Neuroeducação e Inteligência: como as artes e a atividade física podem contribuir para a melhora cognitiva- por Alfred Sholl-Franco, Tatiana Maia Barreto e Talita da Silva de Assis

Trechos do capítulo do livro Altas Habilidades/Superdotação. ângela Virgolim & Elisabete Castelon Konkiewitz. Papirus, 2014.

Introdução

Há alguns anos a organização e a distribuição da grade curricular escolar eram focadas nas inteligências lógico-matemática e linguística, características prioritariamente cobradas nos testes de QI (Coeficiente de Inteligência) para categorizar o nível de inteligência dos indivíduos. Este fato sempre reforçou a importância de disciplinas como a matemática e o português, que detêm maior carga horária nas escolas. Posteriormente, Gardner, com a Teoria das Inteligências Múltiplas, mostrou que esses são apenas dois aspectos da inteligência e que devemos nos atentar ainda para outros tipos, tais como: musical, espacial, cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista (Almeida et al., 2010; Gardner, 1985; Nolen, 2003). Assim, embora existam diferentes formas de avaliar estas inteligências, elas representam apenas aspectos isolados de um conjunto, que podem ser potencializados pelo aproveitamento das características individuais e pelo trabalho complementar e sinérgico entre elas. Desta forma, buscamos aprofundar a importância de estimular atividades artísticas e físicas como ferramentas de reforço para a aquisição de conhecimentos e potencialização das inteligências (Barenberg et al., 2011; Conway, 2003; Donders, 2002; Eysenck & Keane, 2005; Hussen, 2010; Matzel & Kolata, 2010; Minear e Shah, 2008). Neste sentido, uma série de estudos comprova que a ampliação do repertório motor e a estimulação física e mental, assim como a criação de situações problemas, são indispensáveis para um aprendizado saudável e eficaz, o que já tem sido explorado em algumas escolas, como é o caso da Escola da Ponte[1], em Portugal.

Neuroeducação: o desenvolvimento do sistema nervoso e as inteligências

Como os conhecimentos neurocientíficos podem contribuir para a potencialização da capacidade intelectual? Para respondermos a essa pergunta, primeiramente precisamos ter uma noção básica de quais estruturas estão envolvidas nesse processo até chegarmos ao que entendemos como inteligência.

Uma peculiaridade da espécie humana esta relacionada com o fato de que no período neonatal os componentes do sistema nervoso ainda não estão totalmente desenvolvidos, o que torna o bebê humano um ser totalmente dependente, que não consegue satisfazer suas necessidades básicas, precisando completar o seu potencial genético com a estimulação ambiental (Giedd et al., 1999; Hudspeth & Pribram, 1990; Huttenlocher, 2003; Matzel e Kolata, 2010). Durante os primeiros anos de vida, ocorre o crescimento, a maturação e a seleção funcional de diferentes estruturas do sistema nervoso, assim como o estabelecimento de conexões entre os neurônios (sinapses). Isto gera a intricada rede neuronal que possibilita a construção de novos esquemas cognitivos e o pleno funcionamento dos mesmos ao longo de toda vida (Antonini & Stryker, 1993; Greenough et al., 1987; Huttenlocher, 1979; Sanes et al., 2011; Singer, 1990, 1995; van der Molen e Molenaar, 1994; Yan e Fischer, 2002). Aos períodos de maior plasticidade do sistema, chamamos “períodos críticos” ou “janelas de oportunidades”, os quais podem variar muito conforme a função relacionada ou característica estudada, como observado na figura 1 (Bailey et al., 2001; Kisilevsky et al., 2003; Kuhl, 2004; Neville & Bruer, 2001; Shonkoff, 2000; Wiesel & Hubel, 1963). Um bom exemplo disso é a visão. Estudos mostram que o recém-nascido não enxerga como uma pessoa adulta. Isso acontece porque o sistema de condução da informação visual ainda não está pronto, fazendo com que a criança só veja vultos. Entretanto, os sons ouvidos pela criança são mais facilmente identificados, fazendo com que essa modalidade sensorial complemente o reconhecimento de pessoas e objetos pelo bebê, permitindo a aquisição de informações ambientais (aprendizagem), conforme a atenção dispensada e o processamento dos estímulos de forma integrativa pela memória de trabalho (Cahill et al., 2001; Cowan et al., 2006; Conway et al., 2003; Matzel & Kolata, 2009). O mesmo padrão é observado com o sistema motor, uma vez que os movimentos da criança ao nascer são formados por um conjunto de reflexos básicos responsáveis minimamente por sua sobrevivência (como o reflexo de sucção, por exemplo) e só depois o sistema irá amadurecer e, com a experiência, opor-se à gravidade produzindo movimentos direcionados, o que reforça a visão de Wallon (1975) de que, ao nascer, a criança ainda não se reconhece como individuo, mas sim como uma extensão do corpo de sua mãe.

Novas tecnologias, práticas esportivas e a potencialização das inteligência em crianças e

os exergames, jogos que utilizam os movimentos corporais como forma de interação com ambientes virtuais, são ferramentas tecnológicas utilizadas para a promoção da atividade física (Fogel et al., 2010; Vaghetti e Botelho, 2010). Além dos benefícios advindos do exercício, tais como melhora das funções cardiorrespiratória, aumento da força muscular jovens

Atualmente, aumento do gasto energético, controle da pressão arterial e frequência cardíaca, melhora do condicionamento físico dentre outros (Gonçalves et al., 2012), a prática de exergame também traz ganhos cognitivos como diminuição do tempo de reação, melhora na capacidade de abstração devido à interação com o ambiente virtual, melhora da motricidade fina e global, já que o acionamento dos comandos é dado por intermédio da movimentação dos segmentos corporais. Observa-se ainda a melhora das funções cognitivas, como no caso de resolução de problemas. Por essa razão, estudos recentes tentam explorar o uso dessas novas ferramentas no contexto escolar, uma vez que seu carácter lúdico é um chamariz para crianças e jovens de diferentes faixas etárias. Tendo em vista isso, o mercado tecnológico vem investindo em acessórios que visam não apenas potencializar o grau de especialização em uma dada tarefa, assim como jogos educacionais, nos quais não basta haver movimentação, mas também a transmissão de um conteúdo curricular implícito durante a realização do jogo. Grande parte desses jogos está relacionado a atividade física ou ensino de ciências e matemática, de modo a potencializar as inteligências pelo trabalho sinérgico entre o trabalho físico e mental.

Conclusão

As reflexões estabelecidas neste capítulo apontam para o trabalho integrado entre áreas como as artes e a atividade física, adotando uma perspectiva exploratória para o desenvolvimento cognitivo e a potencialização das inteligências. Tendo em vista esses aspectos, é bastante seguro afirmar que uma criança que seja trabalhada desde o nascimento terá grande chance de obter uma melhor rede de conexões. Isto, por sua vez, viabilizaria uma maior capacidade de associações e, consequentemente, uma maior probabilidade de solução de problemas levando em consideração não apenas aspectos cognitivos, mas também os aspectos motores e afetivos envolvidos no processo.

CASTELON KONKIEWITZ, Elisabete; VIRGOLIM, A. R. (Org.) . Altas Habilidades/Superdotação, Inteligência e Criatividade. 1. ed. Campinas: Papirus, 2014. 480p .


[1] Este projeto busca, a partir da soma de princípios como intencionalidade pedagógica, liberdade, conscientização de seus atos na sociedade e respeito ao ritmo de aprendizagem dos alunos, propiciar um processo de ensino-aprendizagem mais agradável e eficaz, potencializando as inteligências de forma natural (http://www.escoladaponte.com.pt).

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