Empatia: construindo interações sociais ao ligar nossas vidas emocionais

Empatia: construindo interações sociais ao ligar nossas vidas emocionais

Gláucia Batista de Barros *

Como seres sociais, os humanos têm a habilidade de adaptar seu comportamento para caber em seus contextos existenciais. Seja em uma situação na qual estejamos nos encontrando com colegas, conduzindo uma entrevista de emprego ou ajudando um amigo que passou por uma perda. Diferentes situações requerem uma modulação da nossa fala e de nossas respostas comportamentais, tal como proximidade física e até contato visual – por exemplo, quando abraçamos alguém que está passando por uma dor, um luto, e a olhamos com expressão de lamento. Apesar dessa aparente complexidade, a adaptação social não é só sobre um processo de tomada de decisão, mas um caminho inconsciente para se entender certas exigências do meio. Esse processo requer um tipo de habilidade inata, isto é, natural; algo que muitos conhecem pelo nome empatia

Podemos definir empatia como a habilidade de gerar representações compartilhadas de estados de afeição por outrem. Em outras palavras, empatia ocorre quando somos capazes de ver o mundo pelos olhos de outros. É uma experiência substitutiva (indireta) que permite a alguém compartilhar sentimentos experimentados por aqueles que rodeiam a pessoa, e ainda gerar respostas comportamentais que consigam condizer com a situação, ao substituir o indivíduo ao qual nos referimos por nada mais que nós mesmos, realmente nos pondo no lugar dessa pessoa. Para explicar como isso é possível, vários neurocientistas sociais têm sugerido que a empatia incita, isto é, estimula, respostas cerebrais e atividade neural similar a experimentada diretamente, ou seja, pessoalmente. Graças ao desenvolvimento e avanços das técnicas da neuroimagem, pesquisadores têm sido capazes de explorar a base neural da empatia. Vamos dar uma olhada nas últimas descobertas? 

Empatia nos adolescentes 

A partir de uma pesquisa desenvolvida por Giselle Pessoa, estudante de Psicologia, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sob a orientação da professora Shirley Simeão, especializada em terapia cognitivo-comportamental, pode-se concluir que muitos adolescentes apresentam baixa empatia. O estudo em questão recebeu um prêmio no Seminário Internacional de Habilidades Sociais, em São Luís, no Maranhão. ‘’De acordo com a pesquisa, 42,6% dos jovens apontam déficit de empatia e 31,1% mostraram ter alguma dificuldade no desenvolvimento de relações afetivas. A insuficiência nesses aspectos cognitivos e afetivos, segundo as pesquisadoras, pode resultar em dificuldades de interação social ‘’, menciona Carlos Germano (2019). 

“A princípio, os jovens foram submetidos a uma avaliação individual, através de entrevistas. Também foi aplicado o Inventário de Habilidades Sociais para Adolescentes (IHSA), instrumento capaz de atestar o desenvolvimento social e emocional desse grupo social. Após constatar os altos índices, as pesquisadoras sugerem a utilização de programas de intervenção, que consistem na capacitação de habilidades sociais por meio de práticas pedagógicas.” (GERMANO, 2019).

É interessante, porém, mencionar que a pesquisa contou com a participação de jovens de até 13 anos, e que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define adolescência como sendo o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos completos; sendo a pré-adolescência – dos 10 aos 14 anos, e a adolescência – dos 15 aos 19 anos completos, podendo abranger jovens adultos de até 21 anos. Isto pode indicar limitações importantes para as conclusões apontadas.

Hoje se sabe que o córtex pré-frontal não está totalmente desenvolvido até a idade em que se considera a fase jovem-adulta, em geral por volta dos 20 anos de idade, com algumas exceções, podendo chegar até os 25. 

