Nota editorial (2026-10-03): revisão histórica de 2014. As classes de fármacos e intervenções abaixo descrevem a literatura citada naquela época; não constituem protocolo atual, indicação universal ou instrução para ajustar medicamentos. Dor em pessoas com Parkinson pode ter diferentes causas e exige avaliação individual. Os estudos de prevalência não são ensaios de eficácia terapêutica.
Introdução
Dor é um sintoma muito frequente na Doença de Parkinson (DP). Desde a primeira descrição (1817) por James Parkinson, já se fazia referência à “dor do tipo reumática” ipsilateral à extremidade afetada. Charcot, posteriormente, descreveu diferentes tipos de dor experienciados pelos pacientes com DP.
Os sintomas não motores nos pacientes com a doença de Parkinson são muito frequentes, podendo ser encontrados antes do aparecimento dos primeiros sintomas motores ou no decorrer do curso da doença, acarretando uma alteração na qualidade de vida e no grau de autonomia do paciente. Em muitos casos, o surgimento de sintomas não-motores é associado ao período off (Witjas et al. 2002).
Em um estudo realizado por D. Santos-García et al. (2011) com 159 pessoas com DP, a dor foi o sintoma não-motor mais frequentemente relatado, acometendo 72,3 % dos pacientes. Já Beiske et al (2009) encontrou uma prevalência de dor em pacientes com DP de 83%.
Classificação e Fisiopatologia da Dor
A dor da DP tem ainda origem incerta. Alguns estudiosos acreditam que ela é de origem primária, decorrente de alterações do próprio sistema nervoso central (SNC) subjacentes à própria progressão da doença, outros, por sua vez, defendem que a dor seria um componente secundário da DP, que surgiria como complicação de outros sintomas, como rigidez, discinesias e distonias.
Frequentemente depara-se no cotidiano clínico com pacientes com dores de diferentes tipos, o que reforça a ideia de que a dor na DP tem, na verdade, etiologias diversas.
Muitos autores tentaram classificar e descrever os diferentes tipos de dor e seus mecanismos.
Segundo Ford, existem na DP cinco diferentes tipos de dor. A dor músculo-esquelética está diretamente relacionada com rigidez, deformidades, e causas reumatológicas, surge desde os estágios iniciais da doença, e manifesta-se preferencialmente como dor nas costas, no pescoço, nos ombros e nas pernas, estando presente sobretudo no hemicorpo com maior acometimento motor. Se a dor estiver relacionada a sintomas motores ou flutuações da DP, o manejo dopaminérgico pode ser considerado na avaliação clínica, sem indicação automática para toda dor musculoesquelética.
A dor radicular neuropática, por sua vez, apresenta uma distribuição dermatomérica em relação a uma radiculopatia, ou distribuição periférica nos casos de mononeuropatias ou polineuropatias. A causa mais frequente, entretanto, não se associa diretamente à doença de Parkinson, mas seria resultado de compressão radicular; o tratamento indicado nesse caso seria o tratamento clássico para dor neuropática.
A dor neuropática central apresenta-se como queimação e compressão difusas e não é um tipo de dor específico da DP. Uma das prováveis etiologias seria uma alteração do processamento central da dor como parte do processo neurodegenerativo, em que haveria perda das aferências dopaminérgicas descendentes, resultando da perda de neurônios dopaminérgicos na área tegmental ventral (TVA) e substância nigra (NS). Essa desnervação dopaminérgica acarretaria uma hipersensibilidade central aos estímulos dolorosos através das conexões entre os gânglios da base e o tálamo. Além disso, a degeneração de células noradrenérgicas do Locus Ceruleus (LC) também altera a inibição descendente das vias nociceptivas do corno dorsal da medula. Esse tipo de dor apresenta íntima relação com as flutuações motoras, aparecendo, principalmente em situações off.
A dor distônica é localizada na extremidade onde o paciente apresenta distonia – perna, pescoço e braço. Também apresenta surgimento preferencial em situações off. A terapêutica teria enfoque no controle da distonia – aumentar a estimulação dopaminérgica em situação off. Um tratamento alternativo para casos refratários desse tipo de dor consistiria na aplicação de toxina botulínica.
