Você tem medo de falar em público? Isto pode ser transtorno de ansiedade social- por Elisabete Castelon Konkiewitz

Medo de falar em público é normal; constrangimento em se expor, em se tornar o centro das atenções é normal; sentir-se inseguro e ter medo de ser ridicularizado é normal. De fato, nós, seres humanos, somos sabidamente animais sociais a assim um dos nossos grandes anseios é o de ser aceito pelo nosso grupo. E um grande medo é o de ser rejeitado. Rejeição pode ser exclusão, ou também humilhação. O tema do proscrito é universal e aparece em todos os tempos, por exemplo, no romance O corcunda de Notre Dame, ou no atual sucesso de cinema, o filme Coringa, dirigido por Todd Phillips.

A todo o momento, não apenas observamos e somos observados pelas outras pessoas, como emitimos e recebemos julgamentos, categorizações, aplausos, ou, mais frequentemente, recriminações. Os diferentes grupos— família, parentes, escola, trabalho, igreja— estruturam-se a partir de valores e conceitos e exercem pressão de adequação sobre os seus elementos, de forma que a coesão e a harmonia se baseiam, até certo grau, na obediência. A consciência desses processos faz com que nos ocupemos continuamente em imaginar como os outros estão nos enxergando e o que pensam de nós, pois desse julgamento depende a nossa posição e enquadramento no coletivo.

A insegurança gerada pelo medo de ser desprezado, excluído, ou ridicularizado pode se tornar insuportável e paralisante e aí se inicia o transtorno de ansiedade social. A pessoa pode não conseguir comer em público, andar pelas ruas, deixando mesmo de frequentar o trabalho, ou a escola, ou de sair à frente da casa pela fantasia aterrorizante de ser observada e vítima de recriminação, ou escárnio. Nesses casos, ou também em situações mais brandas que se associem a sofrimento, ou ao impedimento de realização de tarefas e de participação na vida, há necessidade de tratamento.

É preciso consultar um especialista—psicólogo, ou psiquiatra. A psicoterapia envolve o reconhecimento das fantasias que alimentam o medo e o enfrentamento das mesmas de forma realista, abordando os possíveis complexos de inferioridade, a convicção de que é preciso se mostrar perfeito, a sensibilidade excessiva a críticas, etc.

Nossas crenças são em grande parte construídas na infância. Conceitos de pecado, de feio e bonito, estigmas, preconceitos, a visão de si mesmo, a autoestima— todo este conjunto é tecido nos primeiros anos de vida. Deste modo, experiências de exclusão, de bullying, de vexame, especialmente na escola, que é o primeiro lugar de socialização fora da família, podem ser traumatizantes e a base da ansiedade social.

Durante a terapia também pode ser realizado um trabalho de exposição gradual à situação que causa medo. Por exemplo, no caso de falar em público, podem ser realizados “ensaios” com o terapeuta. O paciente pode ser solicitado durante as sessões primeiramente a ler um texto em voz alta, em seguida, a falar por 2-3 minutos e ir assim gradualmente aumentando a intensidade do desafio temido. Ele pode até mesmo ser filmado e então discutir o filme com o terapeuta, avaliando o que de fato merece correção e o que se mostra melhor que o percebido por ele durante a sua performance.

Medicamentos para controle da ansiedade por vezes são usados, pois têm efeito rápido, permitindo que a pessoa enfrente a situação e aprenda que é capaz de superá-la. Assim, a medicação, embora não tenha o aprofundamento e a individualização da psicoterapia, pode ajudar a pessoa a ter uma experiência positiva de exposição social e com isso descobrir seu potencial e desaprender o medo.

Adicionar a favoritos link permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *