Transtorno de humor bipolar no idoso – por Elisabete Castelon Konkiewitz

O nosso humor varia e faz da gente gato e sapato. Não conseguimos controlar a nossa tristeza, quando ela vem. Não é possível desligá-la, clicando num botão de controle que nos reprograma para um estado mais agradável. Também a alegria, quando chega, vem como que nos inundando e preenchendo.

O estado afetivo controla o grau de cansaço, motivação, sono, disposição e vontade. Ele muda a forma como enxergamos os fatos, se lhes damos uma interpretação positiva, ou negativa. Muda a nossa interação com as pessoas, se nos mostramos amáveis e abertos, ou retraídos, desconfiados e até agressivos.

Há pessoas que sofrem oscilações de humor extremas, atingindo estados de tristeza profunda e estados de intensa alegria. Estas pessoas têm o transtorno de humor bipolar. Não se trata de momentos, mas de fases, períodos prolongados, nos quais a tristeza se acompanha de diversas mudanças no comportamento— como retraimento e ideação suicida—, prejuízo da capacidade de concentração, memória e raciocínio, do sono e do apetite. Nos períodos de euforia (em linguagem psiquiátrica, fases de mania), surgem comportamentos inadequados de extroversão excessiva, uso de roupas extravagantes, busca indiscriminada de parceiros sexuais, agitação, fala e pensamento acelerado, decisões inapropriadas, como compras, ou doações desmedidas, envolvimento erótico, brigas, etc.

Nas fases de depressão, o paciente tem autocrítica e compreende seu problema. Seu sofrimento é intenso e ele em geral aceita ajuda, embora se mostrando pessimista. Já nos períodos de mania, ele perde por completo a introspecção e se nega a qualquer tratamento. Na mania, a impulsividade é grande de forma que o paciente se expõe a comportamentos de risco, como uso de drogas, infrações de trânsito, endividamento, conflitos com a lei e sexo desprotegido.

Além do enorme sofrimento pessoal e familiar causado por períodos tão extremos de afetividade, ocorre dano cerebral, ou seja, as oscilações de humor se acompanham de sobrecarga metabólica e morte de neurônios (as células do sistema nervoso central). Por isso, o transtorno de humor bipolar tem um componente neurodegenerativo e leva no decorrer dos anos a perdas de funções intelectuais. O tratamento é medicamentoso e deve ser mantido por toda a vida. A medicação é neuroprotetora, impedindo a lesão neuronal excitotóxica.

Há diferentes graus de transtorno bipolar, alguns casos não são tão extremos, ou seja, envolvem oscilações de humor mais brandas e ou por períodos mais curtos. Ainda assim, o sofrimento é grande e o tratamento é necessário.

O lado positivo da moeda é a associação comprovada entre o traço de bipolaridade e a criatividade. Muitos gênios foram supostamente bipolares, como por exemplo, os escritores Virginia Woolf e Ernest Hemingway, o pintor Vincent van Gogh, o compositor Ludwig von Beethoven. No processo criativo a mente se abre e junta elementos desconexos, construindo ligações inéditas. Períodos de euforia moderada promovem associações incomuns, pois o pensamento vaga e a motivação é intensa. Da mesma forma, períodos de depressão moderada promovem introspecção, divagação e encontro de novos caminhos. Os dois polos são associados à produção criativa. Todavia quando intensas, tanto a mania, como a depressão são incapacitantes e impedem qualquer resultado. A primeira por desorganizar o pensamento e a segunda por estreitá-lo, lentificá-lo e até mesmo paralisá-lo.

“Você pode controlar um elefante enlouquecido. Você pode calar a boca de um urso e de um tigre. Você pode montar num leão e brincar com uma cobra. Pela alquimia, você pode aprender o segredo da vida eterna. Você pode passear pelo universo incógnito e fazer dos deuses os seus vassalos. Você pode permanecer sempre jovem, andar sobre as águas e viver dentro do fogo, mas o controle da mente é ainda melhor que tudo isso e bem mais difícil”

Paramahansa Yogananda (tradução livre da autora)

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