ALIMENTOS ANTI-INFLAMATÓRIOS: PRINCÍPIOS BIOATIVOS E MECANISMOS DE AÇÃO- por Luis Henrique Almeida Castro

Com o advento da revolução industrial a sociedade europeia e, posteriormente demais continentes, experimentou uma ampla mudança não apenas no modo de produção – retratado de maneira satírica e não menos crítica em “Tempos Modernos” de Charles Chaplin – mas também vivenciou uma transformação no modo como nos relacionamos com o tempo e, consequentemente, com nossa alimentação.

O êxodo rural, o surgimento das megalópoles, a concentração da força trabalhista em locais isolados das áreas residenciais, e ainda a entrada da mulher no mercado de trabalho impulsionou uma crescente demanda por refeições fora de casa e não apenas isto, mas refeições que se adequem ao cotidiano produtivo.

No Brasil, o retrato epidemiológico do início do século passado a meados da década de 90 se fazia por um país cuja boa parte dos óbitos provia de doenças infectocontagiosas de etiologia ligada a problemas sociais cuja profilaxia dependia não apenas de um serviço de saúde de ação imediata e individual, mas de ações políticas que demandavam fortes investimentos em vários setores públicos, dentre eles o saneamento básico e a educação.

Paralelo a isto, o padrão nutricional era composto por um quadro de desnutrição a níveis epidêmicos, situação que se agravava mais ainda ao se analisar regiões mais interioranas e de difícil acesso geográfico tais como o sertão nordestino e certas comunidades amazônicas.

Os recentes avanços econômicos que impulsionaram o Brasil rumo ao posto de país em desenvolvimento bem como as recentes conquistas sociais e assistenciais implementadas no país a partir da década de 90 bem como sua reestruturação, institucionalização e normatização na primeira década deste século proveram ao país uma profunda mudança na conjuntura epidemiológica e nutricional, fato evidenciado pelos dados mais recentes das pesquisas populacionais que demostram um aumento considerável na expectativa de vida, pela melhora no quadro educacional, diminuição drástica da mortalidade infantil e da incidência de desnutrição.

Porém, com o aumento da expectativa de vida acompanhada da diminuição gradual da taxa de natalidade bem como a maior distribuição de renda associada ao aumento quantitativo do salário mínimo acima da inflação e do aumento de seu poder de compra, hoje, a população brasileira evidencia um momento exatamente oposto ao encontrado no século passado tanto em termos epidemiológicos como no padrão nutricional. Atualmente o Brasil vivencia o mesmo padrão de mortalidade que países desenvolvidos: majoritariamente as doenças crônicas não transmissíveis são a principal causa de óbito associado a um modelo instaurado de obesidade e sedentarismo.

Tais fatores inclinam a comunidade científica e profissionais da saúde a voltarem seus esforços afim de encontrarem soluções alimentares que amenizem este quadro epidemiológico e é, neste contexto, que os alimentos anti-inflamatórios têm ganhado destaque. A seguir, neste texto, são descritos os principais compostos que se enquadram nesta magnitude de efeito e seus mecanismos de ação.

As fitoalexinas são compostos cujo efeito anti-inflamatório estão bem descritos na literatura científica. Seu principal representante é o resveratrol que pode ser deparado na sua forma cis ou trans sendo, a segunda, a quimicamente mais estável e mais bioativa.

Este composto inibe a expressão de citocinas pró-inflamatórias em células pulmonares estimuladas com lipopolissacarídeos (LPS), suprime a ativação dos fatores de transcrição NF-κB e AP-1, inibe a ativação da JNK e de sua proteína upstream MEK, além de inibir a expressão gênica das enzimas COX-2 e iNOS e das moléculas de adesão de superfície celular ICAM-1, ELAM-1 e VCAM-1.

A principal fonte alimentar do resveratrol é a Vitis vinifera e, consequentemente, o vinho tinto seco; demais variedades da uva bem como produtos derivados tendem a apresentar quantidades reduzidas deste composto uma vez que sua concentração no fruto está amplamente relacionada ao tipo de solo e clima da região de plantio o que coloca as uvas brasileiras como uma das variedades de menor concentração em resveratrol.

A presença do álcool na bebida fermentada de Vitis vinífera, ao contrário do que possa imaginar o senso comum, serve de veículo de absorção a este composto. Contudo, deve-se ter cautela e parcimônia no consumo uma vez que, não obstante, o alcoolismo e suas consequências também é uma das patologias que mais causam óbitos no mundo.

