REDENEURO: Rede de Estudos em Neuroeducação

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Aprendizagem baseada em projetos: uma experiência na visão docente

Por Andressa Folly e Glaucio Aranha

As práticas tradicionais de ensino, baseadas em mera transmissão de conteúdos e sem relação com a realidade do aluno, apresentam uma separação da teoria e prática ainda muito presentes no ambiente escolar, de acordo com Pasqualetto, Viet e Araujo (2017) e Paulo Freire (2001). Apesar disso, essas práticas perdem cada vez mais espaço à medida que as necessidades formativas na contemporaneidade vão muito além da simples acumulação de conhecimentos, envolvendo entre outros aspectos: […] a capacidade de seleção e tratamento de informações, a transposição de conhecimento de uma situação e/ou contexto para outro, a resolução de problemas para os quais não está estabelecida uma resposta e a capacidade de trabalhar de forma cooperativa” (PASQUALETTO; VEIT; ARAUJO, 2017, p. 551-552).

Tendo isso em vista, surgem abordagens em que o estudante é visto (e se vê) como o protagonista de sua aprendizagem, desenvolvendo mais autonomia em relação a ela, o que se pode observar nas abordagens das metodologias ativas. Nessas metodologias, os estudantes não exercem o papel puro e simples de espectadores no processo de ensino-aprendizagem, como se dá na aula expositiva tradicional (MEYERS; JONES, 1993 apud SEVERO, 2020, p. 5), devendo ir mais além, assumindo “[…] o controle de sua própria aprendizagem, lendo, escrevendo, perguntando, discutindo, analisando, resolvendo, elaborando, etc.” (SEVERO, 2020, p. 5). Uma das duas abordagens de metodologias ativas mais utilizadas é a aprendizagem baseada em projetos, sendo a outra a aprendizagem baseada em problemas.

A aprendizagem baseada em projetos (Project Based Learning – PBL) investe no processo de construção do conhecimento através de procedimentos contínuos e planejados de investigação que buscam responder a uma pergunta, problema ou desafio academicamente relevante. A partir da formulação da pergunta inicial, os alunos são orientados para darem início aos procedimentos da pesquisa: formalização da pergunta, elaboração de hipóteses, definição de métodos/técnicas até chegar a uma solução satisfatória para a pergunta ou a um produto final, dependendo do projeto.

Nesse sentido, a PBL volta-se para um esforço no sentido de transformar o aprender em um aprender-fazendo. Ela explora o contexto tanto do aluno, quanto da instituição, bem como o potencial que emerge da comunicação entre professor e aluno durante todo o percurso investigativo até chegar à etapa final: a produção dos resultados e sua respectiva comunicação, sempre que possível pelos meios disponíveis.

A metodologia prevê sete passos essenciais:

Nesse contexto, projetos devem ser entendido como empreendimentos bem delineados que buscam atender determinada necessidade ou interesse de uma ou mais pessoas (SEVERO, 2020, p. 6). O ponto chave diz respeito à elaboração de uma proposta de solução (hipótese), a ser colocada a prova, em face de um problema identificado.

Trata-se, portanto, do desenvolvimento de atividades desafiadoras em que o trabalho em grupo é valorizado, promovendo a colaboração, reflexão, planejamento e pesquisa (SEVERO, 2020). A aprendizagem baseada em projetos é centrada no estudante, e surge de uma necessidade ou inquietação vinda dele, podendo ter sido provocada ou estimulada pelo professor (BARBOSA; MOURA, 2013 apud SEVERO, 2020). Outrossim, essa abordagem favorece a contextualização do que foi ou está sendo aprendido pelos alunos, que se envolvem mais nos processos de aprendizagem, sobressaindo principalmente suas curiosidades.

Levando isso em conta, foi feita uma entrevista com o professor Sidney Oliveira sobre aprendizagem baseada em projetos. Ele é docente efetivo do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, uma escola de ensino médio técnico localizada na cidade do Rio de Janeiro. Em sua entrevista, o professor afirma já ter aplicado essa metodologia por meio, por exemplo, do GRILA, um projeto de confecção e aplicação de instrumentos de medição elaborados por estudantes do ensino médio, que nasceu dessa abordagem. É dada ao aluno uma missão, em que ele precisa desenvolver a ideia, o protótipo, e a fundamentação. O professor explica que escolheu utilizar essa metodologia porque já há algum tempo faz em suas aulas a aplicação de trabalhos que utilizam esse tipo de abordagem.

Professor Sidney Oliveira em reunião com a equipe do BioArm. Fonte: http://www.cefet-rj.br/index.php/component/content/article?id=4511

Sobre o método, afirma Sidney Oliveira que o considera mais dinâmico que outros:

“A minha visão, por exemplo, até porque eu tenho uma formação na área de gestão, é muito enfatizada na questão de projetos […]. Então acho que é um aprendizado mais completo, porque o aluno, quando entra na fase de projeto, é obrigado a pesquisar, a antever um resultado, o que o obriga a olhar pra frente. Ele faz testes, simulações.”

