Trauma na infância e epigenética – por Murilo Bianchi Martins

Análise do Artigo: Epigenetic Alterations Associated with War Trauma and Childhood Maltreatment Ramo-Fernández L, Schneider A, Wilker S, Kolassa IT. Behav Sci Law. 2015;33(5):701‐721. doi:10.1002/bsl.2200

  1. INTRODUÇÃO

Pessoas que já sofreram de algum tipo de trauma de guerra ou maus-tratos na infância estão sob maior risco de desenvolver distúrbios do espectro do trauma, como por exemplo, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Além disso, o estresse pós trauma tem sido associado a alterações no sistema neuroendócrino e imunológico, aumentando o risco de doenças crônicas não transmissíveis.

Experiências traumáticas podem até afetar parâmetros psicológicos e biológicos na próxima geração, ou seja, o estresse traumático pode ter efeitos hereditários. O artigo em análise descreve como os processos epigenéticos, que representam um mecanismo biológico fundamental para a adaptação dinâmica aos desafios ambientais, podem contribuir para a explicação dos efeitos duradouros e hereditários do trauma. Em particular, alterações epigenéticas em genes que regulam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, assim como o sistema imune, foram observadas em sobreviventes de traumas na infância e em adultos. Essas mudanças podem resultar em alterações duradouras da resposta ao estresse, bem como do risco à saúde física. Além disso, os efeitos do trauma parental poderiam ser transmitidos para a geração seguinte pelo sofrimento dos pais e pelo ambiente pré e pós-natal, bem como pelas marcas epigenéticas transmitidas pela linha germinativa. Embora a pesquisa epigenética tenha um alto potencial de avançar a compreensão das consequências do trauma, as descobertas devem ser interpretadas com cautela, já que a epigenética representa apenas uma peça de um complexo quebra-cabeça de fatores biológicos e ambientais interativos. Desta forma, o objetivo dessa pesquisa é compreender a relação do trauma com a epigenética.

  • METODOLOGIA
    • TRAUMA

O trauma pode ser definido como um que ultrapassa a usual experiência humana, ou seja, algo que extrapola o limite da experiencia humana, podendo ser um abuso sexual, agressão física, emocional, negligencia, via experiencia pessoal, Experiência pessoal, testemunhar um acontecimento que envolve a morte, ferimento ou ameaça à integridade física (morte ou doença grave num familiar ou amigo próximo ). A resposta da pessoa ao acontecimento envolve medo intenso, impotência ou horror. A maioria das pessoas consideram que trauma é algo gerado por situações onde a vida de alguém está ameaçada, como em um acidente de carro, um assalto, violência sexual, morte de alguém querido, crises de pânico, ansiedade, etc.

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Estudos mostram que pessoas que sofreram de algum trauma apresentam maior risco de desenvolver distúrbios, como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou depressão. Esses distúrbios psicológicos podem ter um curso crônico e estão associados a baixos níveis de interação social, taxas mais altas de suicídios (Sareen et al., 2005; Stansfeld, Clark, Rodgers, Caldwell, & Power, 2010).

Os transtornos pós trauma podem ser caracterizados das seguintes maneiras: (1) re-vivência intrusiva do evento traumático na forma de sonhos recorrentes, pensamentos, sensações ou flashbacks, (2) evitação de potenciais pensamentos ou atividades lembrando o trauma, (3) entorpecimento emocional bem como alterações persistentes em humor e cognição e (4) um estado elevado de alerta ou excitação (American Psychiatric Association, 2013).

  • ESTRESSE E O MECANISMO DE LUTA OU FUGA

Estresse é o conjunto de reações do organismo a agressões de qualquer natureza (física, psíquica, trauma, infecciosa e outras) capazes de perturbar a homeostase do organismo.” (Broom, 1993) Homeostase é a manutenção do equilíbrio do meio interno do organismo, se dá por meio de uma série de sistemas funcionais de controle, envolvendo mecanismos fisiológicos e reações comportamentais.” (Cannon, 1929: Macari et al. 1994)

Entendendo esses principios vemos que nosso organismo interpreta um trauma como uma agressão. O mecanismo de luta ou fuga é ativado em resposta ao estresse (trauma). Esse estresse de forma aguda é metabolicamente normal, fisiológica  e necessária para nosso organismo, porém quando ocorre de forma crônica (como vemos nos transtornos pós trauma), acaba sendo prejudicial para o corpo.

2.4 HIPOSENSIBILIDADE/RUPTURA DO EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-ADRENAL

Quando sofremos um estimulo, que na grande maioria das vezes é ambiental, esse estimulo chega no Hipotálamo, que vai ativar a CRH, a CRH passando adiante, estimula a hipófise, a hipófise irá liberar um hormônio, o ACTH que irá pela corrente sanguínea chegar nas adrenais, sinalizando para as adrenais liberarem e produzirem mais cortisol.

