MECANISMOS DO VÍNCULO E DO APEGO- por Cilmara de Araújo Sousa

acrylic_mother_and_child-By-Diong-Indianapolis-IN.-300×228
  1. INTRODUÇÃO

Ninguém nasce, em nossa espécie, com uma autoimagem já constituída. Essa autoimagem vai se formar mediante o espelhamento e troca com os nossos cuidadores primários. Teoria do apego ou da vinculação é a teoria que descreve certos aspectos de relacionamentos entre humanos e entre outros primatas. O princípio base declara que um recém-nascido precisa desenvolver um relacionamento com, pelo menos, um cuidador primário para que seu desenvolvimento social e emocional ocorra normalmente (1). Assim, para essas primeiras experiências, tão fundamentais na formação de uma base, de um alicerce emocional saudável e seguro, o tipo de interação mãe (cuidador/a) bebê ocupa um lugar de destaque (2).

A teoria do vínculo e apego psicológico, é um estudo interdisciplinar que abrange os campos das teorias psicológicaevolutiva e etológica, desenvolvida após a segunda guerra  mundial, no qual muitas crianças órfãs e sem lar e apresentaram muitas dificuldades (1). Originalmente formulada por John Bowlby na década de 1950, permitiu aprofundar o conhecimento do vínculo mãe-bebê, identificar suas patologias e avaliar sua influência no desenvolvimento da criança e nas relações afetivas adultas fornecendo elementos necessários para se discutir o papel e a importância do apego (3, 4). Freud vai chamar a atenção para o que ocorre descrevendo a formação do narcisismo primário, fala da importância da relação primal entre o bebê e a mãe. A pele será o órgão de máxima importância para essa troca entre bebê e cuidador primário, através do toque e do olhar que a comunicação entre bebê e cuidador que os primeiros vínculos vão formando (2).

O primeiro estudo neurocientífico a apresentar evidência de modificações epigenéticas no cérebro resultantes de variações nos cuidados maternos foi publicado na Nature Neuroscience em 2004, desde então, vem sendo maciçamente citado. No campo da neurociência existem inúmeras possibilidade de compreender a dimensão biológica do apego, tais como modelo evolutivo do sistema afetivo de cuidado de Panksepp, ele defendeu que essas emoções são geradas no encéfalo em regiões subneocorticais, concentradas no sistema límbico, presentes em todos os mamíferos (5), mediado principalmente pela ocitocina, que desempenha importante papel no organismo, estando associada também na modulação de diferentes aspectos comportamental social (3).

Outros fatores exercem impacto são os chamados “períodos críticos do desenvolvimento”, no qual o sistema nervoso central tem maior flexibilidade para mudança, tanto anatômica como funcional. Existe ainda os mecanismos epigenéticos e seus efeitos no desenvolvimento neuronal (4, 6). A forma como se estabeleceram os vínculos de apego, configuram as representações mentais acerca do outro, na epigenética está atrelada às noções de neurodesenvolvimento e plasticidade cerebral (7). Tais processos, presentes em momentos cruciais do desenvolvimento do indivíduo, conduziriam a modificações funcionais, como déficits cognitivos, alterações comportamentais, dificuldades de aprendizagem, entre outros.

A experiência clínica tem mostrado que, na vida adulta, as representações dessas vivências insurgem nas várias possibilidades de construção psicoafetiva, com repercussão nas relações sociais (8). Diversas são as questões que impactam o desenvolvimento e o trabalho com bebês e crianças pequenas, dentre estas, nota-se que o apego entre criança-mãe deve ser pensado, pois a reação dos pais leva ao desenvolvimento de padrões de apego e que irão guiar as percepções individuais; pois trata-se de um elemento essencial para o desenvolvimento da criança. Os seres humanos nascem com a necessidade de formar vínculos com outras pessoas e a qualidade e consistência desses vínculos impactam o desenvolvimento das crianças, trazendo consequências até a fase adulta (9, 4). O objetivo do artigo é discutir alguns conceitos de mecanismos do vínculo e do apego e seu papel regulador das emoções.

  • TEORIAS E EXPERIMENTOS

Aborda-se, a seguir, algumas teorias e experimentos e sua importância na dimensão representacional do apego.

