Uma olhada nos cérebros e comportamentos de adolescentes

Uma olhada nos cérebros e comportamentos de adolescentes

Por Glaucio Aranha

Já vimos na matéria sobre Assincronia de Maturidade que alguns adolescentes podem apresentar um quadro de maturidade diferente daquele esperado para a sua idade cronológica. É importante, todavia, ter em mente que a própria adolescência é, em si, uma fase de transição no desenvolvimento físico e psicológico dos seres humanos, havendo diferentes ritmos desse desenvolvimento. Assim, trata-se de uma jornada do sujeito que deixa de ser criança e entra em uma fase de transformação que o conduzirá à maturidade, à idade adulta. Essa transição não é simples, repercutindo em múltiplas dimensões, dentre as quais o amadurecimento do cérebro e do comportamento do adolescente. Vamos, então, dar uma olhada em alguns aspectos neurofisiológicos relacionados com o cérebro e comportamento dos adolescentes.

É possível dizer que o cérebro dos adolescentes é imaturo em relação ao seus corpos, comparando, nesse sentido, o sistema nervoso a outros sistemas como o circulatório, o respiratório e outros. Ocorre que, na fase da adolescência, a maturação do cérebro humano está passando por numerosas transformações e ainda está desenvolvendo certas áreas e funções, a partir das influências multidimensionais, como aquelas provenientes do sistema endócrino e do ambiente.

Nesta série de imagens de varreduras cerebrais feitas com indivíduos de 5 a 20 anos, vemos as áreas azuis que indicam redes mais maduras e eficientes dentro do cérebro. Na adolescência, o cérebro amadurece rapidamente, começando com a percepção espacial (linha central visível de cima). As áreas frontais, que estão associadas ao pensamento crítico e ao planejamento, continuam a se desenvolver da adolescência até o início dos 20 anos, e o lobo temporal, localizado na curva inferior, que está associado ao aprendizado e à memória, está entre as últimas áreas a amadurecer completamente. Fonte: “Dynamic Mapping of Human Cortical Development During Childhood Through Early Adulthood,” Proceedings of the National Academy of Sciences

As mudanças cognitivas e comportamentais podem constituir um período de muita turbulência e, em alguns casos, fazendo aparecer alguma psicopatologia. Daí a importância de compreender mecanismos e influências da maturação do cérebro adolescente para intervenções mais eficazes em caso de doenças e na otimização de um desenvolvimento saudável.

A Dra. Lucia Fontanella, no artigo Neurologia na Adolescência, destaca que algumas doenças neurológicas irão se iniciar, especialmente nesse período, na maioria das vezes de forma menos agressiva do que aquelas que surgem no início do desenvolvimento, mas nem por isso menos relevantes. Podemos incluir entre essas doenças as epilepsias, as quais em geral podem ser controladas com os anticonvulsivantes convencionais, as encefalopatias progressivas, que costumam ter uma evolução mais lenta e menos debilitante, bem como os tumores do sistema nervoso que, durante a adolescência, podem estar relacionadas com areas cerebrais mais acessíveis à manipulação cirúrgica, levando a melhores resultados terapêuticos. Alguns quadros psicológicos também tendem a ser diagnosticados na adolescência, como, por exemplo, a esquizofrenia. E não é sem razão, pois como dito antes, o sistema nervoso ainda está em transformação e pleno desenvolvimento e uma pequena alteração no quadro desenvolvimental pode levar a uma reconfiguração do desenvolvimento mais comum, mais típico.

Além das transformações biológicas que podem afetar a cognição, há, ainda, aspectos emocionais e comportamentais que são afetados durante a adolescência, impactando nos processos de tomada de decisão do adolescente. Por esta razão é uma fase comum para o surgimento e diagnóstico de alguns transtornos psiquiátricos. É possível citar quadros como a ansiedade, as psicoses, os transtornos de humor, de personalidade e até mesmo alimentares como, muitas vezes, relacionados a esta etapa da vida. Por essa razão, é importante manter-se atento aos desvios comportamentais, diferenciando aqueles que são inerentes à adolescência de casos mais graves que podem apontar a necessidade de avaliação e possível intervenção por um profissional qualificado (médico, psicólogo etc.).

Do ponto de vista neuroanatômico, já se sabe que até a chegada à terceira idade há um contínuo aumento do volume da substância branca no cérebro, que vai desacelerando à medida que a pessoa envelhece. Por outro lado, também já se sabe que durante a infância e a adolescência se atinge o pico deste aumento. Isto causa uma intensa alteração nos planos funcional e estrutural, nas conexões sinápticas, nos processos de integração e até mesmo no equilíbrio entre as funções límbicas, subcorticais e do lóbulo frontal.

Mas você pode estar se perguntando: e não há nada bom acontecendo? Na verdade, todas essas mudanças são boas – salvo as que levam às doenças, obviamente -, pois elas estão ocorrendo para que o organismo complete sua transição no sentido de constituir-se como um ser humano maduro, plenamente preparado para sobreviver, do ponto de vista orgânico. Assim, a maturação do cérebro dos adolescentes se constitui como uma fase de mudanças espetaculares, no que diz respeito à plasticidade neural envolvida.

Não é a toa que muitos adolescentes possam passar por experiências de grandes instabilidades, pois o próprio organismo está vivenciando um momento de alta instabilidade e transformações.


Glaucio Aranha – Professor Adjunto do Instituto NUTES de Educação em Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Presidente e pesquisador associado da associação civil, sem fins lucrativos, Organização Ciências e Cognição (OCC). Pesquisador associado ao Ciências e Cognição – Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências (CeC-NUDCEN/UFRJ).

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