Nessa classificação ainda foi descrita a dor acatísica, decorrente de acatisia.
Outra classificação também bastante difundida foi proposta por Quinn et al. (1986), que divide a dor da DP em quatro tipos: a dor que precede o diagnóstico da DP; a dor do período off, que é a mais frequente nos pacientes com flutuações motoras e está associada a outros sintomas não-motores, ocorrendo principalmente em pernas, abdome e região lombar, com predomínio no período da manhã. Esta dor diminui ou é suprimida depois da primeira dose de L-dopa, e por isso, o tratamento consiste em reduzir ou evitar a ocorrência de períodos off. Há também espasmos distônicos dolorosos e ainda a dor de pico de dose, associada às discinesias graves e que melhora quando se fracionam as doses de L–dopa , consequentemente, as discinesias.
Diagnóstico
O diagnóstico da dor na DP parte da confirmação da relação entre a apresentação dolorosa e a DP. Portanto, nesse sentido, torna-se de importância singular descartar a presença de comorbidades associadas que geram dor.
A importância do estabelecimento de um diagnóstico de dor decorrente da DP reside no fato de que um tratamento pode ser ineficaz e/ou mal indicado quando não há acurácia desse diagnóstico.
Assim, nota-se a necessidade de aplicação de um questionário quanto à dor e a outros sintomas não-motores associados nos pacientes com DP. Dentre os questionários mais utilizados, pode-se citar o Brief Pain inventory (BPI) e o Medical Outcomes Study 36-Item Short Form (SF-36).
A discussão sobre o diagnóstico acurado da dor na DP torna-se bastante importante, quando se percebe que este é um sintoma subdiagnosticado, subvalorizado, havendo relatos de subtratamento, sem um percentual universal de pacientes adequadamente tratados.
Dentre os fatores fundamentais que ajudam a reconhecer que a dor se relaciona à DP são: apresentação da dor ou sua maior intensidade no lado mais afetado pela enfermidade e a melhora ao tratamento dopaminérgico.
Outra importante ferramenta para verificar a relação entre o sintoma e DP é solicitar ao paciente que faça um diário em que anote os períodos de dor e de outros sintomas não-motores, para ver se coincidem com os períodos off.
É necessário realizar em todo paciente com DP e dor uma exploração neurológica geral e minuciosa para descartar outras possíveis patologias.
Tratamento farmacológico
A terapêutica da dor na DP deve ser estabelecida segundo o tipo de dor que acomete o paciente. Nos casos de dor associada à DP, comumente utilizam-se L-dopa e agonistas dopaminérgicos, além dos inibidores da monoaminooxidase-B (IMAO-B) e inibidores da catecol-O-metil transferase (ICOMT). A resposta da dor ao manejo dopaminérgico varia conforme sua causa e relação com as flutuações motoras. Nota editorial (2026-10-03): os percentuais de 37–40% e 17% foram omitidos porque seus denominadores e a passagem específica não foram recuperados na fonte citada; não foram declarados falsos. O resumo de Beiske et al. (2009) descreve prevalência e características da dor, não comprova indicação universal de levodopa.
Nos casos em que o tratamento dopaminérgico é insuficiente, medicamentos antidepressivos tricíclicos (ADT) podem ser associados (Sandyk R, 1986). Já naqueles casos em que há associação com sintomas sensitivos, fármacos anticonvulsivantes como gabapentina ou pregabalina podem ser implementados (Vela L, 2006). O uso de anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs), analgésicos e opióides pode ser empregado se necessário. E, nos casos refratários, os derivados da morfina podem aliviar a dor num curto prazo, mas com risco de acentuar o parkinsonismo e de tolerância.
A fisioterapia, tendo como metas o alongamento muscular, a melhora da rigidez, da postura e do equilíbrio, além do aprendizado de técnicas de relaxamento, pode ter um grande impacto no alívio da dor e na qualidade de vida dos pacientes com a DP. Cabe ressaltar o papel da música durante as atividades físicas sob a forma de dança e durante sessões de relaxamento. O ritmo da música fornece ao cérebro um estímulo externo que possibilita ao paciente romper com a sua inibição motora, de modo que o ritmo guia e liberta os seus movimentos.