2.1 – JOHN BOWLBY (apego) – Foi um  psicanalista britânico formado em Cambridge, nascido em uma família de classe média-alta. Inicia seu trabalho com crianças delinquentes e desajustadas e posteriormente usou o cenário como campo de observação, da Segunda Guerra Mundial onde atuava no corpo médico da Armada Real, realizou várias pesquisas com crianças órfãs e separadas de seus lares. Ao final da década de 1950, ele havia acumulado estudos teóricos e observacionais para debater a importância fundamental do apego desde o nascimento para o desenvolvimento humano. Foi um dos primeiros psicanalistas a utilizar esse campo teórico para validar suas pesquisas e sua teoria psicanalítica com enfoque na importância da observação da díade mãe-bebê, não se pode pensar um sem o outro. Nesse âmbito, incluímos a relevância da comunicação não-verbal, os estímulos de excitação e manutenção de equilíbrio mútuo e individual (10).

Como Bowlby assinala, até meados do século passado caracterizava de que a formação e manutenção dos vínculos sustentavam-se na necessidade de satisfazer certos impulsos, como a alimentação na infância e o sexo na vida adulta. Porém acreditava que uma relação em que à mãe é a principal provedora dos cuidados básicos e afetivos do filho seria a base para o desenvolvimento mental saudável da criança, pois o distanciamento dos filhos com seus pais provocaria danos no desenvolvimento da personalidade das crianças (5).  Em contrapartida, o autor postulou que existe nos bebês uma propensão inata para o contato com um ser humano, ou seja, um comportamento biologicamente programado o que implica na “necessidade” de um objeto independente do alimento (9).

O apego tem sua própria motivação interna, distinta da alimentação e do sexo, como postulado pela teoria freudiana, e de igual importância para a sobrevivência. Com o passar do tempo, um verdadeiro vínculo afetivo vai se desenvolvendo, garantido pelas capacidades cognitivas e emocionais da criança, assim como pela consistência dos procedimentos de cuidado (5).

Foto tirada pelo médico Frederick Leboyer- da mãe indiana que se chamava Shantala, massageando seu bebê. Em sua homenagem a massagem recebeu o seu nome .

O conceito-chave dessa teoria, para o autor, do sistema comportamental, incluem não somente manifestações externas, mas também uma organização interna, a qual presume-se que tenha raízes nos processos neurofisiológicos. Essa organização interna vem de uma mudança de desenvolvimento mental, não apenas sob orientação genética, mas também pelas influências externas. Ressalta que o comportamento de apego é instintivo, evolui ao longo do ciclo da vida, e não é herdado; o que se herda é o seu potencial ou o tipo de código genético que permite à espécie desenvolver melhores resultados adaptativos, caracterizando sua evolução e preservação, esse sistema comportamental é altamente sensível numa fase e depois deixa de ser (11).

O apego está intimamente ligado ao investimento parental, por consequência o autor também reforça a importância de os pais fornecerem uma base segura a partir da qual uma criança ou um adolescente pode explorar o mundo exterior, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. A consequência dessa relação de apego é a construção, O comportamento de apego é demostrado a partir de ações básicas como o chorar, o riso, a busca por aconchego e por contato visual. Já o vínculo de apego é revelado principalmente pela tentativa de proximidade com o cuidador, e pelo protesto perante a separação (5).

Por volta da metade do terceiro ano de idade, a criança reforça o sentimento de confiança e segurança em relação a si mesma e, principalmente, em relação àqueles que a rodeiam, como as figuras parentais ou outros integrantes de seu círculo de convivência. Uma vez construídos o vínculo, acredita que esses modelos dos pais e do self em interação tendem a persistir e passam a atuar em nível inconsciente. No decorrer do desenvolvimento (à medida que a criança seguramente apegada cresce e os pais a tratam de forma diferente), ocorre uma atualização gradual desses modelos. Por outro lado, nas crianças ansiosamente apegadas parece haver uma dificuldade e rigidez maior na atualização dos modelos (11, 12).

Uma figura de cuidados é fundamental para o entendimento das respostas de ansiedade e estresse que estariam na base de diversos fenômenos psicopatológicos. Contudo, durante todo o ciclo vital, o comportamento de apego está presente em variadas intensidades e formas. E tem funções direta nas respostas afetivas e no desenvolvimento cognitivo, já que envolve uma representação mental das figuras de apego, de si mesmo e do ambiente (12).