Os últimos estudos estimam que 200mL diário de vinho tinto seco apresenta redução significativa de marcadores inflamatórios no acúmulo de 6 meses em indivíduos portadores de doenças crônicas não transmissíveis e, por outro lado, o benefício cardioprotetor dessa ingesta na população saudável ainda permanece uma incógnita.

Outros dois compostos que apresentam ação anti-inflamatória conhecida são a curcumina e as catequinas; o primeiro é um pigmento fenólico de tom amarelado que pode ser encontrado na planta Curcuma longa e testes in vitro já indicaram resultados positivos para sua ação antibacteriana, antiviral, antifúngica e até mesmo antitumoral; já a catequina é um flavonoide amplamente encontrado na planta Camellia sinensis da qual se faz o tão popular chá-verde.

curcuma, ou açafrão da terra

Em comum, estes dois compostos tem a ação primária de defesa na planta e, novamente ao contrário do que um raciocínio simplista poderia prever, estão presentes em maiores concentrações quando oriundas de solos pobres. Isto ocorre devido a relação inversamente proporcional entre a biodisponibilidade de teores de nitrogênio solúvel no solo e a concentração de compostos de defesa no vegetal. Espécies mais comuns em solos férteis tendem a alocar compostos carbônicos para o crescimento da planta diminuindo, dessa forma, a relação carbono/nutriente enquanto vegetais de solos menos férteis tendem a incrementar drasticamente a síntese de compostos secundários de defesa tornando-se uma espécie mais atrativa do ponto de vista nutricional a nível bioquímico.

Em estudos in vitro a curcumina demonstrou ser capaz de modular a expressão de alvos moleculares incluindo o NF-κB e, consequentemente, modular a transcrição de COX-2, iNOS, VCAM-1, ICAM-1, TNF-α, IL-1, IL-6, IL-8, IL-12 e interferon-γ. Além disso, foi capaz de sequestrar espécies reativas de oxigênio oriundas da ativação do NF-κB na etapa dependente do TNF-α, assim como forbol-12-acetato-13-miristato (PMA) e por peróxido de hidrogênio, além de ter inibido a ativação da JNK em células estimuladas por TNF-α, radiação ionizante, PMA e UV-C.

Já as catequinas presentes no chá-verde inibem a ativação do fator de transcrição NF-κB ao mesmo tempo que inibem a degradação do IKB-α induzida pela ativação celular mediada pelo TNF-α, diminuem a atividade da proteína IKK, envolvida na fosforilação do IKB-α, e reduzem tanto a expressão gênica da enzima COX-2 como também da proteína JNK e do fator de transcrição AP-1.

Um típico extrato cru dos rizomas da planta Curcuma longa contém cerca de 70% a 76% de curcumina, contudo não existem estudos experimentais ou em humanos predizendo recomendações diárias; já estudos em populações asiáticas – maiores consumidores mundiais de chá-verde – demonstraram que a ingesta de 1,5Kg de folha/ano da planta Camellia sinensis diminui em 99,91% o risco de câncer de próstata e que o consumo regular diário (mín. 4x/semana) está relacionado a uma menor prevalência de declínio cognitivo em idades avançadas.

chá verde

Mas talvez, dentre a classe dos compostos cuja ação anti-inflamatória já foi descrita e fundamentada pela ciência, os mais populares com maior divulgação nas mídias são os ácidos graxos poli-insaturados da família n-3 e n-6: os comumente conhecidos como ômega 3 e ômega 6.

Eles são considerados ácidos graxos essenciais, ou seja, são lipídeos que devem ser obtidos pela dieta uma vez que o corpo humano não é capaz de sintetizá-los naturalmente. Esta incapacidade se deve à ausência da enzima dessaturase responsável por inserir uma ligação dupla entre os carbonos C3-4 e C6-7 na porção terminal da cadeia lipídica; ou seja, apesar de produzirmos fisiologicamente os precursores lipídicos, nosso corpo é incapaz de convertê-los em ômega 3 e em ômega 6 ocorrendo uma parada forçada da cadeia bioquímica de conversão na rota lipídica.

