Sinestesia

Sinestesia

Thaís Lacerda e Glaucio Aranha

Será que é possível sentir o cheiro de uma palavra ou ver a cor de uma música? Em um primeiro momento, essa pergunta pode nos causar uma certa estranheza e o mais provável é que você pense que a resposta é “não”, mas nesse caso a resposta é “sim”. 

A sinestesia é um fenômeno neurológico que ocorre, especialmente, em pessoas conhecidas como sinestetas. O termo se refere às pessoas cuja estimulação de um sistema sensorial leva a experiências de associação com sistemas secundários não estimulados. Assim, ao ouvir uma música a pessoa pode sentir determinados aromas ou ao ver uma cor pode associar um som e tantas outras associações ilimitadas. Portanto, há uma mescla de sensações que vai além daquelas consideradas típicas pela percepção humana na maioria da população. 

Esta sensação de adição de percepção sensorial em experiências atípicas, que caracteriza a sinestesia, não pode ser suprimida voluntariamente. No artigo Blue is music to my ears: multimodal synesthesias after a thalamic stroke, publicado na revista Neurocase, o pesquisador Luis Fornazzari e seus colaboradores revelam que a sinestesia audiovisual, por exemplo, pode fazer com que uma pessoa possa vir a escutar sons e visualizar cores, formas ou texturas simultaneamente como decorrência de uma derrame. Mas, obviamente, esse fenômeno não se limita a quadros acidentais ou de alterações de saúde. Algumas pessoas são naturalmente sinestetas, visualizando cores ao ouvir música, experimentando sabores ao ver determinado padrão etc. Um bom exemplo é o do músico russo Alexander Scriabin. O pesquisador Vladan Starcevic informa, no artigo The life and music of Alexander Scriabin, que esse compositor criava suas obras a partir da junção de diferentes cores, as quais eram processadas em formas de sons.

Ainda não há um consenso em relação às regiões cerebrais que estão envolvidas no fenômeno sinestésico. Todavia, é sabido que há um funcionamento diferente em comparação com indivíduos típicos (normais). O pesquisador Jean-Michel Hupé e seus colaboradores relatam um aumento no funcionamento da região V4 do giro fusiforme e no córtex parietal em atividades sinestésicas. A região V4 e o córtex parietal são áreas responsáveis pela integração de diferentes sensações e percepções no cérebro. Apesar dessa informação, ainda não está claro como se dá o envolvimento destas áreas. O que parece ser um consenso é que há um envolvimento do Córtex Parietal Inferior esquerdo (CPI) no processo sinestésico, como revelado pela pesquisadora Janine Neufeld e seus colaboradores, em 2012, em um artigo publicado na revista científica Neuropsysichologia

Segundo Julia Sinner, do Departamento de Psicologia, da Universidade de Edimburgo, existem diversos tipos de sinestesias, ou seja, as mesclas não se dão apenas entre dois sentidos. Portanto, pode haver a interação de dois ou mais sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato). Ao interagir entre si, é possível, por exemplo, que a pessoa veja cores e sinta um aroma ao ouvir determinados sons, ou sinta uma textura e ouça um som quando vê algo e assim por diante. Essas sensações ocorrem simultaneamente e não se alteram com o tempo, sendo que cada uma destas experiências é particular em cada indivíduo, podendo variar de pessoa para pessoa.  

Suspeita-se que uma em cada 2.000 pessoas são sinestetas em algum grau, conforme informado por Siri Carpenter, na matéria Everyday fantasia: The world of synesthesia, da American Psychological Association (APA). E acredita-se, ainda, que a sinestesia esteja associada a questões hereditárias, tendo em vista que tem-se notado que, na mesma família, é extremamente comum ter mais de um sinesteta, muitas vezes manifestando o mesmo tipo de sinestesia.  

Ainda não existe uma descrição concreta sobre os mecanismos neurais que geram essa condição neurológica, no entanto uma das hipóteses é que ela ocorra pela poda sináptica neural incompleta, como aponta o estudo de Maria Tomasi e colaboradores publicada na Revista de Atenção à Saúde, em 2018.  

Visto que a sinestesia possui um fator de hereditariedade, essa teoria sugere que alguns genes podem contribuir para uma falha na poda sináptica. Isto faria regiões diferentes do cérebro do giro fusiforme permanecerem ligadas, mesmo em adultos, causando a ativação cruzada a região tipicamente principal e regiões secundárias. Essa teoria baseia-se na ideia de que, no cérebro humano prematuro, as áreas corticais sensoriais não são tão especializadas quanto no cérebro de uma pessoa adulta.  

