Criatividade e experiência de vida

Criatividade e experiência de vida

Kamille Caiaffa e Glaucio Aranha

A palavra criatividade é muito utilizada no dia a dia. Provavelmente, conhecida por todos, ainda que seja possível encontrar diversas interpretações para o termo. Para alguns, uma pessoa criativa é aquela que mistura elementos diferentes, faz um desenho original, dá um outro sentido para objetos, sabe fazer comidas divertidas de ver etc. No mundo do trabalho, por exemplo, criativa costuma ser considerada aquela pessoa que lida melhor com conflitos, resolve problemas com facilidade, sabe propor boas ideias, consegue enxergar inúmeras alternativas/possibilidades para solucionar uma mesma questão. E, nesse sentido, as pessoas vistas como criativas acabam recebendo um olhar diferenciado, muitas vezes sendo mais reconhecidas que outras. Mas será que criatividade é apenas a habilidade de inovar?

Etimologicamente, a expressão “Criatividade” tem sua origem no latim, mais precisamente no termo creare, que significa “formar”, “produzir” [i]. Então, podemos imaginar que a criatividade está relacionada mais com realização do que com inovação propriamente dita. É bom ter em mente que o conceito vai variar de área para área, nas neurociências, na administração, nas artes etc. Vamos então fazer uma panorâmica e ver algumas das formas de entendimento, partindo das mais clássicas até as mais modernas?

Brewster Ghiselin

Em 1952, Brewster Ghiselin, no livro O Processo Criativo (The creative process), entendeu a criatividade como um processo de mudança, de desenvolvimento e de evolução na organização da vida subjetiva de uma pessoa. Ou seja, o processo através do qual uma pessoa vai se reorganizando internamente e se adaptando. Interessante, não? Não é apenas uma questão de fazer algo inovador, mas de se reinventar. Mas você acha que termina aí? Claro que não.

O conceito de Ghiselin é um entre tantos que vieram ante e depois dele. Vale lembrar que já no século XVIII haviam conceituações e questionamentos que buscavam entender os fenômenos da criatividade, da originalidade e da imaginação, no ápice do momento histórico conhecido como Romantismo, no qual a ideologia do “novo” era muito presente. Nesse contexto, a ideia de criatividade vinha associada fortemente com a ideia de loucura – ou pelo menos uma loucura sob controle –, de irracionalidade da criação artística. Assim, por exemplo, a figura do Gênio Criativo era muito forte no imaginário da época.

Existe ainda hoje quem atribua a criatividade a um aspecto naturalmente presente em crianças e adolescentes, as quais teriam – supostamente – uma profunda capacidade criativa natural, mas não é bem assim. O psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934) concluiu que a criatividade está atrelada à capacidade imaginativa de recombinar elementos a partir de repetições. Assim, haveria uma relação dela com a experiência de cada indivíduo, ou seja, trata-se de uma capacidade diretamente relacionada com os recursos cognitivos e vivenciais de cada pessoas que propiciam condições diferentes para o exercício do potencial criador.

Na obra Imaginação e criatividade na infância, Vygotsky revela, entre outras coisas, como o ambiente influencia o processo imaginativo. Quanto mais estímulos, maior é o repertório de informações e a possiblidade de rearranjá-las de maneiras diferentes. Logo, indo contra o senso comum, a criança e o adolescente não teriam uma inata e profunda capacidade imaginativa, justamente por terem uma experiência menos vasta e complexa. Mas por que temos essa sensação de que elas são mais criativas? Bem, o que ocorre é que esses grupos estão menos presos às nossas travas culturais, menos condicionadas e conseguem, por isso, fazer combinações inusitadas, incomuns, de uma maneira não convencional com o pouco repertório que têm. Deste modo, expressam sua capacidade imaginativa mais “pobre” por percursos cognitivos mais “ricos”, mais livres.

Lev Vygotsky

Pensando, então, na criatividade como uma capacidade atrelada à experiência e à experimentação, vamos pensá-la em relação a um grande nome da cultura ocidental: Leonardo da Vinci. Ele foi um grande artista Italiano do Renascimento (período que durou, aproximadamente, do séc. XIV ao XVI), e fez parte de um período em que floresceram outros grandes artistas como: Michelangelo, Rafael e outros. Ainda hoje da Vinci nos fascina por ter sido, além de uma grande artista, um grande estudioso. Ele nāo se limitou à produção artística, mas, acima de tudo, é lembrado por ser um homem inquieto, experimentador e um profundo estudioso, que o levou a ter um repertório cognitivo que favorecia-o a encontrar soluções diferentes para novas questões, a ser criativo.

Seus biógrafos informam que, quando algo deixava de ser difícil, da Vinci partia para outros desafios. Por consequência, muitas vezes deixava por fazer obras que haviam sido encomendadas, em função de um novo projeto, o que o prejudicou, inclusive, deixando-o com a má fama de não cumpridor de seus compromissos. Tal fato, entretanto, em nada atrapalhava sua fantástica produção (quando concluída).

