
Nota editorial (2026-10-03): trecho de livro de 2017, publicado aqui em 2018. A mensagem da ONU e o recurso JobTIPS são referências históricas, não estatísticas ou serviços atuais verificados. Opiniões, orientações de inclusão e citação de Temple Grandin foram preservadas; necessidades e capacidades variam entre pessoas. O crédito “tradução nossa” pertence ao trecho original, sem identificação individual de qual coautor traduziu.
Ter um emprego significa ocupar um espaço na comunidade, ter uma rotina organizada, conviver com outras pessoas fora do círculo familiar e entender-se como alguém capaz de participar e de contribuir com a sociedade. O emprego confere um senso de dignidade e propósito e a retribuição financeira permite maior independência e liberdade de autodeterminação. Além disso, estudos de análise econômica sugerem benefícios de programas de inserção de pessoas do espectro do autismo (EA) no mercado de trabalho, dependendo do programa e do contexto (MAVRANEZOULI et al., 2014; JACOB et al., 2015). Infelizmente, porém, as taxas de emprego de pessoas do EA ainda são muito baixas, a mensagem de Ban Ki-moon (ONU,2015) citou desemprego de mais de 80% dos adultos autistas mesmo em locais com maior conscientização, sem apresentar uma taxa representativa mundial de emprego.

Em relação ao preparo para o mercado de trabalho, aqui também o ponto de partida são os interesses específicos, que devem ser estimulados e, pouco a pouco, ampliados e direcionados para a aquisição de saberes aplicáveis e da profissionalização. Por exemplo, as habilidades de processamento visual podem ser canalizadas para o desenho industrial e a computação gráfica.
Em sua biografia, The way I see it, Temple Grandin (2011) salienta a importância da orientação e da supervisão individualizadas nesse processo e revela o papel fundamental que mentores exerceram em sua vida, em especial seu professor do ensino médio, Sr. Carlock, fazendo com que acreditasse em suas próprias ideias e direcionasse seu caminho:
Mentores verdadeiramente desempenharam um papel chave em me ajudar a me tornar a pessoa e a profissional que sou hoje. Eles podem ser catalisadores valiosos, auxiliando a criança ou o adolescente do espectro a adquirir habilidades básicas de estudo e pesquisa, que impulsionarão uma futura carreira (GRANDIN, 2011, p. 289 – tradução nossa).1
Em outro livro, Developing talents: careers for individuals with Asperger syndrome and high functioning autism (GRANDIN; DUFFY, 2004), Temple Grandin elabora um guia prático para pais e educadores de como promover talentos individuais e inserir a pessoa do EA no mercado de trabalho.
Várias etapas podem ser limitantes à empregabilidade. A escolha do futuro empregador, o preparo do currículo e a primeira entrevista já representam enormes desafios para a aquisição de um emprego. A adaptação à rotina de trabalho, ao ambiente, às pessoas, às regras de comportamento e de comunicação, a necessidade de flexibilidade diante de novas situações e o planejamento independente de tarefas esbarram nas dificuldades de comunicação, de socialização e de ajuste a mudanças características do autismo.

Há, muitas vezes, necessidade de preparo e monitoramento individualizado com instruções explícitas sobre regras de convívio em grupo, perspectivas, expectativas e reações de outras pessoas. O programa de multimídia JobTIPS 2 fornece vídeos, cartões com jogos de papéis, exercícios, testes, entre outras ferramentas para o treino de cinco etapas profissionais: 1) determinar os interesses profissionais; 2) encontrar um possível emprego; 3) conseguir um emprego; 4) manter o emprego; 5) deixar o emprego. Ainda mais interessante é a possibilidade de ensaio de situações típicas em ambiente protegido, com a supervisão de um terapeuta.
1 “Mentors did, indeed, play a pivotal role in helping me become the person and professional I am today. They can be valuable catalysts to helping the spectrum child or teen learn fundamental study and research skills that will propel them to a future career.”
2 Disponível em: <http://www.Do2Learn.com/JobTIPS>. Acesso em: 20 mar. 2016.
Se, por um lado, é recomendável um treinamento em habilidades sociais básicas, por outro, cabem ao ambiente de trabalho as mesmas considerações feitas para a escola. Características locais, como grau de luminosidade, exposição a ruídos, circulação de pessoas e odores, precisam ser consideradas, uma vez que pessoas do EA podem ter a sensibilidade aumentada para alguns estímulos. A rotina deve ser estável e previsível, informações precisam ser fornecidas explicitamente e, se necessário, através de recursos visuais. A chefia imediata precisa ser acessível e capaz de estabelecer uma comunicação direta para o enfrentamento de problemas. As pessoas precisam ser preparadas para cooperar, superar suas diferenças e romper com o conceito de uma normalidade padrão. Todas as formas de pensamento podem ser construtivas. Além disso, algumas características presentes em algumas pessoas do EA são potencialmente interessantes para o mercado. Algumas pessoas autistas podem ter habilidades como atenção a detalhes, memória ou concentração em áreas de interesse; capacidades, formas de comunicação e necessidades de apoio variam entre indivíduos, sem um perfil profissional único.