Diante de um transtorno pós traumático, a pessoa via memórias, flashbacks, pensamentos, revive o trauma, gerando todo o estimulo do eixo HHA, isso de forma crônica irá causar doenças crônicas como diabetes, hipertensão, dislipidemias, pois o cortisol sendo liberado rotineiramente irá aumentar os ácidos graxos livres, a glicose sanguínea e a proteólise, que via mecanismo luta ou fuga, com objetivo de oferecer um maior disponibilidade energética para lutar ou fugir, pois nosso organismo só interpreta estímulos, não sabendo que era um falso aviso, com isso, essa grande quantidade energética produzida e sem uso desencadeará as doenças.

A hiposensibilidade ou ruptura do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal se apresenta pelo fato da grande quantidade de cortisol sendo liberado, por um processo de retro inibição ou feedback negativo, esse hormônio sinaliza para o hipotálamo e para a hipófise parar de produzir, secretar CRH e ACTH, desta forma, essa sinalização do cortisol corriqueiramente irá deixar os receptores hipossensiveis, rompendo o eixo HHA, se caracterizando como um estresse crônico.

2.5 EPIGENÉTICA

Mecanismos epigenéticos são modificações do DNA a longo prazo que não afetam a sequência, mas modulam a regulação e expressão gênica. O mecanismo epigenético mais descrito no contexto da psiquiatria é a metilação do DNA, que consiste na adição de um grupo metil a um resíduo de citosina seguido por guanosina (Jaenisch & Bird, 2003). As modificações epigenéticas são cruciais para o processo de diferenciação celular (ou seja, todas as células carregam o mesmo DNA, mas exercem diferentes funções).

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2.6 RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA COM O TRAUMA

Estudos apresentam que os principais genes que estão relacionados ao trauma e a epigenética são NR3C1 e o FKBP5.

Meaney, et al (1996), sugeriram que a regulação ambiental da expressão do gene do receptor de glicocorticóide (NR3C1) era mediada pela interação mãe-bebê, ou seja, a prole de mães carinhosas mostrou um aumento na taxa de expressão de NR3C1 e um nível mais baixo de metilação. McGowan et al (2009) apresentou análises dos cérebros de suicidas com histórico de maus-tratos na infância mostraram níveis mais altos de metilação do promotor NR3C1 em comparação com indivíduos que cometeram suicídio sem trauma na infância e pessoas que morreram de repente ou acidentalmente.

O FKBP5 pode estar associado a uma resposta prolongada ao estresse, pois ele diminui a sensibilidade dos receptores de glicocorticoides, uma vez que a ligação dos glicocorticóides aos seus receptores é essencial para a interrupção da resposta ao estresse por meio de um feedback negativo (Binder, 2009).

  • CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nos estudos, concluímos que o uso de terapias pode ajudar a melhorar o quadro de transtornos pós trauma, pois o acompanhamento juntamente com a influência ambiental são os principais fatores responsáveis pela metilação do DNA e expressão comportamental.

MURILO BIANCHI MARTINS– Licenciado e Bacharel em Educação Física. Possui experiência como treinador e instrutor de Academia (6 anos). Personal Trainer e Head Coach (CREF 8106-G/MS). Treinador Certificado pela World Top Trainers Certification (WTTC). Atualmente é Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (FCS-UFGD) com área de concentração em Farmacologia, com foco da pesquisa em treinamento, performance e intervenções para recuperação muscular.

  • REFERÊNCIAS

RAMO‐FERNÁNDEZ, Laura et al. Epigenetic alterations associated with war trauma and childhood maltreatment. Behavioral sciences & the law, v. 33, n. 5, p. 701-721, 2015.

Sareen, J., Cox, B. J., Afifi, T. O., de Graaf, R., Asmundson, G. J. G., ten Have, M., & Stein, M. B. (2005).

Anxiety disorders and risk for suicidal ideation and suicide attempts. Archives on General Psychiatry, 62(11), 1249–1257

Stansfeld, S. A., Clark, C., Rodgers, B., Caldwell, T., & Power, C. (2010). Repeated exposure to socioeconomic disadvantage and health selection as life course pathways to mid-life depressive and anxiety disorders. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 46(7), 549–558.

American Psychiatric Association (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders(5th ed. pp. ). Washington, DC: Author.

Jaenisch, R., & Bird, A. (2003). Epigenetic regulation of gene expression: How the genome integrates intrinsic and environmental signals. Nature Genetics, 33, 245–254.

McGowan, P., Sasaki, A., D’Alessio, A., Dymov, S., Labonté, B., Szyf, M., … Turecki, G. (2009). Epigenetic regulation of the glucocorticoid receptor in human brain associates with childhood abuse. Nature Neuroscience, 12(3), 342–348.

Binder, E. (2009). The role of FKBP5, a co-chaperone of the glucocorticoid receptor in the pathogenesis and therapy of affective and anxiety disorders. Psychoneuroendocrinology, 34(Suppl. 1), 186–195.

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