Normalmente, as ligações corticais sensoriais cruzadas são podadas na infância. Acreditando-se que até os 4 meses de idade, as crianças vivenciam experiências sinestésicas. No entanto, com o desenvolvimento padrão dos sentidos, esses estímulos diferenciam-se, o que ocorre de forma incompleta em pessoas sinestetas. Basicamente, então, seria como se todos nós, em um primeiro momento, pudéssemos experimentar estímulos sensoriais cruzados, assim como os sinestetas, mas com o amadurecimento do sistema nervoso perdemos essa capacidade. 

Ainda existem muitas incógnitas em relação ao fenômeno da sinestesia. Todavia, a ciência continua buscando respostas através d enumerosas pesquisas ao redor do globo, sendo que a sinestesia também pode estar associada a questões de memória, aprendizagem e até mesmo o TEA (transtorno de espectro autismo).   

Referências

Carpenter, S. Everyday fantasia: The world of synesthesia. Monitor on Psychology32(3), 2001, Março. Disponível em http://www.apa.org/monitor/mar01/synesthesia

Fornazzari L, Fischer CE, Ringer L, Schweizer TA. “Blue is music to my ears”: multimodal synesthesias after a thalamic stroke. Neurocase. 2012;18(4):318-22. doi: 10.1080/13554794.2011.608362. Epub 2011 Nov 24. PMID: 22111936. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22111936/

Hupé JM, Bordier C, Dojat M. The neural bases of grapheme-color synesthesia are not localized in real color-sensitive areas. Cereb Cortex. 2012 Jul;22(7):1622-33. doi: 10.1093/cercor/bhr236. Epub 2011 Sep 12. PMID: 21914631. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21914631/

Starcevic V. The life and music of Alexander Scriabin: megalomania revisited. Australas Psychiatry. 2012 Feb;20(1):57-60. doi: 10.1177/1039856211432480. Epub 2012 Jan 9. PMID: 22357678. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22357678/

Neufeld J, Sinke C, Dillo W, Emrich HM, Szycik GR, Dima D, Bleich S, Zedler M. The neural correlates of coloured music: a functional MRI investigation of auditory-visual synaesthesia. Neuropsychologia. 2012 Jan;50(1):85-9. doi: 10.1016/j.neuropsychologia.2011.11.001. Epub 2011 Nov 7. PMID: 22093438. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22093438/

Sinner, J. Why are there different types of synesthete? Front. Psychol., 4, 2013, pp. 558. Disponível em https://www.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2013.00558

Tomasi MC, Lopes J, Brandes JM, Klostermann HS, Cyrino LA Sinestesia e o transtorno do espectro do autismo (TEA) Rev. Aten. Saúde, São Caetano do Sul, v. 16, n. 55, p. 81-88, jan./mar., 2018. Disponível em: https://seer.uscs.edu.br/index.php/revista_ciencias_saude/article/view/4852/pdf

Vídeo explicativo: 

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Thaís Lacerda

Thaís Lacerda é estudante do Ensino Médio, no Colégio da Polícia Militar Vila Talarico. Tem formação como Técnica em Farmácia, pela Etec. Prof. Adhemar Batista Heméritas. Mora em São Paulo (SP) e atua no NeuroTeen desde 2020, com pesquisa temática e desenvolvimento de conteúdos para as mídias do projeto. Interessou-se pelas neurociências já no ensino médio e pretende fazer curso superior na área de biomédicas.


Glaucio Aranha

Glaucio Aranha é professor adjunto no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinculado ao Laboratório de Vídeo Educativo (LVE). É doutor em Letras (área: Literatura Comparada), pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre em Comunicação, Imagem e Informação (área: Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação), pela Universidade Federal Fluminense (UFF); e graduado em Direito, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor adjunto no Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde (NUTES), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuando no Laboratório de Vídeo Educativo (LVE). É pesquisador-líder do grupo de pesquisa Estudos de Linguagem, Imaginário e Tecnologias Exponenciais, e é colíder, em parceria com o Prof. Dr. Alfred Sholl-Franco (IBCCF/UFRJ), do grupo de pesquisa Neuroeduc – Neurociências Aplicadas à Educação (OCC/UFRJ). Coordena o projeto de extensão Redeneuro: rede de estudos em neuroeducação com foco no uso de metodologias ativas no ensino de saúde e na divulgação científica. É pesquisador associado do programa Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências, da UFRJ (NuDCEN/IBCCF/UFRJ), onde desenvolve estudos sobre semiótica cognitiva e linguística cognitiva. Tem experiência nas áreas de: teoria literária e da narrativa, linguística, semiótica, estética de massa e divulgação científica. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1047823602449101

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