Vamos falar sobre o suicídio-por Elisabete Castelon Konkiewitz

O suicídio é um tema difícil e perturbador. De fato, não há atitude mais radical que tirar a própria vida. É um ponto final sem volta que deixa como herança aos que ficam devastação, ruínas e escombros.

Muitas são as perspectivas sobre esse ato. Dentro das tradições religiosas budista e hindu, a decisão de abandonar o corpo é vista como uma escolha aceitável e por vezes até nobre, como no caso das viúvas que se decidem por imolar-se em fogueiras para acompanhar o marido, ou de monges renunciantes que assumem a postura de meditação e jejuam até a morte. Já na tradição cristã, o suicídio foi por muito tempo visto como um pecado mortal, de forma que aquele que o praticasse não tinha direito às cerimônias religiosas e ao enterro junto aos seus familiares.

A psiquiatria vê o suicídio como resultante de um estado psíquico doente. Estudos de autópsia psicológica (entrevistas realizadas com sobreviventes de suicídio ou com familiares das vítimas) revelam que em 97% dos casos havia uma doença psiquiátrica, que muitas vezes não foi reconhecida, ou adequadamente tratada. As mais comuns são depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline e dependência química.

O suicídio pode também se associar a outras circunstâncias, como o diagnóstico de doença incurável, falência, desonra, ou decepção amorosa. Seja por uma razão, ou outra, a pessoa que se decide pelo suicídio está num momento de desesperança extrema, onde não encontra opções para o seu problema e a sua dor. A crença de não haver saída por si só já revela um estreitamento cognitivo, ou seja, a incapacidade de enxergar uma situação sob diferentes perspectivas, de fazer concessões a si mesma, de recomeçar, de perceber a transitoriedade da vida, de entender que as constelações se formam e se desfazem e de que nada é definitivo. Esse estado psíquico é em si patológico e precisa de intervenção.

O que se recomenda às pessoas próximas é que atentem para os sinais de comportamento suicida, como comentários de que a vida não vale a pena, de que seria melhor morrer, ou isolamento, distanciamento, resignação, apatia extrema, venda, ou doação de objetos pessoais, etc. Essas percepções não devem ser disfarçadas, mas ao contrário, diretamente abordadas, ou seja, a pessoa deve ser questionada sobre o motivo de suas mudanças de comportamento e suas falas. Deve ser questionada quanto a estar desejando ou não morrer, se já pensou em tirar a própria vida e se já tem um plano para isso. Em casos de dúvida, deve-se procurar o quanto antes assistência profissional, retirar todos os meios que poderiam ser utilizados numa tentativa suicida (fios, cordas, cabos, talheres, ferramentas, etc.) e, acima de tudo, não deixar a pessoa por nenhum minuto sozinha.

Com o tratamento, que, em geral, envolve medidas psicoterápicas e medicação, a maioria se distancia do desespero e ganha outra visão sobre os seus problemas e a sua vida. Assim, o suicídio é prevenível e é fundamental ter consciência disso e mobilizar toda a sociedade para atitudes simples, porém imediatas que podem salvar milhares de vidas.

Entretanto, pessoas que tentaram suicídio precisam de tratamento de longo prazo, pois trata-se de um problema recidivante, ou seja, a tendência a usá-lo como estratégia de escape pode retornar em futuras situações de crise. Por isso, num mundo de corpos solitários nas multidões, seja você a diferença e mostre que aquele ao seu lado não está sozinho.

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