2.2 – RENEE SPITZ (deprivação) – Psicanalista austríaco-estadounidense, especializado em psicologia infantil onde realizou estudos experimentais sobre as trocas emocionais entre a criança e a mãe. Spitz confirmou a necessidade de laços e de contatos afetivos entre o bebê e o adulto, especialmente entre a mãe e o filho. Desenvolveu um conjunto de pesquisas em crianças, que denominou de” Hospitalismo infantil”, no qual foi estudado sintomas apresentados pelas crianças pequenas, durante os primeiros doze meses de vida que permaneceram um período prolongado numa instituição hospitalar ou num orfanato, privadas da presença da mãe (13).

Orfanato na Romênia

No início do século XX, a grande preocupação dos responsáveis por instituições de acolhimento para crianças era a de assegurar condições de higiene e a mortalidade por doenças infectocontagiosas. Do ponto de vista do cuidado físico, as crianças estavam asseguradas quanto a higiene e alimentação; do ponto de vista afetivo, esta preocupação remetia para segundo plano, onde se constatou uma carência afetiva total, porque cada adulto cuidava de várias crianças, não conseguiram estabelecer um vínculo afetivo com uma pessoa, já que eram cuidadas por várias, sem que qualquer uma delas pudesse dedicar um tempo maior a cada uma (2). René Spitz foi uma das primeiras vozes a chamar a atenção para este erro, em um dos seus estudos relata que problemas como os distúrbios emocionais e carência de afeto nas crianças, muitas vezes foram marcados por toda a vida, podendo provocar incapacidade ou perturbações psicológicas (13).

Spitz cunhou o termo ” depressão anaclítica ” para se referir à privação emocional parcial (a perda de um objeto amado). As emoções de uma criança começam a ser formadas e organizadas nos primeiros dias de vida, em que o bebê ainda não tem noção do seu próprio self. Quando o objeto amado é devolvido à criança dentro de um período de três a cinco meses, a recuperação é imediata. Porém se a privação persistir por mais de cinco meses, ela apresentará os sintomas de uma deterioração cada vez mais grave. Tal situação leva a deterioração progressiva que se manifesta primeiramente por uma interrupção no seu desenvolvimento psicológico (atraso no desenvolvimento corporal, dificuldades na habilidade manual, na adaptação ao meio ambiente, atraso na linguagem). No estágio seguinte, isso acarreta uma predisposição crescente a infecção e, finalmente, quando a privação emocional se estende ao segundo ano de vida, pode levar inclusive a morte (14).

Orfanato na Romênia

De acordo com Spitz, existem provas de que, num contexto familiar, a maioria dos bebês de três meses de idade já responde à mãe de modo diferente em relação a outras pessoas, desde muito cedo, está apto a diferenciar a voz e o rosto materno e a demonstrar preferência por eles, sinalizando o que mais tarde irá se transformar no comportamento de apego, ou seja, a discriminação está perceptivamente presente (12, 13). Dentro dessa linha de raciocínio convém ressaltar as observações realizadas por Bowlby e firmadas por Spitz (11) que descreveu uma sequência previsível de comportamento apresentados pelas crianças hospitalizadas, após o trauma da separação, dividida em 3 fases que são: protesto, desespero e desapego.

Como já foi salientado, a ausência de carinho, de laços verdadeiramente humanos e de cuidados de tipo maternal eram os principais fatores responsáveis pela mortalidade das crianças em tais instituições (14). A negligência impede o desenvolvimento da autoestima das crianças, que é o principal antídoto ao aparecimento do comportamento antissocial.

2.3 – KONRAD LORENZ – Austríaco, dedicou-se à zoologia e à psicologia comparada, sendo considerado um dos fundadores da ciência Etologica, agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973. Definiu o termo cunhagem ou imprinting como um processo que ocorre no desenvolvimento animal, trabalho realizado com gansos e patos, denominou esses comportamentos de impressão como movimentos endógenos, ou seja, movimentos instintivos, inatos que não dependiam de experiência (15). Assim, ele descreve a diferença entre reflexo e instinto, comportamento inato em resposta a um estímulo aprendido que depende das “janelas” denominadas de períodos sensíveis, nas primeiras horas de vida (16).

Konrad Lorenz e os gansos que o seguem como se ele fosse sua mãe (fenômeno de imprinting)

Este comportamento, primeiramente observado em patos e gansos, demonstraram como essas aves seguem o primeiro objeto em movimento que percebem, no qual pode ser a mãe, mas não necessariamente e que após certo período passam a preferi-lo a qualquer outro e a seguir somente ele. Os patos passavam por um período sensível ou crítico de aprendizagem, que ia da 13ª hora depois do nascimento até a 16ª, além de demonstrar que uma aprendizagem do mesmo tipo ocorre mesmo quando a criatura não está empenhada em seguir um objeto em movimento (16). Se o filhote não adquirir esse hábito até aproximadamente quatro dias ele nunca mais vai adquirir essa ligação permanente.