A empatia pode ser desenvolvida, já na infância, a partir da estimulação das interações sociais, desde o contexto familiar até, quando necessário por algum déficit ou transtorno, a intervenção de profissionais. Pessoas que possuem características como altruísmo e afetuosidade tendem a estar mais aptas para reconhecerem e aceitarem o estado emocional das outras, uma vez que possuem regiões importantes do cérebro mais ativas, como o córtex pré-frontal. Este e outros fatores observados por diversos estudos levam à conclusão de que é normal uma certa falta de empatia nos jovens, porque ainda estão em processo de desenvolvimento de muitas áreas cerebrais, inclusive na que corresponde à empatia, isto é, o córtex pré-frontal. 

Além disso, a empatia pode ser construída, e a partir daí elaborada em níveis mais amplos de solidariedade e compaixão. Em postagens futuras dessa série de matérias sobre empatia, irei desenvolver mais a respeito desse aspecto, mas por hora, entender isso que foi exposto pode ajudar a montar estratégias pedagógicas voltadas a interações sociais, estimulando a socialização dos jovens entre si e explorando esse desenvolvimento. Afinal, baixa empatia não quer dizer necessariamente antipatia; apenas significa, na maior parte dos casos, um processo natural da vida humana de entender o mundo, enquanto vivenciamos as alterações do corpo; meio através do qual experimentamos as coisas que se fazem presentes ao nosso redor.  

Na adolescência, com tantas mudanças corporais, o indivíduo passa a ser estranho para si mesmo. Isto porque o organismo exige do adolescente um trabalho constante de autorreflexão, que muitas vezes leva à introspecção, mas sobretudo a um autoconhecimento. Quando este estado de autoconhecimento é atingido pode, sim, fazer com que este adolescente seja mais empático com o mundo, ao passo que se aceita e se apaixona por si mesmo, e as mudanças passam, chegando, finalmente, à fase adulta. Afinal, de acordo com o Oxford Languages, empatia significa em geral duas coisas:  

1. faculdade de compreender emocionalmente um objeto (um quadro, p.ex.); e 

2. capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto e/ou sujeito, de forma que este pareça impregnado dela. Afinal, podemos sentir empatia por qualquer coisa, como veremos nos próximos textos que sobre empatia aqui no NeuroTeen. 

Mas de onde vem o nome Empatia e o que significa?

Etimologicamente, a palavra empatia é formada pela junção de EN- (“em”), mais PÁTHOS. O termo em grego empátheia (εμπάθεια), significa literalmente “em paixão”, caracterizando um estado de ânimo. A empatia envolve três campos: afetividade, cognição e regulação emocional. Ela pressupõe uma comunicação afetiva com outra pessoa, sendo uma das bases da identificação e entendimento psicológico de outros indivíduos. 

Aristóteles costumava usar o termo “em-pathein” no sentido de “animação do inanimado”. Já o psicólogo alemão Theodor Lipps (1851-1914) usou pela primeira vez na história, no início do século XX, o termo alemão Einfühlung no sentido estético, a fim de indicar a relação entre o artista e o espectador, o qual projeta a si mesmo na obra de arte. Aliás, a título de curiosidade, ‘’a noção de estética, antes de ter sido associada com a arte e com o belo, derivou do grego aisthesis ou aestesis, […] [que] significa a capacidade de sentir o mundo, compreendê-lo pelos sentidos, é o exercício das sensações” (ALMEIDA, 2015, p. 134). 

Voltando ao assunto da empatia, num momento em que o córtex pré-frontal está ainda em desenvolvimento, é bom que não se espere dos jovens muito manejo vocabular e comportamental para lidar com interações diversas. Tal como acontece com as crianças, famosas por sua língua indiscreta, que falam o que vier à cabeça, e muitas vezes com uma sinceridade incômoda aos que a ouvem. É importante, então, que haja uma compreensão de que isso não é feito com o propósito de machucar a pessoa a quem a criança se refere, mas que, muitas vezes, aquela atitude simplesmente denota que ela ainda não tem o filtro cerebral e vocabular que nos possibilita dosar as palavras para nos comunicar com quaisquer pessoas com as quais interagimos. Então, em relação aos adolescentes, seria possível argumentar que a empatia se faz difícil por mais outro fator, mencionado anteriormente: a mudança corporal recorrente.  