O professor conta que a instituição na qual atua ainda não possui todos os recursos que seriam interessantes para que o estudante possa experimentar mais possibilidades de aprendizagem, mas o importante é que ele começa a vivenciar. Segundo o professor Sidney Oliveira, um dos aspectos que se destaca neste tipo de abordagem pedagógica é a necessidade da interação professor-aluno.

“Todos os trabalhos dessa natureza são feitos em equipe. Isso também exercita o aprendizado da interrelação, do relacionamento interpessoal […]. Todos os projetos, de alguma forma, envolvem alguma abordagem interdisciplinar, então é interessante que o aluno consiga, no projeto, fazer conexão de várias ciências, de vários conhecimentos […]. É muito mais do que chegar em sala de aula e dar alguma coisa pronta pra eles [alunos] […] E eu acho que dá um sentido mais completo à formação deles”.

O professor Sidney Oliveira afirma que foi uma experiência exitosa. Em relação à percepção sobre o resultado, ele afirma que via o aumento do nível de participação dos alunos pela sensação de estar construindo algo, inclusive apresentando trabalho em um evento da instituição, a EXPOTEC. ”O aluno é desafiado a transmitir um conhecimento, então eu acho que é muito positiva essa interação e essa capacidade de realizar. E isso tudo vem um pouco dentro do conceito maker, que a gente discute muito”.

Em sua visão, muitas vezes falta o aluno procurar os docentes da instituição, pois eles não estão integrados ao processo de ensino-aprendizagem a partir de uma metodologia formal, faltando, então, uma estruturação metodológica. Ele conta que, em 2018, o projeto GRILA teve a participação de dois alunos da instituição, e que se não fossem eles, não haveriam outros professores disponíveis para esse tipo de missão. Finalizando a entrevista, o professor afirmou que “tem sido [uma experiência] muito positiva. Pela interação com os alunos, consideramos bastante positiva essa experimentação”, diz ele. 

A aprendizagem baseada em projetos é uma oportunidade de incentivar os alunos e de promover o protagonismo estudantil, principalmente contextualizando o que é aprendido, levando em conta as necessidades formativas do cidadão do século XX, assim como citado por Pasqualetto, Veit e Araujo (2017). Em um cenário que integra cada vez mais as metodologias ativas, enquanto desfoca as práticas tradicionais de ensino, indo além da simples acumulação de conhecimentos.

Por fim, vale ressaltar que nessa metodologia, não cabe ao professor apresentar integralmente o conteúdo curricular para que depois os alunos iniciem o desenvolvimento dos seus projetos. Pelo contrário, há uma concomitância, uma simultaneidade que delega aos próprios alunos e alunas uma parte da busca pelos conhecimentos necessários afim de alcançar os objetivos pedagógicos, cabendo ao educador a orientação através do percurso para a aprendizagem.

Referências bibliográficas:

FREIRE, Paulo. Carta de Paulo Freire aos professores. Estud. av.,  São Paulo ,  v. 15, n. 42, p. 259-268,  Aug.  2001 .   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142001000200013&lng=en&nrm=iso. Acesso em 04  mar. 2021.  

GAROFALO, Débora. Como as metodologias ativas favorecem o aprendizado. Nova Escola. Jun. 2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/11897/como-as-metodologias-ativas-favorecem-o-aprendizado. Acesso em: 04 mar. 2021.

SEVERO, Carlos Emilio Padilla. APRENDIZAGEM BASEADA EM PROJETOS: UMA EXPERIÊNCIA EDUCATIVA NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA. Revista Brasileira da Educação Profissional e Tecnológica, [S.l.], v. 2, n. 19, p. e6717, abr. 2020. ISSN 2447-1801. Disponível em: http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/RBEPT/article/view/6717. Acesso em: 04 mar. 2021.

TOYOHARA, Doroti Quiomi Kanashiro et al. Aprendizagem Baseada em Projetos–uma nova Estratégia de Ensino para o Desenvolvimento de Projetos. In: PBL Congresso Internacional. 2010. Disponível em: http://www.abenge.org.br/cobenge/arquivos/7/artigos/104325.pdf. Acesso em: 04 mar. 2021.

PASQUALETTO, T. I., VEIT, E. A., & ARAUJO, I. S. (2017). Aprendizagem Baseada em Projetos no Ensino de Física: uma Revisão da Literatura. Revista Brasileira De Pesquisa Em Educação Em Ciências, 17(2), 551–577. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/rbpec/article/view/4546. Acesso em: 04 mar. 2021.

4 thoughts on “Aprendizagem baseada em projetos: uma experiência na visão docente

  • Amanda da Silva

    Sou a Amanda Da Silva, gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

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  • Sou Mauricéia, acredito muito nessa proposta de implementação de projetos. O material partilhado trás consigo uma grande riqueza e experiências inspiradoras. Obrigada por contribuir com minha formação!!!

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    • cienciasecognicao

      Obrigado, Mauricéia! Nossa proposta é justamente essa democratização do conhecimento. A partir deste mês estaremos retornando das férias da equipe e haverá muito mais conteúdo sendo divulgado. Acompanhe-nos pelo site ou por nossas redes sociais (links nas páginas do site).

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  • Wow, que meneiro é seu artigo parabéns, alunos protagonista, precisamos, valeu pela contribuição propositiva.

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