Depressão e trauma na infância em pessoas que vivem com HIV: um estudo de coorte transversal- PATRICIAH DAL MORO

RESUMO

A depressão e a dor crônica, em especial, a dor neuropática, são comorbidades frequentes entre pessoas vivendo com HIV (PVHIV), apresentando taxas de prevalência significativas variando de 25% a 36%. As PVHIV apresentam proporção maior que a população geral de antecedente de trauma na infância e este fato pode contribuir para as altas taxas de comorbidade neuropsiquiátrica deste grupo, uma vez que vivências traumáticas na infância, como mortes, separação ou abandono são importantes fatores associados à depressão e à dor crônica na vida adulta. Sendo assim, este estudo de coorte transversal visou, por meio da apresentação de dados do Serviço de Atendimento Especialização (SAE) em Dourados (Brasil), determinar a correlação entre o trauma na infância e a dor neuropática em pacientes com HIV e depressão. Os pacientes foram selecionados a partir de dados de um estudo transversal anterior, no qual haviam sido recém-diagnosticados com a infecção pelo HIV e submetidos à avaliação através do Inventário de Depressão de Beck (BDI) entre os anos de 2010 e 2012. No estudo atual, estes mesmos pacientes foram avaliados em relação à presença de história de trauma na infância por meio do Questionário de Trauma na Infância e de dor neuropática através do Questionário de McGill. Os resultados mostraram que não houve associação entre os graus de depressão e o número de linfócitos T Aux. (CD4/mm3), trauma na infância, ou dor neuropática, porém houve associação entre o valor da carga viral e o grau de depressão. Apesar de não ter atingido significância estatística, merece destaque o achado de que 50% das PVHIV avaliadas apresentaram trauma na infância em grau moderado a grave e 50% também apresentaram depressão grau moderado a grave, com sobreposição desses dois grupos, ou seja, os indivíduos com trauma na infância de grau moderado a grave apresentaram graus de depressão de moderado a grave. Dor neuropática foi referida por 41,4% das PVHIV avaliadas, mas não apresentou correlação com os níveis de depressão, ou histórico de trauma na infância. Na comparação entre as medianas dos escores de Trauma na Infância, observou-se maiores valores no domínio abuso sexual nas pessoas com depressão grave e maiores valores no domínio negligência emocional naquelas com depressão moderada. O estudo teve como limitações o tamanho da amostra, pois dos 150 pacientes inicialmente avaliados em estudo transversal anterior em relação à depressão, apenas 70 foram reavaliados em relação ao trauma na infância e a dor neuropática. Dos 80 pacientes faltantes para a reavaliação vale ressaltar que alguns faleceram, outros mudaram de cidade e/ou estado, ou mudaram os dados para contato. Outro fator limitante do estudo foi o delineamento transversal, que limita a inferências causais e o monitoramento das variáveis a longo prazo. Apesar da ausência de significância estatística, os achados apontam para a alta prevalência de histórico de trauma na infância, depressão e dor e em PVHIV e para a necessidade de melhor compreensão de como esses elementos se correlacionam na biografia desse grupo de pacientes.

Palavras-chave: Trauma na infância. HIV. Dor neuropática. Depressão.

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