Lorenz detalhou quatro propriedades atribuídas ao imprinting: (A) que tem lugar somente durante um breve período crítico no ciclo vital; (B) que é irreversível, não é modificada por estímulos reforçadores sobre o comportamento; (C) que é aprendizagem supraindividual; (D) que influencia padrões de comportamento que ainda não se desenvolveram na disposição do organismo, por exemplo, a escolha de um parceiro sexual (11).

Os trabalhos de Lorenz sobre cunhagem provaram que o comportamento de apego pode desenvolver-se sem que tenha havido alimentação ou qualquer outra recompensa adicional por parte da figura de apego. Os dados foram replicados e constatou-se que isto acontece também nos mamíferos de modo comparável (17). E em investigações com crianças, tendo-se demonstrado que na infância este fenómeno também acontece, existindo diversos períodos críticos, nos quais, as crianças estão particularmente aptas a realizar determinadas aprendizagens. Na teoria do apego, pautada em estudos etológicos, considera que a interação com o meio é fundamental para que tal comportamento se desenvolva, ainda que utilize referenciais biológicos para explicar a propensão estímulo-resposta da criança que se manterá fixa por toda vida (15, 18).

2.4 – DONALD WINNICOTT. Médico pediatra e psicanalista inglês, influente no campo das teorias das relações objetais, conhecido por suas ideias relacionadas ao verdadeiro e falso self. Realizou trabalho com crianças separadas da família em consequência da Segunda Guerra Mundial, estudo que lhe permitiu perceber etapas fundamentais do desenvolvimento da pessoa. Se refere ao desenvolvimento emocional primitivo, de importância para indivíduo e que se estenderão para além da infância (19).

Para Winnicott, cada pessoa traz um potencial inato para amadurecer, para se integrar; porém, o fato de essa tendência ser inata não garante que ela realmente vá ocorrer. Isto dependerá de um ambiente facilitador que forneça cuidados que precisa. A visão do autor sobre apego, traz a importância de uma maternagem suficientemente boa, onde através dessa relação a criança possa se desenvolver cognitivo e afetivamente bem. Tornando-se sensível o suficiente para se adaptar as suas necessidades corporais e posteriormente as necessidades do seu ego (5).

Quando essa relação de vinculação não é estabelecida, a criança passa por um processo nomeado por privação e deprivação. A privação acontece por volta de zero a seis meses de idade no qual o bebê tem a dependência absoluta da mãe, é um ser onipotente e possui a fixação que os dois são um só. Quando são inseridas falhas severas nessa fase pode ocorrer uma interrupção do amadurecimento, essa desarmonia de investimentos pode prejudicar seu desenvolvimento cognitivo e, consequentemente ter uma linguagem empobrecida, a criança regride, sendo representadas mais tarde como uma deficiência mental, psicose ou esquizofrenia infantil. Mas, se essa fase for bem elaborada o bebê passará a não ter mais uma dependência absoluta e sim uma dependência relativa, em que já não depende totalmente de sua mãe (19).

Já a deprivação ocorre quando a criança já consegue diferenciar o Eu do Tu, ou seja, que ele e a sua mãe são pessoas distintas, essa fase acontece dos seis meses aos dois anos de idade. Nesse período a criança já passou pela fase da total dependência. Porém se a cuidadora voltar a inserir falhas contínuas, a criança vai direcionar toda a sua angústia, carência e falta de cuidados adequados dessa mãe para o ambiente, podendo se tornar uma criança agressiva e destrutiva, podendo utilizar um comportamento antissocial como tentativa de recuperar o afeto e atenção que lhes foi tirado (19). Esta privação não trará danos maiores se a criança contar com os cuidados substitutos de outras pessoas as quais ela também tenha estabelecido vínculo de confiança (5).

Diversas são as consequências causadas pela falta desse vínculo afetivo nos primeiros 6 anos de vida da criança, elas têm a necessidade em ter por perto alguém que desempenhe a função de cuidador, principalmente nos aspectos cognitivo e afetivo (19). Onde irão construir juntos uma relação segura e recíproca, a partir daí, estabelecer uma relação de confiança mútua, pois as vivências nos primeiros anos de vida repercutirão na construção psicológica e social da criança enquanto sujeito, já que ela é marcada em seus anos iniciais por grandes transformações e descobertas (5).