Justamente devido aos experimentos, escritos, observações e riqueza de campos de atuação, ele foi capaz de exercer plenamente seu potencial criativo, permitindo-lhe criar obras e inventos fenomenais para o seu tempo. Por exemplo, através da observação e do estudo do voo dos pássaros e morcegos, da Vinci criou equipamentos que anteciparam o avião e o helicóptero. Isso demonstra o quão importante é ter e viver um ambiente que estimule a imaginação criativa.

Como dito aqui, da Vinci não se limitou a uma área. Além de pintor, foi músico, cientista, escultor, engenheiro e mais. Realizou, ainda, desenhos de anatomia por meio de um estudo cuidadoso e de alto nível de observação e fidelidade. Curiosamente, podemos destacar inclusive seu interesse por temas que hoje estão sendo estudados pelas neurociências: estímulos sensoriais, funcionamento dos sentidos e muito mais. Mas, independente da área que recebeu maior ou menor atenção de da Vinci – afinal, ele se voltou para várias -, é possível observar nele uma forte vontade de compreender o mundo ao seu redor, criando um repertório cognitivo, que o capacitou para lidar criativamente com diferentes questões: do corpo humano à criação de armamentos de guerra. Portanto, podemos concluir que a exposição, repetição e estimulação são muito importantes para que o indivíduo consiga expandir sua capacidade criativa, tornando-a cada vez mais complexa.

Criatividade e o cérebro

Pesquisas neurológicas realizadas durante a década de 1950, em pacientes com epilepsia, após serem submetidos à cirurgia de separação dos dois hemisférios cerebrais, levaram a importantes descobertas que abriram muitas possibilidades de pesquisa na área da criatividade.

Roger Beaty

Segundo Cecilia Barria, uma pesquisa recente realizada pelo grupo de pesquisa de Roger Beaty (especialista em neurociência cognitiva, pela Universidade Harvard), a criatividade é inerente a todas as pessoas e hoje já temos muitos estudos acadêmicos que buscam entender quais são as zonas do cérebro relacionadas com a criatividade e seu funcionamento. Beaty estudou o comportamento de redes neurais em 163 pessoas, usando ressonâncias magnéticas funcionais (fMRI) para tentar obter imagens das atividades neurais em variadas áreas do cérebro. Em sua pesquisa, buscou entender os procedimentos envolvidos durante o processamento do pensamento, da linguagem figurativa, da improvisação musical, da composição literária e de outras atividades durante a realização de atividades que envolviam habilidades artísticas e criativas.

Em nossos próximos posts sobre criatividade iremos entrar mais dentro desse instigante campo de estudos que tem um nome: a neuroestética.

Referências Bibliográficas

Ghiselin, B. (1952). The creative process. New York: Mentor.

Steven Bindeman (1998) Echoes of Silence: A Phenomenological Study of the Creative Process, Creativity Research Journal, 11:1, 69-77, DOI: 10.1207/s15326934crj1101_9

Vygotsky, Lev. Imaginação e criatividade na infância. São Paulo: Martins Pontes, 2014.

Referências Webgráficas

Barría, Cecilia. Como funciona o cérebro das pessoas criativas. BBC News. 21 fev 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43148020

Pevsner, Jonathan. Leonardo da Vinci, neurocientista. Italia Oggi. Disponível em: http://www.italiaoggi.com.br/not04_0605/ital_not20050521b.htm


[i] https://etimologia.com.br/criatividade/

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Kamille Caiaffa é estudante de graduação da Escola de Belas Artes (EBA), na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua no NeuroTeen, desde 2021, com pesquisa temática e desenvolvimento de conteúdos para as mídias do projeto. Tem interesse na área de artes, criatividade e neurociências, bem como em divulgação científica.


Glaucio Aranha é professor adjunto no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinculado ao Laboratório de Vídeo Educativo (LVE). É doutor em Letras (área: Literatura Comparada), pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre em Comunicação, Imagem e Informação (área: Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação), pela Universidade Federal Fluminense (UFF); e graduado em Direito, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atua como pesquisador-líder do grupo de pesquisa *Narratividade, produção de sentido e representações da realidade*, no qual coordena os projetos de pesquisa: *Linguagem e imaginário em vídeos educativos: efeitos atencionais e emocionais da construção discursiva de verossimilhança*, *Narrativas fantásticas, imaginário científico e produção de sentido* e é co-líder, em parceria com o Prof. Dr. Alfred Sholl-Franco (IBCCF/UFRJ), do grupo de Pesquisa *Neuroeduc – Centro de Estudos em Neurociências e Educação* (OCC/UFRJ), no qual integra a coordenação dos projetos de pesquisa *Narratividade, semiose e cognição*, com foco no uso de narrativas no ensino e na divulgação científica. É pesquisador associado do programa *Ciências e Cognição – Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências*, da UFRJ (CeC-NuDCEN/IBCCF/UFRJ), onde desenvolve estudos sobre semiótica cognitiva e linguística textual. Tem experiência nas áreas de: teoria literária e da narrativa, linguística, semiótica, estética de massa e divulgação científica. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1047823602449101

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