Qual é a sua personalidade? – por Elisabete Castelon Konkiewitz

A personalidade é um padrão, um jeito básico de perceber o mundo, de senti-lo e de responder a ele. São tendências pessoais que direcionam nossas interpretações, escolhas e atitudes. Essas tendências já se mostram desde a infância e são determinadas principalmente pela herança genética. Assim, os bebês já se apresentam calmos ou irritados, teimosos ou conciliadores, curiosos ou medrosos, desinibidos ou tímidos, etc. Entretanto, também as experiências dos primeiros anos de vida são definidoras, por exemplo, rejeição, críticas destrutivas, abuso físico, ou sexual vão sedimentando a crença de que a vida é perigosa, de que as pessoas não são confiáveis, a intimidade deve ser evitada e a visão de si mesmo como culpado, inferior, ou indigno.

As Neurociências admitem que a personalidade vai se estruturando como resultado da interação dinâmica entre as tendências primárias (genéticas) e as vivências com o ambiente. A tendência ao autocontrole pode ser treinada, mesmo em crianças geneticamente predispostas à explosividade; a capacidade de criar vínculos emocionais, ou  a curiosidade e a busca por experimentações podem ser estimuladas, ou coibidas; nem todas as crianças abusadas desenvolvem alterações psiquiátricas quando adolescentes, ou adultas. Em alguns casos, já foram descobertos genes que aumentam o risco para certos transtornos em pessoas expostas precocemente a determinadas situações.

Diferentes pesquisas na área da psicologia definiram cinco fatores que descrevem a personalidade. O fator extroversão versus introversão caracteriza um continuum que abrange desde pessoas que adoram se socializar, expressar suas ideias, liderar e compartilhar experiências até, no outro extremo, aquelas que apreciam a solidão e o silêncio. Neuroticismo versus estabilidade emocional define o quanto uma pessoa sofre e se deixa abater pelos eventos e situações da vida. Assim, aqueles com alto grau de neuroticismo estão frequentemente tristes, angustiados, ansiosos, enraivecidos, ou magoados. A abertura para novas experiências corresponde ao grau de curiosidade e abertura para o novo e o desconhecido, ao contrário do apego à rotina e à segurança do que já é familiar. A conscienciosidade reflete o grau de autodisciplina e responsabilidade diante de compromissos e metas. Por último, o fator agradabilidade descreve o quanto uma pessoa se mostra conciliadora e cria relações harmoniosas e positivas ao seu redor. Nenhum desses fatores é positivo, ou negativo em si. Simplesmente a sua combinação delineia um perfil individual. Por exemplo, a extroversão e a agradabilidade podem estar num contexto de tendências manipuladoras, ou a conscienciosidade pode ser extrema e gerar obsessões.

Outros conceitos associados ao estudo da personalidade são empatia, intimidade, autodirecionamento e autoimagem. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e entender os sentimentos e a perspectiva dele. Já a intimidade se associa à afetividade e à cumplicidade que consigo estabelecer em um relacionamento. Autodirecionamento é a capacidade de autocontrole, inibição dos impulsos e planejamento. A autoimagem se reflete no grau de satisfação em ser quem eu sou, não se explicando apenas pelos julgamentos que eu faço sobre mim (feio, bonito, inteligente, gordinho, etc.). Ter uma autoimagem positiva não significa se achar superior, ou perfeito. Isso seria negação da realidade e prejuízo na autocrítica. Ela se mostra, pelo contrário, pela estabilidade diante de desafios e rejeições, pela autoaceitação e pelo reconhecimento e perdão das próprias fraquezas e “pecados”.

Na linguagem psiquiátrica, os transtornos de personalidade correspondem a desvios graves que engessam as emoções, percepções e comportamentos de uma pessoa, causando muito sofrimento e problemas de relacionamento e desempenho. O perfil de comportamento é estreito, inflexível e se repete ao longo de anos nas mais diferentes situações, sendo prejudicial para a pessoa, ou para o ambiente. Exemplos seriam uma pessoa que sempre está enganando e manipulando, ou que sempre se mostra amedrontada e esquiva, ou sempre controladora, etc. Ora, todos nós temos tendências que se repetem, mas entende-se que uma pessoa saudável possua capacidade de autocrítica, consiga refletir sobre si mesma e os fatos à sua frente e possa mudar de opinião e estratégia.

Para o terapeuta (psicólogo, ou psiquiatra com formação em psicoterapia), mais importante que a classificação do paciente como portador ou não de um transtorno de personalidade é a compreensão dos traços individuais e do quanto estão causando sofrimento. A busca é de acompanhar o paciente no processo de autodescoberta e autoconhecimento e ir assim percebendo as “pedras no meio do caminho”, os “pontos cegos” e os “pontos gatilhos” (aqueles que desencadeiam sempre as mesmas respostas de fuga, ou defesa). A meta é ajudar o paciente a finalmente entender que a vida dele depende das suas percepções e dos seus pensamentos, que algumas certezas devem ser questionadas, que as emoções podem ser elaboradas e que há outras formas de reagir e enfrentar a vida.

Sim, os transtornos de personalidade podem ser tratados, pois a personalidade, ao contrário da crença geral, não é fixa. Aliás, na concepção milenar budista, a personalidade nem sequer existe. Somos pura fluidez e transitoriedade.

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