas mudanças ocorreram, o PTSD foi removido do capítulo de transtornos de ansiedade e movido para a categoria transtornos relacionados ao estresse e trauma. Apesar de uma variedade de definições acerca da patologia algumas características são particulares do PTSD, são elas: experiência ou testemunha de um evento estressor, reviver sintomas relacionados ao evento como pesadelos e flashbacks, esforço em evitar situações, lugares e pessoas que possam relembrar o evento traumático e por fim sintomas de irritabilidade, problemas de concentração e distúrbios do sono (Breslau, 2001).

           Desta forma, Sareen teve como objetivo realizar uma revisão de literatura a fim de descrever as mudanças no diagnóstico de PTSD, o impacto desta doença na comunidade, os fatores de risco e fatores protetivos no desenvolvimento deste transtorno. O que diferencia o PTSD de outros transtornos são os sintomas de re-experiência pois outros sintomas podem estar presentes em outros transtornos mentais. Controvérsias sobre a definição do evento traumático também são abordadas no presente trabalho. Edições recentes do DSM definem um evento traumático como aquele que causa medo intenso, horror e desesperança. Porém no DSM-5 houve mudanças, e passou-se a se caracterizar um evento traumático como exposição à morte, ameaça de morte, injúria séria ou violência sexual.

           Estudos epidemiológicos têm demonstrado algumas particularidades entre o desenvolvimento do PTSD entre homens e mulheres. Nos homens, os eventos traumáticos mais comuns relacionados ao desenvolvimento do transtorno são testemunhar outra pessoa ser morta ou gravemente ferida, estar em um acidente que ameace a vida ou ser ameaçado por uma arma. Já entre as mulheres estão eventos relacionados a desastres naturais, testemunhar outra pessoa ser morta ou gravemente ferida e estar em um acidente que ameace a vida. Existe também uma relação dose-dependente entre a duração do evento traumático e o risco de desenvolvimento de PTSD (Perrin, 2014).

O PTSD tem grande impacto individual e na sociedade, sendo um dos transtornos de ansiedade mais relacionados com comportamento suicida, porém não se sabe ainda se é o trauma ou os sintomas do transtorno que levam ao comportamento suicida. Pessoas com essa doença também lutam com problemas interpessoais, dificuldades parentais, redução na renda familiar e diversas comorbidades físicas e mentais. Estudos epidemiológicos estimam que mais de 90% das pessoas com PTSD tem pelo menos outra desordem metal em algum momento da vida, sendo as mais comuns: o transtorno depressivo, abuso de álcool ou dependência e outra desordem de ansiedade.

Alguns fatores de risco para o desenvolvimento do PTSD foram abordados no trabalho. Mulheres tem mais chances de desenvolve-lo, e idade, raça, status socioeconômico e marital também influenciam. Outros fatores associados são vulnerabilidades cognitivas, como baixo QI e história de injúria na cabeça, exposição a estressores como maus-tratos na infância e fatores de personalidade, como neuroticismo. Muitos marcadores genéticos são atualmente investigados e sabe-se que genes dos transportadores de serotonina e do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal estão ligados ao desenvolvimento do PTSD.  Além disso, os pacientes apresentam insônia e limiar de dor reduzido. Suporte social parece ser um fator protetivo.

Apesar de todas as informações disponíveis, e os estudos que permitiram os avanços nos últimos 30 anos, diversas questões permanecem não respondidas a respeito dos fatores de risco para o desenvolvimento do PTSD. Isso acontece pois muitos dos estudos realizados possuem limitações, como por exemplo a generalização da população estudada ou o uso de amostras limitadas, como estudos com veteranos do exército. A prevalência do transtorno em populações vulneráveis, como idosos, crianças, adolescentes, minoridades étnicas, refugiados entre outras não está bem estabelecida. Estudos futuros deveriam preocupar-se em criar algoritmos para o desenvolvimento de PTSD em determinadas populações, o que melhoraria o entendimento da doença (Perkonigg, 2001) .

Ao final da revisão são abordados pontos referentes as avaliações clínicas e tratamentos dos pacientes. Apesar das pessoas com PTSD serem frequentemente relutantes em falar sobre os detalhes do evento traumático, a psicoterapia é a considerara como tratamento de primeira-linha, podendo ser combinada ao tratamento farmacológico. Inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como fluoxetina, sertralina e paroxetina e os inibidores da receptação norepinefrina, como a venlafaxine tem demonstrado eficácia na redução dos sintomas de PTSD. Em alguns casos há ainda a necessidade de medicação adicional para a melhora do sono, dentre esses podemos citar a prazosina, trazodona, zopiclona e antipsicóticos atípicos.

Bibliografia

Breslau N, Kessler RC. The stressor criterion in DSM-IV posttraumatic stress disorder: an empirical investigation. Biol Psychiatry.;50:699–704, 2001.

Perkonigg A, Kessler RC, Storz S, et al. Traumatic events and posttraumatic stress disorder in the community: prevalence, risk factors  and comorbidity. Acta Psychiatr Scand. 101:46–59, 2000.

Perrin M, Vandeleur CL, Castelao E, et al. Determinants of the development of post-traumatic stress disorder, in the general population. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol. 49(3):447–157, 2014.

Adicionar a favoritos link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *