Evolução e comportamento: aspectos adaptativos da depressão e da ansiedade- por Bruna Pedrozo Festa, Diogo Chaves Borges Campos, Jackeline Forbat Araujo, Neuza Maximiano de Pinho.

por Bruna Pedrozo Festa, Diogo Chaves Borges Campos, Jackeline Forbat Araujo, Neuza Maximiano de Pinho

O estudo das consequências do processo de seleção natural sobre as adaptações da espécie humana, levando em consideração a sua história evolutiva e as alterações advindas para a saúde e doença, caracteriza a medicina evolucionária ou darwiniana. A forma como comportamentos sociais atuais podem ter surgido devido a processos genéticos adaptativos e de estratégias comportamentais de defesa e proteção é o ponto central de estudo deste artigo.

As teorias evolucionárias podem ser aplicadas na área médica segundo duas vertentes de ideias: a teoria da descendência, pela reconstrução das histórias evolutivas, ou a análise das consequências da seleção natural, adaptações, vulnerabilidades e restrições. Uma vez os transtornos tendo ocorrido e se repetido, levantam-se questões a respeito dos motivos por não terem sido eliminados, o grau de vulnerabilidade humana a eles e a resposta fisiológica às patologias, ou seja, defesas adaptativas desenvolvidas ao longo da evolução.

O organismo evoluiu em condições diferentes das atuais e muitas patologias que hoje atingem níveis epidêmicos não ocorrem por acaso. O genoma e os fenótipos foram selecionados para ambientes paleolíticos diferentes dos atuais e a evolução cultural se tornou rápida se comparada aos ajustes genéticos, o que causou um desajuste entre a forma de vida paleolítica e a contemporânea, levando ao desenvolvimento das doenças da civilização. Os mecanismos de defesa biopsicossociais contra perigos e ameaças foram fundamentais para a sobrevivência e os transtornos mais frequentes, como os de ansiedade e depressão se relacionam com medos e estratégias adaptativas ancestrais.

As estratégias vantajosas advindas de padrões fisiológicos básicos persistiram, podendo-se então considerar que certas síndromes psiquiátricas atuais resultam de mecanismos adaptativos e estratégicos para se lidar com as mudanças da vida, sendo seu exagero e aparecimento em contextos inapropriados considerados patológicos (Cartwirigt HJ, 2001).

Manter-se em estado de vigilância e alerta a sinais de ameaça pode ter sido causa de uma enorme pressão seletiva. Para nossos ancestrais o papel adaptativo capaz de gerar melhor capacidade na detecção de uma ameaça específica foi fundamental para sobrevivência. As ameaças contemporâneas mais temíveis para o ser humano se encontram nas armas, veículos motorizados, acidentes e intoxicações. Contudo, pelos doentes fóbicos, esse medo se estende a espaços confinados, alturas, escuro e até mesmo a contextos interpessoais.

Provas suficientes já estão disponíveis para aceitar o conceito de que o cérebro reconhece as citocinas como sinais moleculares de doença. Entender a forma como o cérebro processa a informação gerada pelo sistema imunológico inato, acompanha uma elucidação progressiva celular e molecular formada por componentes do sistema que medeiam o “comportamento de doença” (sickness behavior) induzido por citocinas.

Melancolia-por Edvard Munch

Sickness Behavior consiste em um conjunto de sintomas comportamentais não específicos, como retraimento social, anorexia, anedonia, anergia, que aparece em indivíduos com doença aguda, acompanhando os sintomas somáticos de febre, dores no corpo, fadiga, etc. Este comportamento, que guarda semelhança com sintomas depressivos, é uma resposta adaptativa do organismo esculpida para facilitar o seu restabelecimento, uma resposta cerebral temporária aos sinais do sistema imunológico, que visa a conservação de energia do organismo durante o curso do “combate imunológico”, permitindo aos indivíduos doentes lidar melhor com uma infecção, ou inflamação aguda (Hart BL, 1988). O sickness behavior é desencadeado pelas citocinas pró-inflamatórias produzidas por células ativadas do sistema imune inato após contato com patógenos específicos associados a padrões moleculares (PAMPs). Estas citocinas incluem principalmente o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e as interleucinas (IL-1α, IL-1β, IL-6), para as quais os neurônios, a micróglia e os astrócitos têm receptores específicos.

O sickness behavior é um processo auto-limitado, citocinas anti-inflamatórias regulam a sua intensidade e duração, provavelmente por inibição da produção e por diminuição da sinalização de citocinas pró-inflamatórias.

O cérebro também traduz estresse psicossocial em ativação imunológica. A perturbação depressiva advém de uma resposta adaptativa, no contexto da competição por um mesmo objetivo, a exemplo das lutas por alimentos, parceiro, território ou posição social. Com a derrota ou subordinação forçada, inicia-se um processo inibitório interno levando o indivíduo a cessar a atitude competitiva, perder energia, ter humor depressivo, perturbações do sono, perder o apetite, tornar-se lento e manter sentimentos de insegurança, caracterizando o estado depressivo. A função dessa adaptação seria impedir que o derrotado sofresse mais prejuízos além de sua perda e assim fosse preservada a estabilidade social do grupo. (Carvalho S, et al., 2007).

Fear (http://www.thyroidcancercanada.org/creative-and-humour.php?lang=en)

Entretanto, no ambiente moderno, de alta competitividade e exigência, o stress psicossocial deixa de ser uma situação de exceção. Ainda que conscientemente não haja percepção de perigo, o cérebro envia constantemente sinais, desencadeando a resposta de “luta ou fuga”.

Interações neuroimunes levam a: disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (hipercortisolemia e densidade reduzida do receptor de glicocorticóide), ativação da enzima degradante triptofano-indolamina-2,3-dioxigenase-que gera metabólitos potencialmente neurotóxicos derivados de quinurenina, tais como 3-hidroxi-quinurenina e ácido quinolínico-, disfunção da neurogênese (por exemplo, apoptose neural e diminuição da produção de fatores neurotróficos), disfunção em neurocircuitos, envolvendo os gânglios da base e córtex cingulado anterior e disfunção neuroimune sistêmica (por exemplo, diminuição da proliferação, aumento da taxa de apoptose e função diminuída das células T) (Capuron et al, 2007; Dantzer et al, 2011).

Tanto o estresse prolongado como possivelmente episódios recidivantes de depressão e ansiedade exercem importante efeito sobre a plasticidade neuronal. A liberação de adrenalina e de glicocorticoides endógenos (como o cortisol) após o estresse pode causar dano neuronal, principalmente no córtex pré-frontal e no hipocampo. Episódios depressivos graves, recidivantes e de longa duração foram associados à redução do volume do hipocampo (Thome J, Eisch A, 2005).

Deste modo, a mesma resposta adaptativa neuroendocrinoimunológica, conservada durante milênios para situações esporádicas e de curta duração, torna-se contínua e com isso mal adaptativa e geradora das doenças do homem contemporâneo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

01-Arteni,N.S.; Alexandre Neto,C. Neuroplasticidade. In: Kapczinski, F;Quevedo, J.;Izquierdo,I. Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos. Porto Alegre: Artmed,2004.

02- Capuron, L., Pagnoni, G., Demetrashvili, M.F., Lawson, D.H., Fornwalt, F.B., Woolwine, B., Berns, G.S., Nemeroff, C.B., and Miller, A.H. (2007). Basal ganglia hypermetabolism and symptoms of fatigue during interferon-alpha therapy. Neuropsychopharmacology : official publication of the American College of Neuropsychopharmacology 32, 2384-2392.

03-Cartwirigt HJ. Evolutionary Exploration of Human Behaviour. New York: Routledge modular psychology, Taylor & Francis Group 2001. 

04 – Carvalho S, Pinto-Gouveia J, Pimentel P, Maia D: Mediation of depression by entrapment perception: through an evolutionary exploration (abst). World Congress of Behavioural and Cognitive Therapies, Barcelona 2007.

05-Dantzer, R., O’Connor, J.C., Lawson, M.A., and Kelley, K.W. (2011). Inflammation-associated depression: from serotonin to kynurenine. Psychoneuroendocrinology 36, 426-436.

06 – Hart BL. Biological basis of the behavior of sick animals. Neurosci Biobehav Rev 1988;12:123–137.

07– Plotkin, H. – Evolution in Mind : An Introduction to Evolutionary Psychology. Harmondsworth : Allen Lane, 1997.

08 -Sperber, D. –  Explaining Cultura: A Naturalistic Approach. Oxford : Blackwell, 1996. 

09-Thome,J.;Eisch,A.Neuroneogenese: Relevanz für Pathofisiologie und Pharmakotherapie psychiatrisher Erkrankungen. Der Nervenarzt, v. 76, p. 11-19, 2005.

 

 

2 thoughts on “Evolução e comportamento: aspectos adaptativos da depressão e da ansiedade- por Bruna Pedrozo Festa, Diogo Chaves Borges Campos, Jackeline Forbat Araujo, Neuza Maximiano de Pinho.

  • 16/10/2012 em 23:51
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    excelente o trabalho de voces ,parabens e continuem assim,sempre aprimorando o conhecimento

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