Com esse trabalho constante que é exigido nesta etapa da vida humana, e que conhecemos por vivência própria, é complicado ter páthos (no sentido grego de paixão) pela própria persona que somos. Logo, pode ser um pouco difícil, principalmente para o jovem, o exercício de nos colocar no lugar de outro, quando mal entendemos o nosso próprio lugar no mundo, o nosso corpo e a vida que nos espera no futuro. Portanto, tudo o que foi abordado até aqui pode ser resumido como um processo natural do desenvolvimento humano no âmbito psicológico e neurobiológico e que nos afeta muito na socialização.

Deste modo, é importante estabelecer formas de ajudar as crianças e os adolescentes a lidar com as dúvidas e angústias que surgem na juventude, por meio de atividades que os estimulem a desenvolver maior socialização e entendimento do outro, a fim de treinar a empatia. Nas próximos textos dessa série sobre empatia, terei oportunidade de abordar este tema mais amplamente, falando de suas interações com sentimentos de raiva, desejo por vingança e dores, além de tocar em um assunto importante: o bullying e sua relação com a falta de empatia nos adolescentes. Por hora, deixo aqui uma reflexão: empatia é deixar a voz de outro ecoar dentro de nós até que pareça que a voz também é nossa, que o riso é nosso, que o choro é nosso… E talvez, de alguma forma, realmente seja. 

Referências 

Bedore, R. C.; Beccari, M. N. (2017). Aisthesis: uma breve introdução à estética dos afetos. Revista GEARTE, Porto Alegre, v. 4, n. 3, p. 487-498, set./dez. 2017. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/gearte 

Bernhardt, B. C., & Singer, T. (2012). The Neural Basis of Empathy. Annual Review of Neuroscience, 35(1), 1-23. 

Di Pellegrino, G., Fadiga, L., Fogassi, L., Gallese, V., & Rizzolatti, G. (1992). Understanding motor events: a neurophysiological study. Experimental Brain Research, 91(1), 176–180. 

Germano, C. (2019) Pesquisa da UFPB indica falta de empatia nos adolescentes: Défice pode resultar em dificuldades de interação social. InPesquisa da UFPB indica falta de empatia nos adolescentes: Défice pode resultar em dificuldades de interação social. Ministério da Educação – MEC, 18 nov. 2019. Disponível em: Governo Federal. Acesso em: 30 jul. 2021. 

Keysers, C., & Gazzola, V. (2007). Integrating simulation and theory of mind: from self to social cognition. Trends in Cognitive Sciences, 11(5), 194–196. 

Lamm, C., Decety, J., & Singer, T. (2011). Meta-analytic evidence for common and distinct neural networks associated with directly experienced pain and empathy for pain. NeuroImage, 54(3), 2492-2502. 

Rizzolatti, G., Fogassi, L., & Gallese, V. (2001). Neurophysiological mechanisms underlying the understanding and imitation of action. Nature Reviews Neuroscience, 2(9), 661–670. 

Singer, T., Seymour, B., O’Doherty, J., Kaube, H., Dolan, R. J., & Frith, C. D. (2004) Empathy for pain involves the affective but not sensory components of pain. Science, 303(5661) 1157-1162. 

Singer, T., Seymour, B., O’Doherty, J. P., Stephan, K. E., Dolan, R. J., & Frith, C. D. (2006). Empathic neural responses are modulated by the perceived fairness of others. Nature, 439(7075), 466-469. 


Nota

O ponto de partida deste texto foi a tradução do artigo “Empathy: Building social Interactions By Linking Our Emotional Lives” (Miguel Omar Belhouk Herrero, 2021). Todavia, a partir do trabalho de tradução foram surgindo novos parágrafos, desenvolvendo mais o tema da empatia em diálogo com essa obra base. O link para o artigo original, em inglês, é o seguinte: https://knowingneurons.com/2021/03/29/neural-basis-of-empathy/

* Gláucia Batista de Barros

É graduanda no curso de Saúde Coletiva, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e aluna extensionista no projeto Redeneuro (Rede de Estudos em Neuroeducação). Autora do livro de ficção “O Segredo dos Barsala”.

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