Não se têm ao certo uma explicação evolutiva para este fato, mas – no campo das hipóteses antropológicas, talvez tenha sido esta incapacidade biológica que tenha “forçado” a espécie humana a buscar maior variedade nos alimentos bases de sua dieta incrementando-a com proteínas animais e vegetais oriundas dos oceanos uma vez que hoje, sabidamente, peixes de águas profundas e as algas são espécies dotadas da dita enzima ausente em nosso corpo e, portanto, são alimentos fonte dos ácidos graxos da família n-3 e n-6.

Falando em alimentos fontes, os principais representantes do ômega 3 são o ácido α-linolênico encontrado principalmente em sementes como a linhaça e a soja, e o ácido eicosapentaenoico cuja principal fonte são os peixes de águas profundas como a sardinha, o atum e a cavala. Em relação ao ômega 6, seus principais representantes são os ácidos linoleico e o ácido araquidônico e, para ambos, a principal fonte alimentar são as oleaginosas e os óleos de soja, milho e de girassol.

Na rota metabólica dos lipídeos no corpo humano o composto bioquímico final destes ácidos graxos são os chamados eicosanoides e são eles os responsáveis pela ação anti-inflamatória. O que muito pouco se divulga é o fato de que nem todo eicosanoide terá ação favorável à saúde, muito pelo contrário! Na verdade, os eicosanoides derivados do ômega 6 podem, de fato, dar origem a subprodutos – como as prostaglandinas, leucotrienos, prostaciclinas e tromboxanos – que são responsáveis justamente por acionar e piorar o quadro inflamatório do indivíduo. Tudo dependerá de um fator chave: a proporção existente entre o ômega 3 e o ômega 6 na dieta.

Isto ocorre devido ao fato de que existe uma concentração pré-estabelecida muito específica das enzimas responsáveis pelo processo de conversão destes ácidos graxos no ser-humano e, dependendo da relação de proporção dos mesmos na dieta, a via inflamatória poderá ser superativada em detrimento da síntese de eicosanoides anti-inflamatórios.

Em termos bioquímicos a proporção adequada recomendada na dieta é na faixa entre 5:1 a, no máximo, 10:1; ou seja, o limite para que se obtenha os efeitos benéficos destes ácidos graxos na alimentação é a presença de 10 unidades de ômega 6 para cada 1 unidade de ômega 3. Contudo, haja vista que o óleo de soja é um alimento fonte da família n-6 e que o mesmo é culturalmente consumido em excesso por muitos indivíduos, os estudos indicam que a média mundial alcança valores entre 20:1 até assustadores 32:1 em populações ocidentais, mais que 3x mais a proporção máxima recomendada.

Disto deriva o perigo da suplementação em cápsulas destes ácidos graxos. Além de que em nosso país, a legislação pertinente ao comércio destes suplementos ainda está em processo de consolidação, o que abre perigosas brechas no mercado para a venda de produtos adulterados, soma-se o fato do elevado consumo do óleo de soja; tais fatores contribuem para um consumo exacerbado do ômega 6 em detrimento do ômega 3 o que, como visto, trará efeitos maléficos ao invés do desejado pelos indivíduos que os consomem.

De fato, não apenas em relação aos ácidos graxos essenciais, mas também concernente aos demais compostos anti-inflamatórios descritos neste texto, os estudos científicos nutricionais indicam que considerando a biodisponibilidade, a absorção e a eficácia, a melhor forma de consumo destes compostos ainda é a mais natural possível: o próprio alimento em si! A eficácia anti-inflamatória dos ômegas 3 e 6 presentes nos peixes como a sardinha chega a ser quase 4x maior em comparação com a eficácia dos mesmos compostos quando ingeridos em capsulas de suplementos alimentares disponíveis no mercado.

Luis Henrique Almeida Castro– Possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Grande Dourados (2017). Em fevereiro de 2018 entrou no curso de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal da Grande Dourados e, em setembro de 2019, considerando seu rendimento acadêmico e seu desempenho em publicações técnico-científicas, obteve progressão direta para o curso de Doutorado onde também atua em cargo eletivo (2018-2019) enquanto representante discente na Coordenadoria do mesmo Programa. É ainda acadêmico do curso de Especialização em Nutrição Clínica e Esportiva pelo Grupo Educacional FAVENI. Atua desde abril de 2018 enquanto bolsista de Pós-Graduação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) desenvolvendo pesquisas científicas nas linhas de nutrição farmacológica e nutrição esportiva.

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