2.5 – Experimentos com roedores: relação entre lambidas da mãe e desenvolvimento do hipocampo no recém-nascido

Estudos demonstraram que interferências no sistema de apego entre mãe e filhotes modulam a resposta ao estresse, essas perturbações podem contribuir para alterações comportamentais e neuroendócrinas duradouras nos descendentes (20).  Pesquisa realizada com roedores, mostrou que o aumento dos cuidados maternos na primeira semana de vida – como lamber e carregar o filhote, produziu alterações na metilação do DNA no hipocampo dos filhotes, influenciando os padrões comportamentais exibidos posteriormente. Além disso, os filhotes das roedoras pouco “cuidadosas”, ao serem separados da mãe biológica e criados por outra efetivamente “cuidadosa”, exibiram transformações biológicas ajustadas ao padrão de cuidados da mãe adotiva, transformações estas que se mantiveram estáveis ao longo da vida adulta (4,6).

Desse modo, haveria uma associação entre a quantidade e a qualidade dos cuidados maternos ofertados nos momentos iniciais da vida, o desenvolvimento neuronal e as tendências de resposta a eventos estressores na vida adulta.

A mãe ao ser responsiva “à busca de proximidade” por parte dos filhotes, os mantém em condições de homeostasia, com níveis basais normais de corticoides circulantes. Na condição de estresse precoce se observa uma redução dos níveis de glicocorticoides (RG) e mineralocorticoides (MR) no hipocampo. Na privação maternal, na qual os filhotes não têm seus sinais atendidos, agem com protesto contra a separação (Fase de Alarme) seguida de uma fase na qual o protesto cessa (Fase de Resistência) e quando essa ausência se prolonga por mais tempo, ocorre a perda da resiliência frente ao estresse (Fase de Exaustão) (20).

  • CONSIDERAÇÕES FINAIS

O comportamento de apego, além da função de proteção, propicia uma série de interações sociais que colaboram para um desenvolvimento saudável da criança, além de lhe proporcionar oportunidades de treinar seus comportamentos sociais e perceber as modificações dele no meio. Assim, é graças a esta proximidade mãe– bebê que este terá oportunidades de ver e explorar o mundo de uma maneira segura, e desenvolver seu cérebro, aprender com os outros de sua espécie, sentir-se parte dela e seguro a partir do amor de seus pais. É na dependência de uma bem-sucedida experiência nessa fase de vida que se forma uma boa autoimagem, colorida de valores positivos, matriz de uma autoconfiança segura.

Ainda que a neuroplasticidade se mantenha ao longo da vida, cada região do cérebro tem janelas críticas de desenvolvimento que ocorrem em momentos específicos (4). A forma como cada indivíduo comunica o que há em seu mundo interno mostra-nos o curso que suas relações primordiais tomaram.

Os sentimentos de ligação e dependência que se criam entre criança e a pessoa que faz o cuidado moldam os estilos e a maneira como ela irá se relacionar nas fases seguintes da vida e isso irá se refletem nas relações sociais da criança, pois a vergonha e o medo causados pela dificuldade de aprendizagem poderá levar ao afastamento de outras crianças e das pessoas, se tornando um sujeito com comportamento antissocial (14).

Importante considerar também que a presença do pai na vida de um filho é tão fundamental quanto a presença da mãe, entre seis e doze meses, não é tão destacado na literatura, como acontece com a figura materna. No entanto, o contato corporal entre o bebê e o pai, no cotidiano, é referência na organização psíquica da criança (21). Quando se pensa em um bom desenvolvimento socioemocional da criança, sob vários níveis e circunstâncias, pois esse vínculo complementa e reforça o modelo dado pela mãe, no qual os dois assumem os papéis de autoridade (impondo regras e punições) e dos afetos (fornecendo carinhos e recompensas). Pode-se observar que os filhos necessitam de apoio, segurança e de valores que naturalmente cabe aos pais no psiquismo infantil assegurar seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional (8).