A liberação de endorfinas é apresentada aqui como possível mecanismo, não como efeito obrigatório da música nem explicação única do alívio da dor. Nota editorial (2026-10-03): a referência experimental específica dessa frase não foi recuperada. Além disso, a atenção, que é um componente importante na experiência dolorosa, se desloca para o estímulo musical e a atividade a ele associada.
Tratamento cirúrgico
Uma importante intervenção cirúrgica que tem sido amplamente utilizada como tentativa de tratamento para a DP é a estimulação cerebral profunda do núcleo subtalâmico, que pode contribuir para o alívio de alguns tipos de dor. [Nota editorial (2026-10-03): os percentuais do excerto foram omitidos porque não foi recuperado seu estudo e denominador específicos; não foram declarados falsos.]
Essa melhora poderia ser explicada devido à atenuação dos sintomas motores off (dor distônica off e músculo-esquelética) e pela alteração do processamento da dor nos gânglios basais nos casos de dor central.

Jaquelyne Oliveira Silva e Pedro Fonseca Ferreira-graduandos da XIIa turma do curso de Medicina-UFGD
Referências
- BEISKE, A.G. et al. Pain in Parkinson’s disease: Prevalence and characteristics. Pain, v. 141, p. 173-177, 2009.
- ERRO, M. E.; MORENO, M. P.; ZANDIO, B. Bases fisiopatológicas de los síntomas no motores de la enfermedad de Parkinson. Rev. Neurol., v.50, p. 7-13, 2010.
- GARCÍA, D.S. et al. Dolor en la enfermedad de Parkinson: prevalência, características, factores asociados y relación con otros síntomas no motores, calidad de vida, autonomia y sobrecarga del cuidador. Rev. Neurol.,v. 52, p. 385-393, 2011;
- HARADA, T.; TODA, K. Prevalence, classification, and Etiology of Pain in Parkinson’s Disease: Association between Parkinson’s Disease and Fibromyalgia or Chronic Widespread Pain. Tohoku J. Exp. Med., v. 222, p. 1-5, 2010.
- Mc DONALD, L. M. et al. Deep brain stimulation of the subthalamic nucleus improves sense of well-being in Parkinson’s disease. Mov. Disord., v. 27, p. 372-378, 2012.
- MOLNAR, G.F. et al.Differences in Neuronal Firing Rates in Pallidal and Cerebellar Receiving Areas of Thalamus in Patients With Parkinson’s Disease, Essential Tremor, and Pain. J. Neurophysiol., v. 93, p. 3094-3101, 2005
- MOTT, S. et al. Pain as a sequela of Parkinson disease. Reprinted from Australian Family Physician, v. 33,nº 8, 2004.
- SANTOS-GARCÍA, D. et al. Síntomas sensoriales en la enfermedad de Parkinson. Rev. Neurol., v.50, p. 65-74, 2010.
- SEVILLANO-GARCÍA, M. D.; MANSO-CALDERÓN, R. Síntomas no motores en la enfermedad de Parkinson y estimulación cerebral profunda. Rev. Neurol., v.50, p. 95-104, 2010.
- SKOGAR, O. et al. Parkinson’s disease patients’ subjective descriptions of characteristics of chronic pain, sleeping patterns and health-related quality of life. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 8, 2012.
- TINAZZI, M. et al. Pain and motor complications in Parkinson’s disease. Journal Neurol Neurosurg Psychiatry, v. 77, p. 822-825, 2006.
- TRUINI, A.; FRONTONI, M.; CRUCCU, G.Parkinson’s disease related pain: a review of recent findings. J. Neurol., v. 260, p. 330-334, 2013.
- WEN, H. B. Epidemiology and Clinical Phenomenology for Parkinson Disease with Pain and Fatigue. Parkinsonism Relat. Disord., v. 18, p. 222-225,2012.






