O que é puberdade?

O que é puberdade?

Gabrielle Rabelo*

Vamos falar sobre a Puberdade? Em primeiro lugar, vale fazer uma diferenciação: a puberdade ocorre durante a adolescência, sendo o processo mais importante e notório desse período, mas as duas palavras não querem dizer a mesma coisa.

De forma geral, a puberdade é apresentada como um fenômeno biológico que gera mudanças físicas e comportamentais no adolescente, indicando o início da passagem da infância para a vida adulta. Ela não é a adolescência, mas o processo mais importante e notório desse período em que meninas e meninos atingem a capacidade reprodutiva, acontece como consequência da ação de hormônios e do amadurecimento dos órgãos sexuais, que estimulam várias mudanças corporais como, por exemplo, o crescimento e o desenvolvimento de características sexuais secundárias (seios, pênis, pêlos faciais, pêlos pubianos e modificação da voz). Essas mudanças são causadas pelos efeitos dos hormônios circulando pelo corpo, incluindo o cérebro, e fazendo com que ele amadureça. É por isso que quando se fala em “hormônios em ebulição” na adolescência não estamos brincando! Algumas consequências também estão longe de ser brincadeira, uma vez que os órgãos sexuais estão prontos e a lógica da natureza é a reprodução.

A puberdade se desenvolve de maneiras diferentes entre meninos e meninas. Isso acontece como consequência dos hormônios que prevalecerem no corpo de cada um. Os corpos das garotas, na grande maioria das vezes, ganham seios e curvas pela ação do estrogênio e da progesterona, enquanto os dos meninos ganham barba e vozes mais grossas como características secundárias, influenciados pela testosterona. Obviamente, essa distribuição dos hormônios varia de um indivíduo para o outro. Porém, a mudança principal da puberdade ocorre internamente com o amadurecimento dos órgãos reprodutores. Com isso, as meninas passam a menstruar e os meninos a produzir esperma, marcando o início da maturidade sexual do ponto de vista biológico.  

Nesse momento de transição, o corpo começa a liberar também um hormônio chamado gonadotrofina, que é um dos hormônios responsáveis por muitas dessas alterações.  Não só isso, a alta liberação desencadeia o aumento da secreção dos hormônios sexuais (testosterona, progesterona e estrogênio), que, por sua vez, faz com que o cérebro do adolescente seja remodelado, ativando alguns circuitos neurais, que são células neurais que se conectam para gerar uma resposta.

Outros fatores podem influenciar na manifestação da puberdade. A alimentação, o ambiente e até mesmo o contexto sociocultural podem retardar ou acelerar o aparecimento da puberdade e alterar a sua duração. Isto sem falar nas influências decorrentes da hereditariedade, períodos pré e pós-natal, padrões de sono, medicações usadas e até mesmo intervenções cirúrgicas durante a infância. Podemos somar a isso, ainda, situações de estresse físico e mental; abuso de drogas (como a cafeína, a nicotina e o álcool); e os hormônios sexuais já citados. Tudo isso pode influenciar o desenvolvimento e a maturação do cérebro do adolescente. Alguns estudos realizados com o uso de ressonância magnética sugerem que circuitos neurais e a formação de mielina permanecem em construção durante a puberdade, uma vez que esses eventos, ligados ao desenvolvimento e maturação do sistema nervoso central (SNC), são regulados por todos esses fatores.

A mielina é responsável acelerar a passagem do impulso elétrico isolando pedaços do neurônio, assim, o caminho percorrido pelo sinal fica menor e a comunicação se torna mais rápida.

Não só mudanças físicas marcam esse período de transição, pois nessa fase o adolescente passa por mudanças psicológicas e sociais que mudam completamente a forma como ele enxerga e se posiciona nesse novo mundo cheio de possibilidades. Os amigos se tornam parte importante da vivência. Os primeiros interesses românticos, por exemplo, surgem tanto como reflexo das mudanças biológicas, quanto socioculturais. E o adolescente precisa descobrir como se colocar e lidar com essas mudanças. Educadores costumam relatar que percebem essas alterações nos estudantes, principalmente, na passagem do 7º para o 8º ano do Ensino Fundamental para meninas e na passagem do 8º para o 9º ano nos meninos. É nessa fase que os estudantes, normalmente, diminuem o foco nos estudos e aumentam no namoro.

Também é durante a puberdade que o sistema de tomada de decisões começa a se desenvolver para formar um cérebro adulto, esse sistema ainda em desenvolvimento vai gerar comportamentos típicos da adolescência, como a impulsividade. O córtex pré-frontal não está totalmente formado o que afeta a tomada de decisão. Um dos grandes responsáveis pelo sistema de tomada de decisão é o córtex pré-frontal, ele age como uma balança para pesar possíveis benefícios e consequências de uma ação e decidir se ela é benéfica ou não, mas como essa estrutura não está completamente formada o adolescente acaba agindo impulsivamente sem levar muito em consideração as consequências. Esse comportamento pode ser perigoso, toda essa impulsividade torna os adolescentes mais suscetíveis a usar drogas, ter relações sexuais sem preservativo ou exagerar no consumo de álcool mas também é importante pois é parte do que faz o adolescente ser mais aberto a novas experiências.

Referências

BAR-SADEH, B., RUDNIZKY, S., PNUELI, L., BENTLEY, G.R., STOGER, R., KAPLAN, A., MELAMED, P. Unravelling the role of epigenetics in reproductive adaptations to early-life environment. Nat Rev Endocrinol. 2020 Sep;16(9):519-533. doi: 10.1038/s41574-020-0370-8. Epub 2020 Jul 3. PMID: 32620937. http://www.abennacional.org.br/revista/cap3.2.html 

BLAKEMORE, S.J., BURNETT, S. e DAHL, R.E. (2010), The role of puberty in the developing adolescent brain. Hum. Brain Mapp., 31: 926-933. https://doi.org/10.1002/hbm.21052 

Herculano-Houzel, S. O Cérebro Adolescente: A neurociência da transformação da criança em adulto. EBook Kindle. 

OLIVEIRA, J.M.A.P.P. e PAIS, L. G. Tomada de decisão na adolescência: do conflito à prudência. In: Crianças e adolescentes: uma Abordagem Multidisciplinar. Editors: A. Castro Fonseca. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/307937551_Tomada_de_decisao_na_adolescencia_do_conflito_a_prudencia

* Gabrielle Rabelo – Graduanda de Ciências Biológicas (modalidade médica), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Rio de Janeiro (RJ).

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