Nem todo esquecimento é início de Alzheimer e Alzheimer não é só esquecimento- por Elisabete Castelon Konkiewitz

Uma vez um paciente me contou que saiu do banho com a cabeça toda ensaboada; em outra ocasião uma paciente me disse que elogiou o brinco de uma amiga e ouviu como resposta que este havia sido um presente dela! Muitos se esquecem do fogo ligado, ou do que deveriam comprar no supermercado, ou até mesmo de onde pretendiam ir ao saírem de casa. Sim, os exemplos são muitos e são perturbadores. Apesar disso, na enorme maioria dos casos, especialmente em pessoas com menos de 60 anos, trata-se de estresse, depressão, ou falta de sono, que induzem prejuízo de concentração, atenção e memória.

A doença de Alzheimer é algo diferente disso. Trata-se de um processo neurodegenerativo inexorável, ou seja, de um processo contínuo e progressivo de morte de células cerebrais que leva não apenas ao prejuízo de memória, mas também a perdas de outras funções intelectuais. O paciente pode apresentar dificuldade de orientação em lugares já conhecidos, dificuldade em encontrar as palavras certas para nomear objetos, dificuldade no planejamento de atividades que exigem etapas, como por exemplo, no preparo de alimentos, serviços de banco, cuidados com a casa. A capacidade de organização mental do que deve ser feito vai se perdendo.

Nos estágios mais avançados pode ocorrer perda total da compreensão e da expressão da linguagem falada, incapacidade de se vestir, de manusear talheres, de usar o banheiro, etc. O paciente muitas vezes não reconhece mais os familiares e tem sua mente circunscrita a memórias fragmentadas de um passado remoto. Seu comportamento geralmente se altera, podendo haver crises de medo, de agitação, de agressividade, ou de choro. Nos estágios iniciais são comuns a desconfiança, ou crenças erradas de estar sendo roubado, perseguido, ou traído. Muitos ficam deprimidos. O apetite e o sono também se alteram, frequentemente os pacientes comem pouco, perdem peso e têm insônia noturna, querendo andar pela casa, o que causa grande desgaste aos familiares.

A doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência, porém não é a única. Doenças cardiovasculares, como hipertensão e diabetes podem causar danos contínuos à circulação sanguínea no cérebro e resultar na demência vascular. O etilismo (ou alcoolismo), o uso de cocaína e crack e a infecção pelo vírus HIV em seus estágios finais são outros exemplos de situações que causam morte dos neurônios ( as células do sistema nervoso) e sintomas demenciais.

Assim, em casos de esquecimento persistente é importante consultar um especialista e investigar a natureza do problema. Isso exige avaliação clínica detalhada e exames complementares. Alguns problemas podem ser revertidos. Este infelizmente ainda não é o caso da doença de Alzheimer que pode apenas ter sua evolução lentificada com os medicamentos atualmente disponíveis. Entretanto, o tratamento do paciente com demência não se limita à medicação. A abordagem multiprofissional com medidas que o ativem e promovam a sua participação nas atividades do dia a dia, música, exercícios físicos, arteterapia, treino de comunicação e reabilitação neuropsicológica podem grandemente prolongar o tempo de bem estar e de participação na vida social e familiar. Os cuidadores também precisam ser instruídos a lidar com situações problemáticas. Finalmente, o tratamento medicamentoso de sintomas secundários ao processo demencial como a insônia, o medo, a ansiedade, a depressão e a agitação não é curativo, mas é fundamental para redução do sofrimento do paciente e daqueles que o acompanham.

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