Organização Ciências e CogniçãoCNPJ 13.413.391/0001-18

Integrando as ciências da mente, cérebro e educação

Retrato de uma pessoa sorrindo, com cabelo curto e cacheado e um lenço estampado.

 

Retrato de uma pessoa com cabelo afro e maquiagem, em fundo preto; há texto sobreposto “Do NOT EXCUSE ABUSE”.

 

Nota editorial (2026-10-03): resenha histórica de 2017 de estudo transversal publicado em 2014, com 95 mulheres de uma amostra de conveniência. Associações e mediação estatística não demonstram causa ou eficácia de tratamento. Estimativas epidemiológicas e biografia pertencem ao período original.

A terapia antirretroviral ampliou a expectativa de vida das pessoas que vivem com HIV; depressão e ansiedade também ganharam atenção como condições de saúde nessa população. A prevalência de depressão em pessoas que vivem com HIV é descrita nos estudos históricos citados como duas a quatro vezes maior que em pessoas sem HIV.

Ao mesmo tempo, altas taxas de violência física, emocional e sexual na infância são encontradas em populações estudadas de pessoas que vivem com HIV.  E estudos mostram que abusos na infância e exposição a outros traumas estão entre os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas na vida adulta.

Entretanto, nem todo indivíduo que foi exposto a um trauma na infância desenvolve alguma doença psiquiátrica na vida adulta, o que ressalta a importância da resiliência, que é a capacidade individual de se adaptar com sucesso ao estresse agudo, trauma ou outras formas crônicas de adversidade. Sendo assim, a resiliência pode ser importante para o tratamento de quadros como ansiedade e depressão. Dados recentes mostram que em pessoas sem HIV que apresentam depressão ou transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), a resiliência contribui para resultados mais positivos ao tratamento.

Como os autores identificavam uma lacuna de estudos que relacionassem sintomas de depressão e resiliência em pessoas que vivem com HIV que tenham sido expostos a traumas, esse trabalho busca avaliar como a sintomatologia depressiva e a resiliência se relacionam e se a exposição a traumas ou a presença de sintomas de TEPT atuam como mediador nessa relação.

Participaram do estudo 95 mulheres que vivem com HIV e expostas a traumas na infância segundo a definição do Childhood Trauma Questionnaire. As doenças psiquiátricas atuais e passadas foram avaliadas usando o MINI-International Neuropsychiatric Interview-Plus (MINI-Plus). Os sintomas de depressão foram avaliados pela Center for Epidemiologic Studies Depression Scale (CES-D). A exposição a traumas durante a vida foi avaliada pelo Life Events Checklist (LEC). Os sintomas de TEPT foram avaliados pela Davidson Trauma Scale (DTS). A resiliência foi avaliada pela Connor Davidson Resilience Scale (CD-RISC). Os dados foram analisados por pacotes de programas de cálculos estatísticos. Uma variável foi considerada mediadora, segundo Baron e Kenny, quando age como interveniente entre duas variáveis, ou seja, quando recebe influência da variável independente e influencia a variável dependente.

Os resultados mostraram que o trauma na infância, sintomas de TEPT e resiliência se associam independentemente a sintomas depressivos no modelo estatístico, ao passo que a exposição a outros traumas não. Foi encontrada forte relação entre depressão e resiliência, sendo que maior resiliência se associa a menos sintomas depressivos nessa amostra.

Sintomas de TEPT foram um mediador estatístico parcial na relação entre resiliência e sintomas depressivos. Na análise transversal, maior resiliência esteve associada a menos sintomas de TEPT e depressão; a análise estatística indicou mediação parcial, mas não permite concluir que a resiliência cause redução desses sintomas. Traumas na infância, por outro lado, não atuam como mediador na relação entre depressão e resiliência.

Por fim, os resultados obtidos nos estudos vão ao encontro com os relatos da literatura. Ressalta-se a importância desse estudo por abordar a relação entre resiliência e depressão em mulheres que vivem com HIV e com traumas na infância, onde o TEPT foi encontrado como mediador dessa relação e as limitações do estudo são a retrospecção e a possível presença de comorbidades psiquiátricas nas mulheres pesquisadas.

Bruno Ernandes; Vitor Colpo-graduandos do curso de medicina FCS-UFGD-Dourados-MS

Retrato de uma pessoa sorrindo, com cabelo curto e cacheado e um lenço estampado.

Artigo:
Spies G, Seedat S.Depression and resilience in women with HIV and early life stress: does trauma play a mediating role? A cross-sectional study.BMJ Open. 2014 Feb 24;4(2):e004200. doi: 10.1136/bmjopen-2013-004200. (disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939658/)
Dra Georgina Spies-
I am a postdoctoral researcher in the department of Psychiatry at Stellenbosch University. My interests lie in the field of NeuroAIDS. I am working on two neuropsychological and neuroimaging studies, one in HIV-infected women exposed to childhood trauma and the other in HIV-infected individuals who engage in hazardous alcohol use.
Voltar ao início