István Bókkon, Birendra N. Mallick, and Jack A. Tuszynski. Frontiers in Human Neuroscience, 2013; 7: 533 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3769617/#!po=2.38095
Nota editorial (2026-10-03): resenha de 2014 de um artigo classificado como hipótese e teoria em 2013. A explicação por biofótons é uma proposta dos autores, não demonstração experimental de seu mecanismo nas experiências de quase morte humanas. Relatos subjetivos são tratados respeitosamente, sem comprovar percepção externa independente do funcionamento cerebral. A biografia pertence à publicação original.
A experiência de quase morte (EQM) inclui um amplo conjunto de experiências subjetivas associadas com a morte iminente, sendo as mais frequentes: experiência fora do corpo (separação da consciência do corpo físico), passagem através de um túnel com luzes brilhantes, alucinações como ver parentes falecidos, reunir-se com espíritos guardiões ou seres místicos. Os autores descrevem semelhanças entre características dessas experiências em diferentes contextos, sem estabelecer independência universal de língua, cultura ou idade. Embora haja teorias psicossociais para explicar as EQMs, o objetivo do artigo em análise foi propor explicações a partir de teorias neurobiológicas.
O artigo sugere que as luzes brilhantes percebidas na EQM podem ser devido à reperfusão durante o período de recuperação em várias áreas do sistema visual, o que geraria uma superprodução desregulada de radicais livres e moléculas energeticamente excitadas causando um aumento transitório de biofótons bioluminescentes em diferentes áreas do cérebro. Se esse excesso de emissão de biofótons exceder um limite em áreas cerebrais responsáveis pela visão, esses seriam interpretados como luzes (fosfenos), segundo a hipótese, porque o cérebro os interpretaria como se originados a partir do mundo visual externo.
Durante o processo de percepção visual, fótons refletidos a partir de objetos são absorvidos por fotorreceptores e convertidos em sinais elétricos na retina. Em seguida, os sinais elétricos retinotópicos são encaminhados para o V1 (córtex visual primário), através das vias axono-dendríticas clássicas. Segundo o mecanismo proposto pelos autores, esses sinais elétricos, ao mesmo tempo que são transportados, produziriam biofótons cuja intensidade pode ser elevada no interior dos neurônios em comparação ao meio extracelular. Segundo a hipótese discutida, isso poderia permitir o aparecimento de imagens biofísicas em áreas visuais V1. O artigo, no entanto, argumenta que imagens no campo visual podem ser representadas diretamente nas redes neurais retinotópicas V1, sem a presença de objetos no mundo físico externo, graças aos biofótons gerados a partir de processos redox. Esse conceito, também chamado de realidade virtual visual biofísica, pode ser relacionado ao que acontece nos sonhos durante o sono REM e nas alucinações. Os autores propõem que, durante a EQM, haveria participação de mecanismos do sono REM associados a imagens oníricas criadas a partir da memória visual de longo prazo. Isso justificaria as visões de parentes e de seres místicos características das EQMs.
A experiência fora do corpo (EFC) pode ser induzida através da estimulação elétrica no giro angular direito do cérebro. Assim a imagem do corpo do paciente é distorcida, causando a sensação de ser maior ou menor ou de estar fora do próprio corpo. A hipercapnia (nível anormalmente elevado de dióxido de carbono no sangue circulante), frequente em pacientes durante EQMs, também pode produzir fenômenos como EFC. Apesar de haver várias outras situações que podem induzir a EFC (como acidente vascular cerebral, epilepsia, abuso de drogas e experiências traumáticas), essa sensação de que a sua própria consciência é colocada para fora de seu corpo físico é diferente na EQM, pois há relatos de recordações e detalhes de eventos atribuídos ao período de inconsciência. [Precisão editorial,2026-10-03: relato retrospectivo não basta para confirmar percepção visual verídica fora do corpo. No AWARE-II (2023), nenhum participante identificou a imagem visual-alvo; um identificou o estímulo auditivo. O estudo discute atividade cognitiva durante ressuscitação, sem confirmar a hipótese dos biofótons.] Este fato desafia a compreensão científica, mas também oferece uma oportunidade para a investigação da relação entre a autoconsciência e a função cerebral.
Apesar dos estudos estarem avançando, principalmente depois da criação da Associação Internacional de Estudos de Quase Morte (IANDS) em 1981 e do AWARE (awareness during resuscitation – consciência durante ressuscitação) do Projeto Consciência Humana em 2008, o artigo nos revela que há ainda muitos aspectos que deverão ser mais aprofundados como no que se refere à autoconsciência e à sua relação com a função neural e EFC. O artigo, assim, é um importante passo para consolidar a busca do conhecimento sobre essas experiências iminentes à morte que datam desde o Livro X de A República de Platão e que ainda produzem grande efeito na vida e na crença das pessoas implicando em reflexões sobre o propósito humano.
Diana Sevilha Salvucci
Natural de Vitória-ES, 27 de março de 1991. Graduando em medicina da Universidade Federal da Grande Dourados, turma XIV, bolsista do projeto Jovens Talentos para a Ciência — Capes/CNPq.
Referências
Van Wijk EP et al: Anatomic characterization of human ultra-weak photon emission in practitioners of transcendental meditation(TM) and control subjects, J Altern Complement Med, 2006 Jan-Feb;12(1):31-8.
Walton KG, et al: Psychosocial stress and cardiovascular disease Part 2: effectiveness of the Transcendental Meditation program in treatment and prevention, Behav Med, 2002 Fall;28(3):106-23.
Tootell, Roger B.H. [et al.] – From retinotopy to recognition: fMRI in human visual cortex. Trends in cognitive sciences. S.l.: Elsevier Science. Vol. 2, n.º 5 (1998), p. 174-183.