Cilmara de Araújo Sousa-Possui graduação em Farmácia pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (2008) e graduação em Química pela Universidade Estadual de Goiás (2001). Concursada em farmácia-bioquímica no Estado do Tocantins (licença por interesse particular). Possui experiência nos seguintes temas: Industria farmacêutica, mais de 16 ano em laboratório público (LACEN), análises de medicamentos cromatografia líquida de alta resolução (HPLC), dissolutores, entre outros, saneantes, alimentos, Microbiologia e analise de PCR- Covid. Sete anos como gestora do Laboratório Lacen – TO. Possui três pós graduações nas áreas de farmacologia e saúde publica.

  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  1. DALBEM, J. X.; DELL’AGLIO, D. D. Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 57, n. 1, p. 12-24, 2005.
  2. YOSHINAGA I G, GALIÁS I. A pele que somos e a pele que sentimos Pele – símbolo – consciência. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analitica, v.36-2, p.77-88. 2018.
  3.  BARG, G. Bases neurobiológicas del apego. Revisión temática. Ciencias Psicológicas, ISSN 1688-4094 Ano 5, Nº. 1, págs. 69-81, 2011.
  • DUDLEY KJ, Li X, KOBOR MS, Kippin TE, BREDY TW. Epigenetics mechanisms mediating vulnerability and resilience to psychiatric disorders. Neurosci Biobehav, 35:1544-51, 2011.
  • CORRÊA, M.F., PESSOA JUNIOR, O.F. Os afetos emocionais segundo Panksepp, comparados com Damásio e com o materialismo observacional. In: ALVES, M.A., ed. Cognição, emoções e ação. São Paulo: Cultura Acadêmica; UNICAMP; Centro de Logica, Epistemologia e História da Ciencia, 2019.
  • ROTH T, Sweatt D. Annual research review: Epigenetic mechanisms and environmental shaping of the brain during sensitive periods of development. J Child Psychol Psychiatry; 52:398-408. 2011.
  • NOGUEIRA, G.M. Tese: Associação entre o Polimorfismo do Gene do Receptor da Ocitocina (OXTR), níveis de ocitocina, estilos de apego e traços de personalidade em idosos. https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/9922, 2021.
  • FREITAS-SILVA CLR; ORTEGA. F. A determinação biológica dos transtornos mentais: uma discussão a partir de teses neurocientíficas recentes. 2ed. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(8), ago, 2016.
  • VIEIRA, Francielly Cardoso. A importância do apego nos anos iniciais de vida: uma breve visão à luz da teoria de John Bowlby e de Winnicott. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 07, Vol. 01, pp. 128-135, 2020.
  • BOWLBY J. Apego e perda: Apego (Vol. 1). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1969) 1990.
  • KAPLAN, N. & CASSIDY, J. Security of infancy, childhood and adulthood: A move to the level of representation. In: BRETHERTON, I. & WATERS, E. (Orgs.). Growing points of attachment theory and research. Chicago: University of Chicago Press. pp. 66-106, 1985.
  • SPITZ, R. O primeiro ano de vida: um estudo psicanalítico do desenvolvimento normal e anômalo das relações objetais. Tradução Erothildes Millan Barros da Rocha. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1980.
  • BARBOSA D.R., SOUSA D.H.A.V. Privação afetiva e suas consequências na primeira infância: um estudo de caso, InterScientia, Vol. 6, Nº 2 Ano, 2018.
  • ZUANON A. C. A. Instinto, etologia e a teoria de Konrad Lorenz, Ciência & Educação, v. 13, n. 3, p. 337-349, 2007.
  • LORENZ, K. Studies in animal and human behaviour. Cambridge: Harvard University Press. (Trabalho original publicado em 1935), 1974.
  • TONI P. M at al. Etologia humana: o exemplo do apego .Psico-USF, v. 9, n. 1, p. 99-104, 2004.
  • FERNANDES J B P., PEIXOTO JR C A. Apego e comunicação: considerando o desenvolvimento infantil sob a ótica da etologia e da psicanálise. Psicologia USP, volume 32, e 190144, 2021.
  • WINNICOTT, Donald Woods. (1960). A família e o desenvolvimento individual. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
  • SOUZA, A.J.M. et al. Revisiting Bowlby’s hypothesis: attachment theory, neuroendocrine maturation and predisposition to psychopathologies. Research Society and Development, v. 9, n. 11, e3579119895, 2020.
  • MUZA GM. Da proteção generosa à vítima do vazio. In: Silveira P, ed. Exercício da paternidade. Porto Alegre: Artes Médicas; p.143-50. 1998.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.